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Albergue dos danados

Blog de maus e mal-dizer 

2003-11-30


Na edição de hoje do vetusto Diário de Notícias, o João anuncia-se comovido com a sincera megalomania contida nas Confissões do senhor arq.º do espesso Expresso. O seu colega Pedro Correia é mais desagradável na apreciação que faz de tais Confissões. Aqui neste tugúrio ninguém se dedicou à leitura de semelhante prosa. Seja como for, sentencia-se daqui, as ditas Confissões são um exercício detrambelhado de destilação narcísica do respectivo autor. Ele está lá, nas Confissões, não como confessado, mas como confessor. É isso que o faz uma criaturazinha sinistra e de leda pequenez. Porque de política, o fruste, sabe apenas o que pode ser expresso em parágrafos de uma frase só. Não é estilo. É limitação. Segismundo.

Referência



O senhor dr. secretário-geral do CDS/PP, na sessão de abertura do décimo quarto congresso da JuventudePopular, disse “é por a Constituição espanhola ser como é e por a portuguesa ser também como é que a America’s Cup se realiza em Valência”. A estupidez devia ser obrigada a comedimento. Ou isso ou devia ensinar-se no primeiro ciclo do ensino básico que a America’s Cup não tem puto a ver com a Constituição da República Portuguesa. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



Disse o senhor dr. presidente do PND, a armar ao pingarelho, “se a NovaDemocracia tivesse representação parlamentar, neste momento estava a propor uma moção de censura à política financeira do Governo”. Como a tal seita não tem assento na Assembleia da República, a pátria foi privada do folclore típico destes exercícios de bluf. Para mais, as moções de censura visam o Governo. Jamais um segmento particular da sua política. É por estas e por outras semelhantes que, em muitas circunstâncias, o silêncio é preferível à estupidez publicitada. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência

2003-11-29


O matrimónio é uma alucinação. Indiferente ao facto, depois de ter andado por aqui a trautear Mendelson, a Charlotte contraiu-a, a alucinação. Só há uma solução para o mal. Dançar o tango. O Marquês.

Referência



O Daniel sobressaltou-se com uma polaroid da senhora dr.ª deputada do PCP Odete Santos, estampada na última edição da Visão. O José entendeu que o sobressalto correspondia a uma manifestação reaccionária. O Daniel reagiu. Disse que não, que o seu gesto não era reaccionário, mas a denúncia de um acto que visava, também ou em última instância, servir o partido político de que a senhora dr.ª deputada Odete Santos é militante. Não sei. Não invento. Mas admito que a dita senhora dr.ª deputada tenha feito o que fez, pose incluída, porque lhe deu na gana. A vontade é algo que não se vê. Porém, embora não se veja, não convém, por isso, esquecê-la. Segismundo.

Referência



Uma das práticas onde é evidente a sanha reaccionária da coligação que suporta o actual Governo é a constante denúncia do manto ideológico que embrulha a Constituição da República Portuguesa. Por ser ele evidente, seria estupidez negá-lo. Em todo o caso, a pretensão de limpar a dita Constituição da República Portuguesa da sua carga ideológica é pura e simplesmente de néscio. É que, se se tirar a marca ideológica ao texto constitucional, deixa-se lá outra marca ideológica. Por mais indelével que ela possa parecer, o certo é que persistirá lá uma marca ideológica. Não há out ideológico. Acontece o mesmo na natureza. As bestas podem querer mudar de natureza, mas não deixam de ter uma natureza. Ela pode ser outra, mas é natureza. E quase sempre ainda natureza de besta. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



O senhor dr. presidente do Governo Regional da Madeira tenciona recandidatar-se a isso mesmo, confirmando, assim, que é um ente muito querido. Abandonará as respectivas honras, depois, por meados do mandato. A coerência nunca foi virtude que lhe pesasse. O senhor dr. presidente do PSD concorda. E, por isso mesmo, à valente!, apoia-o. É isto a integridade política. Nicky Florentino.

Referência



O senhor presidente da Câmara Municipal de Marco de Canavezes tenciona candidatar-se nas próximas eleições a senhor presidente da Câmara Municipal de Amarante. Boas notícias para uns, más notícias para outros. É sempre assim. Nicky Florentino.

Referência



Segundo consta, a partir de Janeiro de dois mil e quatro chegarão aos chãos nipónicos latas de atum, sardinhas, cavalas e lulas com sabores adequeados aos autóctones, com a insígnia da Conserveira Ramirez devidamente estampada na embalagem. A notícia, pois claro – é sábado –, surge na fronha da edição de hoje do espesso Expresso. São atenções como esta que fazem de tal semanário uma instituição. Segismundo.

Referência

2003-11-28


No artigo estampado na edição de hoje do Público, confessou João Bérnard da Costa que com frequência se questiona sobre Orson Welles, “sobre o que nele é fake ou sobre o que nele é fuck, sobre as suas negras magias, sobre o seu «cortejo infernal de alarmes», sobre os seus abismos, acções, desejos e sonhos”. João Bérnard da Costa interroga-se assim não por ser inspector de películas, mas enquanto alguém que ensaia um exercício de vigilância dos limites da sua própria experiência. Pois ele sabe, como qualquer danado, que há respostas cujo encontro não se deseja. O fulgor da pergunta é animação e orientação suficiente para a vida. Segismundo.

Referência



Coragem é ir ao Iraque e anunciar depois de já lá não se estar que lá se esteve. Bush fê-lo, o que faz dele um corajoso. Embora um corajoso daqueles, tipo medíocre. Como os cães que vão à capoeira jantar. Pois também eles, os cães, não ficam para as consequências. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



Na cerimónia de celebração do vigésimo aniversário do Tribunal Constitucional, disse o senhor dr. primeiro-ministro que “em Portugal a nossa Constituição não surgiu democraticamente”. Que é como quem diz, surgiu na sequência de um golpe de Estado promovido por capitães, furriéis e demais patentes militares. Ora, como certamente o senhor dr. Paulo Portas ensinou ao senhor dr. primeiro-ministro – e ele aprendeu –, coisa que não é democrática é um golpe de Estado animado por fauna dos quartéis. É por isso que ele, o senhor dr. Paulo Portas, aprecia tanto ser senhor dr. ministro de Estado e da Defesa. Mandar na tropa foi um desejo que provavelmente acalentou desde menino e moço, o fruste que nunca foi magala. Nicky Florentino.

Referência



O que o senhor eng.º José Sócrates diz não merece ser escrito. É desperdício de tempo, seja na escrita, seja na leitura. E é desperdício de tinta. A edição de hoje do Público, porém, alheia ou avessa a este princípio de salubridade pública, dedicou-lhe um sexto de página. Há formas menos brutais e ofensivas de incomodar o público do Público. Nicky Florentino, O Marquês e Segismundo.

Referência

2003-11-27


Segundo revelou a memória do senhor dr. primeiro-ministro, dos tempos em que ele era apenas senhor dr. secretário de Estado, um dia ele atravessou a pé a fronteira entre a Tanzânia e o Quénia. Confessou ele ainda, “conheci aí a tribo Masai, um povo nómada e guerreiro. Disse-lhes que era de Portugal e eles, em Inglês, associaram logo ao nome do Futebol Clube do Porto, que no anterior tinha vencido a Taça dos Campeões Europeus”. Compreende-se agora, com rigor, o motivo pelo qual era tão desejada a presença do senhor dr. presidente da Assembleia da República na inauguração do estádio do Dragão. É que assim, com a sua ausência em tal cerimónia, pobre coitado do açoriano, o seu nome jamais será recordado entre os Masai. O que significa que, por mesquinhas contingências, ele há glórias que alcançam mais longe do que outras. É o que é. Nicky Florentino.

Referência



Existe muito tempo que os lusos gentios andavam a experimentar a sensação de que a senhora dr.ª ministra de Estado e das Finanças tinha cara de pau, tipo Pinóquio. Agora, como este desdobramento de conversa, entre o que diz lá fora – em forçado favor aos governos francês e alemão – e o que diz no cerco da sua domesticidade – ao povo da pátria –, confirma-se. A dita senhora dr.ª ministra tem, de facto, fronha de pau. Imagine-se o que ela terá chorado antes da reunião do Ecofin. Lascas, certamente. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



A decadência é um dos mais importantes tempos da vida. Ao cair, sem composição prévia, qualquer pessoa eleva-se ao limite da perfeição humana. É aí que, como na loucura, reside o máximo de liberdade. A depuração plena do espírito só se consegue no processo da queda. O primeiro patamar para além daquele limite é onde começa a ficção, onde principia o território onde não há tempo. Não por acaso, foi aí, no primeiro patamar para além daquele limite, que deus foi domiciliado. E é por isso, por morar nesse território onde não há tempo, que deus não morre.
Sim, o limite soberano e soberbo da humanidade é a decadência. Para lá da decadência, nada há de relevante. Apenas a miséria. Ou a morte. Uma impede a liberdade. A outra é uma hipótese que não garante a peripécia, o nome dramático da vida quando se revitaliza. Segismundo.

Referência



A necessidade impele qualquer mortal a frequentar as chamadas superfícies comerciais. Em tese, tais superfícies deveriam ser evitadas por qualquer ajuizada criatura. Deveriam ser abandonadas à fauna típica, as rapariguinhas do shopping, as senhoras da limpeza, as rapazes da empresa de segurança com walkie talkies, os prezados clientes e as adolescentes vestidas e calçadas de modo obsceno, a mascar pastilha elástica e de mão dada com adolescentes vestidos e calçados de modo que, por decoro dos parentes sobreviventes, ninguém é sepultado. Um centro comercial é o mais próximo que há de uma galeria de horrores. É o lugar onde o capitalismo celebra a miséria, tranfigurando-a não em consumo ou em consumíveis, mas em consumidores. O Marquês e Segismundo.

Referência

2003-11-26


Encosta o indicador, em riste, ao vidro e diz olha!, amor, não é bonito? – não, não é bonito. Ele olha displicente, não responde. Ela recolhe o dedo, deixando gravada a gordura do seu dígito na vitrina. Fica lá a impressão do seu desejo, desejo aplacado por uma invibilidade. Ele revela-se indiferente ao sofrimento dela. A vida ensinou-o a não ser excessivo nos desejos. Por isso escolheu-a a ela para sua namorada ou esposa. São estas condições que tornam provável a violência doméstica. Alguém tem de suportar a impiedade da vida. Que sejam os mais fracos, é a regra. Ou, se não os houver próximos, que sejam as mulheres. A matéria é quase a mesma. Daí que, na prática e pela prática, seja indiferente sobre quem se abate a violência. O que releva é o efeito catártico desse processo. O Marquês e Segismundo.

Referência



Os filhos são assombrações, prolongamentos sublimados do mal que os concebeu. Para além disso, pela sua própria condição, os filhos jamais param de crescer.
É próprio dos filhos atentarem contra o discernimento possível dos progenitores. O Filipe, que insistiu em licenciar-se em sociologia, contrariando o sapiente conselho do seu pai, é uma ilustração paradigmática disso mesmo. Como se fosse uma maldição. Não bastava ao senhor ter um filho, logo as contingências da puta da vida lhe tinham de fazer calhar um filho com a mania de ser sociólogo – porque na pátria não podia ser politólogo. Aconteceu-lhe, pois, o pior que pode acontecer a uma pessoa. Para além de ser pai, o pai do Filipe é pai de um sociólogo. Há modos menos cruéis de a vida ser madrasta a um mortal que subsidiou a reprodução da própria espécie. Ninguém, por mais inconfessos que sejam os respectivos pecados, merece ser pai de uma criatura em quem o cinismo é autenticamente cínico. Pois é isso o que os sociólogos são. Segismundo.

Referência



A âncora da America's Cup não será na doca de Pedrouços. O senhor dr. ministro-adjunto do senhor dr. primeiro-ministro está inconsolável. É um prazer sabê-lo. Nicky Florentino e O Marquês.

Referência



Escreveu o senhor Prof. Doutor José Manuel Meirim na edição de hoje do Público, “como é do conhecimento geral, a proposta de lei n.º 80/IX, Lei de Bases do Desporto, já foi aprovada na generalidade”. Confesso que, chocado, não consegui continuar a ler a prosa do dito senhor Prof. Doutor. Correu-me um frémito. Fui assomado por suores frios. Nunca julguei andar tão alheado das novidades legislativas da república portuguesa. O que permite a inconsciência. Todos, os que fazem parte da geral, sabem que a proposta de lei n.º 80/IX já foi aprovada na generalidade. E, sobre isso, eu nada sabia. Sinto-me pequeno. Miserável. Uma personagem indigna. Com vontade de me entregar ao suicídio. Apenas o pudor não me permite reconhecer esse sentimento. Nicky Florentino.

Referência



Olha-se para a polaroid estampada na página cinquenta e dois do suplemento local – Lisboa da edição de hoje do Público e percebe-se que, ao contrário do dementemente inscrito na notícia, a cratera não tem quarenta metros de diâmetro. Isto, claro está, se se entender que o diâmetro corresponde à duplicação do raio e, portanto, que não se confunde com o perímetro. Segismundo.

Referência



As pátrias mais simpáticas são aquelas onde as improbabilidades não são assim tão improváveis. Em muitos paralelos ou meridianos pode ser considerado estranho o chão colapsar, abrir-se uma cratera e nela alojar-se, a pique, um autocarro. Mas é isto que faz de Campolide, primeiro, e Portugal, depois, terras maravilhosas. Pois é das terras maravilhosas aluírem e, na sua sequência, tragarem autocarros. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



Os gêéneérres anuíram embarcar numa excursão de serviço ao Iraque. A propósito deste facto, o senhor dr. presidente da República disse que tal missão “não é uma brincadeira ou o mesmo que ir a Alcochete”. Ora, ora, senhor dr. presidente da República, isso era coisa já sobejamente sabida. Nenhuma criatura que se ponha a brincadeiras ou que viande por Alcochete alguma vez suspeitou que, por isso mesmo, estivesse isenta de irs. Nicky Florentino.

Referência



O poder dos fracos é a submissão despudorada e voluntária aos fortes, aos que, se essa for a sua vontade, são capazes de fazer vergar e amochar os fracos. Ao submeter-se aos francos e aos germanos – e, por tal gesto, caucionar a ofensa deles ao Pacto de Estabilidade e Crescimento –, o Governo da pátria fez por merecer não respeito, mas condescendência. Raramente isso, a condescendência, é recurso que fortaleça. Para além de que um governo que se verga no plano das relações externas não é um governo que seja prezado no âmbito doméstico. É um governo titubiante. E ninguém se submete aos que titubeiam. Pois eles são fracos. Nicky Florentino.

Referência



Olho para o mais visceral democrata e condoo-me. Recuso-me a admitir que, perante a evidência dos autênticos gentios, alguém, em juízo, consiga não vacilar. E, consciente, persista no erro de ser democrata. É que ele há erros que não redimem ninguém. Nicky Florentino.

Referência

2003-11-25


Vinte e cinco de Novembro... Mil novencentos e setenta e cinco... O esquecimento é um conforto. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



A experiência de Mystic River, revelado em celulóide, remete para uma frase de Montaigne, “é necessário aprender a sofrer o que não se pode evitar”. O mais que se pretenda dizer sobre o filme tende a aproximar-se do erro. Seja como for, nos termos em que sentenciou uma das personagens, "we bury our sins, we wash them clean". Segismundo.

Referência



George Soros, quando de dedicava à especulação, era uma criatura confiável, no sentido em que era possível estimar antecipadamente os desígnios que lhe orientavam o verbo, o dito e o feito. Agora, porém, transformou-se num fulaninho suspeito. Uma prova mais dessa sua nova estranha condição foi estampada na edição de Dezembro d'The Atlantic Monthly. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



Desejava ser mais verdadeiro, desabafou. Mas, se esse é o teu desejo, porque é que não tentas ser mais autêntico?, perguntou ela. Se o fosse, deixaria de ser uma personagem de um blog. E não é de mim trair-me. Antes ser mais do que ser menos. Já sou mais do que sou. Mas a solidão basta-me. Esta, completa, foi a resposta dele. Não disse porquê. Segismundo.

Referência

2003-11-24


Há um certo prazer em ouvir reclamações. As reclamações são expressões diferidas de dores. Reclamam os doridos, aqueles que sofreram ou que, não tendo sofrido, julgam ter sofrido. E isso, ouvir reclamações, é um gozo que não deve poupado a ninguém. Apenas três categorias de gente não reclamam. Os mortos. Os satisfeitos. E os masoquistas. Tudo criaturas que podem e merecem ser esquecidas. Mas maior prazer do que ouvir reclamações é não atendê-las. O Marquês.

Referência



As notícias sobre os inviesados processos de colocação discricionária de alguns professores são sintomáticas do colapso do Estado da pátria. Estado que é Estado não cede às manias privadas dos gentios. O Estado ou é uma besta ou não é Estado. Pelo que, se o senhor dr. secretário de Estado da Administração Educativa despachou o que despachou como despachou, triunfou o amor ou a amizade entre gentes, quando, suposto, era que a aplicação das regras do aparelho público fosse sine ira et studio. Sinal, portanto, de que essa entidade apodada de sociedade civil é insidiosa. E não o chão virtuoso que tantos proclamam. Pelos amantes ou pelos amigos, tudo. Pelos outros que são os outros, nada. Ou logo se vê. Como na selva. Uns comem-se aos outros. A dieta do costume. Nicky Florentino.

Referência

2003-11-23


Alguém viu o senhor dr. presidente da Assembleia da República na inauguração do estádio do Algarve? Nicky Florentino.

Referência

2003-11-22


O senhor dr. presidente do PND anunciou pretender para a pátria "um sistema de presidencialismo puro". Por defeito, deve suspeitar-se de quem reclama puro o que quer que seja. Desejos de pureza apenas se justificam em relação a líquidos destilados. Nicky Florentino.

Referência

2003-11-21


A televisão fascina-me. Como consumo pouco desse mal, nas poucas ocasiões em que a ela me exponho fico facilmente cativo do seu efeito alienante. Hoje, por exemplo, dei comigo a imaginar um spot ou, melhor, uma reportagem onde aquele indiano fizesse à senhora Manuela Moura Guedes as tropelias necessárias para a assemelhar à forma de um Peugeot duzentoseseis. Pagava para ver. O dobro, se necessário fosse. O Marquês.

Referência



Tudo está como sempre esteve, nos mesmos e exactos lugares. Por isso, é difícil compreender por qual raio desanda o mundo tanto, seja sobre si mesmo, seja em torno do sol. É prana demais para tão escassa civilização. Segismundo.

Referência



O senhor dr. presidente da Câmara Municipal de Lisboa não compareceu à última sessão da Assembleia Municipal. Justificou a ausência com o facto de estar doente. Mas à noite, parece que esteve a debitar bitaites no noticiário da SociedadeIndependentedeComunicação. Há males que são assim. Desanuviam face às câmaras de televisão. É por isso que não são, nunca foram, verdadeiros males. Nicky Florentino.

Referência



Nas manifestações que vão animando alguns dos lugares do noroeste, o que mais interessa não é o número de participantes – poucos ou muitos pouco releva –, é a imaginação demonstrada, em palavra e em acto, por esses mesmos participantes. Na prática, as manifestações são concursos de impropérios e tonterias. Vence o que apresentar o cartaz mais ordinário, o que proferir o slogan mais canalha, o que se expressar pela coreografia mais pornográfica. Para além da forma folclórica, tudo o mais é vácuo, conteúdo consumido por sim mesmo, gasoso impossível de materializar. Os manifestantes, hoje, sabem que uma manifestação sóbria não é uma manifestação. É uma procissão. E as procissões não impressionam. As procissões não motivam. Nas procissões não é bonito ostentar num cartaz ou numa t-shirt a exclamação fuck Bush!, tal como não fica bem gritar one, two, three, four, Tony Blair is Bush’s whore. Algures, há sempre um cura com a sua paramenta. Algures, alguém alomba com um andor sobre o qual está alcandorado o padroeiro lá da paróquia. Enquanto as procissões são a celebração da ordem tradicional, as manifestações são a celebração da desordem moderna. Para além disso, as manifestações, por serem espaços de catarse civilizacional segregados pela própria modernidade, têm uma vantagem. A besta que pulsa dentro de cada um pode expressar-se sem consequências de maior. Nos jogos de futebol ou nas campanhas eleitorais não é diferente. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



A dinâmica da ofensa recíproca, o típico do ut des, opera segundo uma lógica do tipo da do papagaio. É psitacista. E termina apenas por via do esgotamento, por via do cansaço dos agentes dessa ofensa. O que significa que a natureza é uma boa programadora de bestas. Todas têm o seu limite. O Marquês e Segismundo.

Referência

2003-11-20


A sociologia e a esquerda, a esquerda e a sociologia. A esquerda tende a perder neste jogo. E quando não perde, não perde para a sociologia, mas para algo aparentado. Que não é sociologia. Aliás, acontece assim tanto com a esquerda quanto com a direita. Porque o raio do mundo tem muito mais lados do que apenas dois, o canhoto e o destro. O meio não conta. Mas sobre este assunto, por aqui perto, a única criatura devidamente avalizada para se pronunciar é o João. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



Segundo uma estimativa baseada em informação dos Censos de 2001 e em cenários plausíveis, para garantir um razoável índice de vitalidade demográfica da pátria é necessária a entrada de mais de duzentos mil imigrantes à razão de ano. Começa a ouvir-se um murmúrio vindo do fundo chão da pátria, da sua difusa alma. Seja o que deus quiser. Oremos. Mas antes envelhecer do que escurecer. Segismundo.

Referência



Segundo o senhor dr. ministro da Saúde, “prevenir é melhor do que tratar, tratar é melhor do que fazer redução de danos e fazer redução de danos é melhor do que não fazer nada”. Algures, provavelmente não muito adiante no raciocínio, encontrar-se-á a luminosa sentença segundo a qual estar vivo é o contrário de estar morto. Ao chegar-se aqui, porém, já se destilou todo o maniqueísmo relativista. Este é o reduto último. Para além dele, nada há. Ou isso ou Heidegger equivocou-se. Segismundo.

Referência



Sobre obsessões não falo. Sei o que exigem. Padeço das minhas. E sei que o excesso delas não aflige nem muito nem pouco, nada, o défice orçamental. O problema é outro. Diria, a senhora dr.ª ministra de Estado e das Finanças que se aguente. Mas não faz sentido. Os que têm que aguentar são outros, as vítimas, não ela, a obcecada. É sadismo. Eu sei. Sei do que falo. O Marquês.

Referência



Disse o senhor dr. primeiro-ministro, “é meramente burocrática a distinção entre ameaça interna e ameaça externa”. Meramente burocrática não é. Mas, sim, é verdade, a distinção tem o seu quê de burocrática. Ele há ameaças externas que moram cá dentro da pátria, ele há ameaças internas cujo domicílio é para além das fronteiras. O que quer dizer que o inimigo é ubíquo. E que, como dito na oração, ele está no meio de nós. Portanto, só há três opções ajuizadas. Ou a confissão. Ou o suicídio. Ou a ofensa legítima. Nenhuma outra hipótese permite confinar a ameaça e reduzir os riscos. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



O José, pelo que inscreveu no artigo estampado na edição de hoje do Público, tem razão. Cadeados e correntes nas portas de uma universidade da pátria não rimam com liberdade. Também não têm que rimar. Há muitas outras coisas nas universidades da pátria que não rimam com liberdade. Os estouvados dos estudantes, por inconsciência ou insensibilidade, parecem não ser capazes de dar visibilidade pública a essas outras coisas, a esses outros estorvos à sua liberdade. Os assanhados conservadores da moda, também por inconsciência ou insensibilidade, não reconhecem esse outro lado do problema ou desqualificam-no. Os estouvados dos estudantes e os (ir)responsáveis pela gestão das universidades, assim como os (ir)responsáveis políticos, sendo todos da mesma cepa, entretêm-se comodamente a brincar ao faz de conta. A compor o boneco. A representar para a audiência. Fazendo muito ruído. Merecem-se uns aos outros. E, em grande medida, justificam Portugal.
Transpor o problema das propinas para o plano da justiça é um exercício ajuizado. No entanto, limitar a equação da justiça a essa variável é o mesmo que confundir a árvore com o arvoredo. É estreito. Ou é cirúrgico. Porque o José deveria ter olho para esse lado oculto do problema – que, não obstante seja oculto, não deixa de ser constitutivo do problema –, ele tem razão, mas não a tem toda. Pelo que é necessário convocar a contabilidade para apurar se a razão que ele tem é suficiente para se poder dizer que ele tem razão. Não sei. Sei apenas que há problemas bem maiores. Nicky Florentino.

Post scriptum, o José tem motivo para denunciar o excesso de tolerância dispensada relativamente aos estudantes. Fosse outra a fauna a causar distúrbios, mais gentia ou proletária, haveria provavelmente menos pruridos no recurso ao cassetete para repor a ordem e abrir as portas. O outro lado do problema é que não pode ser consertado à porrada. É esse um dos problemas deste problema. O que exige maior discernimento e comedimento.

Referência



Sonhei. E acordei com desejos. Desejos estranhos. Electrocutar um tareco. Pode ser o Varandas da Charlotte. Não estou para grandes simpatias, não estou para grandes escolhas. A criatura que me anima, percebendo o desejo que me assomou, olhou-me de soslaio, franziu a testa. Mas isso é sádico, afirmou. Ora, é isso que sou, retorqui. Não, tu és o que a minha vontade determinar, disse, em jeito imperial. Como a criaturinha se engana. Eu sou o que sou, senhor de mim mesmo, para além do que arbitre o seu desidioso arbítrio. Sou mau, muito mau. Cutchi, cutchi, cutchi, ó bichano, chega aqui. Não te assustes com o fio. Tens tantas vidas. Cutchi, cutchi, cutchi, anda cá bichano, anda cá. O Marquês.

Referência



Marota..., disse ele. É isso que me ofende!, exclamou ela, que não reconheças o que sou!, prosseguiu em tom elevado. Ao mesmo tempo, com a mão firme na aselha, zás!, zás!, assestou-o repetidamente com o pingalim. Qualquer ofensa tem o seu preço. Quase sempre cotado em dor. O Marquês.

Referência



Meia-noite atravessada, sintonia da TelefoniaSemFios, oitenta e nove ponto cinco, éfeéme stéreo. Ouvi. Entende, se é entendimento, o senhor dr. Pedro Santana Lopes que a comunicação social é o segundo poder. Qual seja o primeiro não disse. Quais sejam os terceiro, quarto e aí por diante tão pouco. Disse apenas que o Conselho de Estado ou, em alternativa, o eventual Senado – que ele tanto parece desejar – deveriam ter representantes da comunicação social. Como escrutiná-los não disse. Também não interessa. Será coisa a ver. No futuro. Quando não há baias a segurar o juízo, é no que dá. A estupidez pulsa. É a natureza. Ou, se em civilização, é o circo. Ora, da natureza, gosto da fauna autêntica, das verdadeiras bestas. Do circo não gosto dos palhaços, dos ilusionistas ou dos malabaristas. Nicky Florentino.

Referência

2003-11-19


Perguntou-se ele sobre o tipo de criatura a quem concederia crédito pelas respectivas palavras ou acções. Pensou pouco. Pensou lento. Talvez a quem carrega botijas de gás butano, foi o que pensou. Pensou um pouco mais, mas não tanto que deixasse de ser pouco o que pensou. Não há gente desta em Lisboa, pois não?, inquietou-se. Não. Então não pode ser, assim arrumou ele o pensamento, pensando para consigo. E continuou como antes, a suspeitar de todos. Pois do pouco que um dia ele pensou mais demoradamente fez-se-lhe juízo que a confiança é um engano que se deve evitar. Por defeito, entendem uns. Por virtude, entendem os que entendem. As coisas são simples. O que se sabe, sabe-se. Por aqui, por se saber, está dispensada a confiança. O que não se sabe, não se sabe. E, por aqui, pode confiar-se. Porém, é um risco confiar. Podem as coisas, sempre, não ser como são confiadas. E antes não há como saber se assim é. Apenas depois é que se sabe isso. E depois, quando é de não confiar antes, é sempre tarde. É o tempo em que já dói. E se há que doer, que doa aos outros. Ele, embora pouco, assim pensou. O Marquês e Segismundo.

Referência



Parece que uma trupe de catraios da bola que enverga a camisola das quinas, uns tais de subvinteeuns, destruiu um balneário em França. Incontida euforia, parece que foi a causa. Massacre, em Francês, foi o que sentenciou um franciú qualquer. Parece que o prémios dos jovens rapazes, essas autênticas bestas à solta – pelo que é dado a ver – chamadas esperanças, vai ser a presença na fase final de um torneio europeu. Se houvesse decoro e hombridade, os moinantes culpados do feito não meteriam lá os pés. Mas a FederaçãoPortuguesadeFutebol é o que é. Portuguesa. E de futebol. Maior desgraça não há. Se houver dúvidas, que se pergunte a um tal senhor Madaíl. Ele vai negar, certamente. O que confirma. Maior desgraça não há. Nicky Florentino.

Referência



À terça-feira o senhor dr. Pedro Santana Lopes aparece no noticiário nocturno da SociedadeIndependentedeComunicação. À terça-feira o senhor dr. presidente da Câmara Municipal de Lisboa deveria estar nas sessões da Assembleia Municipal. Se um homem não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, só há uma consequência simpática. Em algum desses lugares esse homem está a mais. Nicky Florentino.

Referência



Disse o senhor dr. presidente do governo regional da Madeira que “adorava um dia ser preso político”. Ora, tem essa adoração solução fácil. Basta o senhor dr. Alberto João Jardim fazer por merecê-lo. Insistir. Talvez não consiga ser preso político. Para isso é necessário um certo estatuto. Mas talvez consiga ser encarcerado. Aliás, ser político preso é quase a mesma coisa que ser preso político. A diferença é de detalhe. E nada que uma dose exacta e generosa de poncha não consiga iludir. Nicky Florentino.

Referência



Ele há sociólogos que têm tendência a falar muito, demais. O que quase sempre resulta em que ou se repetem ou dizem asneiras. É assim com eles, assim como é com os demais. Mal geral, pode dizer-se. Segismundo.

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Ter-se dado o voto aos gentios, indiferenciadamente, escancarando a franquia de acesso à faculdade do voto, é como o outro, tolera-se. Está dado, está dado. É deixá-los entreterem-se com o brinquedo. Agora, dar-lhes a hipótese de julgar, isso, jamais! Não há civilização ou liberalidade que resista. A justiça popular, a justiça dos gentios não é justiça. Não se pauta pela lei ajuizada. É vingança. Ou é folclore. Em qualquer das hipóteses, inconveniente e deselegante. Nicky Florentino.

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O senhor Prof. Doutor Boaventura de Sousa Santos, em artigo estampado na edição de hoje do Público, disserta sobre o recrutamento de magistrados cá na pátria. No fundamental, o argumento colhe. E a denúncia justificava-se. Porém, há um senão. Há sempre um senão. Ou mais. Às tantas, o dito senhor Prof. Doutor resvala. E, a propósito de uns “cursos especiais de preparação para os exames de admissão ao CEJ, oferecidos por algumas faculdades de Direito privadas”, escreve, “se não for possível proibir estes cursos, deve-se apelar às instituições que os oferecem que o deixem de fazer em nome do interesse público”. Ora aí está, a proibição e o interesse público, o bem comum. Assusta. Mas não fulguriza o suficiente para suscitar temor. Aliás, o mero facto de se colocar esta hipótese é interessante. Pelo que revela tanto em termos de conteúdo quanto em termos de forma. Seja como for, para quem padece de um mínimo de liberalidade, é uma hipótese de tonto. Pelo que o aconselhável é passar directamente à outra hipótese, “mudar o sistema de avaliação, a fim de tornar tais cursos inúteis”. Se é que isso, definitivamente, resolve algum mal. Nicky Florentino.

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2003-11-18


Cava-se, cava-se com o objectivo de alcançar o patamar a partir do qual todos os males se montaram. Inevitavelmente, qualquer que, entre os três possíveis, seja o caminho de regressão, encontra-se o mesmo nome, Abraão. A arqueologia não engana. Os escombros também não. É sobre os ombros de Abraão que se arquitectou o mal, projectado, por três vias distintas, para o presente. O que significa que o mal não é de hoje. Já foi profetizado antes, muito antes. O Marquês e Segismundo.

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Instituições várias insistem em dar publicidade a indicadores que demonstram haver uma crise na economia da pátria. Ora, será que ainda não perceberam que a realidade está errada? Será que ninguém leu o senhor plumitivo Luís Delgado? Anda tudo doido? ou quê? Não há crise nenhuma. Ele disse. Ele até já anunciou a retoma. Nicky Florentino.

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Segundo consta, o senhor dr. presidente da Assembleia da República terá sido convidado para assistir à inauguração do estádio Magalhães Pessoa e terá confirmado já a sua presença na respectiva cerimónia. Em que missão?, em missão política?, em missão de desagravo da sua figurinha? Pouco importa. O que releva é que, novidade taqueapariu, o senhor dr. presidente da Assembleia da República vai estar na inauguração de um estádio. No passado fim-de-semana não pôde. Não foi convidado. Amanhã a pátria redime-se consigo mesma. O presidente da casa arco-íris de todos nós, o parlamento, vai ao futebol. E assim se encontra e revela a coerência. Embora preferível fosse o decoro, que é o nome elegante da vergonha. Nicky Florentino.

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A senhora Doutora Maria Filomena Mónica encerrou hoje a sua diatribe sobre os programas escolares. No remate do seu tríptico, sentenciou, “após alguma reflexão, eis a conclusão a que cheguei. Enquanto os filhos dos pobres são metidos em salas de aula onde se discute o que levou Tomé a expulsar a Maria de casa, os meninos privilegiados entretêm-se a ler poetas simbolistas”. Por outras palavras, os filhos dos pobres não são meninos. Os meninos privilegiados não são filhos. Os nomes masculinos, como Tomé, prescindem da precedência de artigo definido. As denominações femininas, como a da Maria, necessitam de ser antecedidas por artigo definido. Os filhos dos pobre são metidos em salas de aula. Contra a sua vontade, supõe-se. Os meninos privilegiados entretêm-se a ler. Não, nunca, a jogar à bola. Aliás, os meninos privilegiados, se, por acaso, jogarem à bola, não jogam à bola, envolvem-se ludicamente em dinâmicas de grupo de disputa em torno de um objectivo. Pois é assim que, provavelmente, os poetas simbolistas definem o futebol. Enfim, a reflexão da senhora Doutora revela-se padecente de défice. Se fosse suficiente, a reflexão, talvez a sobressaltasse o facto de os filhos dos pobres não estarem na sala de aula, mesmo quando lá são metidos. Mas vislumbrar de modo tão distorcido as coisas obrigava a um excesso de reflexão. E a outra conclusão. Segismundo.

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Como num cadafalso, fatal, trompe l’oeil. Eles aparecem aqui provenientes das mais improváveis origens, na senda das coisas mais estapafúrdias. Primeiro exemplo. Segundo exemplo. Terceiro exemplo. Quarto exemplo. Retenho o último dedo por necessitar dele para apontar. Qualquer vítima serve. Seja como for, retomando o propósito, quase sempre elas, as vítimas, vêm enganadas. Ou ao engano. Como as mariposas que aproximam obsessivamente das lâmpadas e dançam esgrouviadamente em seu torno. Ora, quando aqui caem, será que sofrem?, as vítimas enganadas. O Marquês.

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A última cria parida pela Pop-Off chama-se Barnabé. Não é coincidência. É consequência da contaminação. Segismundo.

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Um dia o cansaço cercou-o e tomou-o. Vacilou. Não se rendeu ele, porém. Resistiu, primeiro. Reagiu, depois. A sua fé escorou-se em bastiões que ele não conhecia em si. No entanto, no princípio da reacção, perguntou, ó deus!, se existes, porque não me falas? Deus não lhe respondeu. Deus não responde por si. Mas por interposta pessoa. A própria. Que é onde o pecado se domicilia. É por isso que a resposta que é possível encontrar não convence. Deveria haver outra forma mais segura de diálogo com deus. Uma via mais directa. Que não tivesse a própria criatura interpelante como canal. Ou eco. O Marquês.

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2003-11-17


Como cantado na canção, “o cidadão bem informado lê o jornal e vê têvê”. Utilizou, quando era manha fazê-lo, o napster. Sabe o que é o share. Não faz rafting. Tem um blog. Não apreciou o último celulóide dos manos Cohen. É pouco Cohen. Tem saudades do Fargo. Sabe que Portland não é cidade estranha ao Oregon. Sabe que o déblio do Georg W. Bush é um déblio de Walker. Encontra-se com a solidão. Não se lamuria do abandono. Interessa-se pelas oscilações do Dow Jones. Sabe o que é o PSIVinte. Mas não joga na bolsa. Tem uma biblioteca. Sabe que o Jack Daniels é mais verdadeiro do as narrativas bíblicas. Suspeita que o fim do mundo está cada vez mais próximo. E, depois de tudo isto, conforta-se por ninguém se interessar puto pelo mundo. O mundo de cada um é já tanto que o que sobeja é preocupação de outros. É sempre assim. Uma perseguição. E a volúpia da fuga. A ressaca vem, quando vem, apenas depois. E é esse o tempo do conforto. Nunca antes. Antes ou é ilusão ou é imaginação. Segismundo.

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A Charlotte trauteia uma melodia. O João tenta descobrir qual é a melodia trauteada. Um jogo inocente, jogado sem a noção de jogo. Just for fun. É isto a blogadiction. Não há prémio. Não há recompensa. Não é como na televisão. Anda tudo doido. É o que é. E ainda bem. Digo-o circunspecto e com achaque na consciência. Pois são ordens da minha reputação, danada e má, não mostrar comoção por simpatias. Quaisquer que elas sejam. Lúdicas ou não, vitais. Segismundo.

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O José, ipsis verbis, com um ar muito satisfeito, “o Monteiro vai ficar danado comigo, mas quero lá saber”. Como é que é possível não simpatizar danadamente com quem gosta de danar outros?, outros como o senhor dr. presidente do PND. Sim, sim, o José é um danado. Bom por ser mau. Mau por ser bom. Nicky Florentino e Segismundo.

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Na inauguração do estádio do Dragão não foi visto o senhor dr. presidente da Assembleia da República. O senhor dr. presidente da Câmara Municipal do Porto também não. Alguém, lá, deu pela ausência de um, outro ou ambos? Não. Apesar do ilusionista, não consta que as criaturas presentes estivessem à espera de um espectáculo de circo. Nicky Florentino.

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2003-11-16


Até aqui, uma novela sem sangue, sem alguidar. A expectativa está na arma que irão escolher as partes, o Pedro e os moços do Barnabé, para continuar a contenda. Sabre? Florete? Catapulta? Pistola? Tridente e rede? Cachaporra? Não é uma disputa até à morte. Mas não são admitidas tréguas. Isso é coisa de frouxos. O Marquês.

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Sobre o último celulóide de Gus van Sant, o Rui escreveu, "em Elephant, a América é a placenta da mais pornográfica violência e o seu único progenitor". Não sei se descortinei exactamente o que ele pretendeu significar. Seja como for, por via das dúvidas, tendo a subscrever. Parece-me uma observação ajustada e justa. Pelo menos, disso me sinto danadamente convicto. E convicções não são males de que padeça com frequência. Segismundo.

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Uma jornalista da SociedadeIndependentedeComunicação foi baleada. Foi mau. Foi baleada no Iraque. Não é surpresa, não é inédito. A jornalista, depois de assistida, foi devolvida à pátria. Foi bom. Mas a sua chegada a chão português foi demencialmente transmitida pelas televisões, todas, as da paróquia da capital. Não há outras. A tragédia foi transformada em alegoria e telenovela. Reportagem não houve. Não é surpresa. Também não é mau. Apenas não é bom. Tal e qual o cheiro que exala, que não é simpático ao olfacto. Talvez um desodorizante possa disfarçar. Porém, o accionamento do autoclismo é solução mais aconselhada. O Marquês.

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A senhora Doutora Maria Filomena Mónica deu publicidade, num texto estampado na edição de hoje no Público, às tropelias por que passou para conseguir um programa do primeiro ciclo do ensino básico. E não conseguiu. Quem conseguiu foi uma solicita irmã, competente no ofício de manipular os acessórios de trânsito pela worldwideweb. A dita senhora Doutora até se recordou de Kafka.
Uma das dimensões do poder da administração pública é a opacidade dos seus procedimentos e produtos. O Estado, enquanto besta, alimenta-se de uma cultura de segredo que o protege e blinda. É por isso também que o cidadão é uma ficção para o Estado. O cidadão é uma personagem inscrita nas narrativas legislativas ou políticas, mas que não corresponde a nenhuma categoria de gente empírica. Em todo o caso, o cidadão, para além de não existir pelo Estado, também não existe por si. Qualquer gentio, que é a franca maioria do tipo de criaturas que compõem essa entidade chamada Estado, é muito cioso dos seus direitos, mas muito negligente das suas obrigações e reponsabilidades. Por isso, os burocratas e os burocratazinhos olham, quando olham, de soslaio para as raras criaturas que se lembram de afirmar a sua condição de cidadão quando solicitam algo à administração pública. Esse é um código que a pragmática dos fulanos camuflados em agente de Estado tende a não reconhecer. Para eles, o cidadão é tal qual como uma qualquer personagem de uma qualquer fábula. Não existem fenomenologicamente. Por isso é que muitas vezes se resguardam por detrás dos balcões ou dos telefones. Sentados nas suas cadeirinhas. Cidadãos... É isso e sereias. Nicky Florentino.

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Disse o senhor presidente do Futebol Clube do Porto, “se é o primeiro-ministro que o povo elege e depois o primeiro-ministro é que escolhe o presidente da Assembleia [da República], então não será natural que eu queira o meu estádio...”. O resto da conversa não interessa. Continua a asneira. Quem não percebe puto de política deve estar calado. E abster-se de votar. Assim, calado e quietinho, é garantido que nem diz asneiras nem faz disparates. É garantido que deixa a política para os que conhecem os complexos meandros da matéria. E que não os incomoda. Nicky Florentino.

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Entre os gentios é regra e recomendação que no rogo se seja desbragado e sem solenidades frouxas. Certamente escorado neste parecer, o senhor dr. secretário-geral da trupe socialista confessou, em incontido apelo, “o PS quer ganhar com maioria absoluta as próximas eleições legislativas para, pela primeira vez, poder governar de acordo com o seu programa”. De acordo com o seu programa... Nem é necessário este complemento circunstancial de modo. É suficiente enunciar a intenção de governar. Isso, à luz da memória mais imediata, é motivo que, aos socialistas, basta proclamar. Nicky Florentino.

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2003-11-15


No artigo estampado na edição de hoje do espesso Expresso, o senhor dr. deputado do PS Manuel Alegre ainda admite o equívoco. O Daniel, esse, não é acossado por dúvidas. E afirma que o senhor presidente do Futebol Clube do Porto insultou a Assembleia da República. E, através dela, a pátria inteira. Se a afirmação é verdadeira, é aconselhável a consequência: a denúncia do crime ao ministério público. Para além disso, o Daniel entende que os senhores deputados que aceitaram o convite para assistir à cerimónia de inauguração do estádio do Dragão, por isso mesmo, gostam de ser enxovalhados. Não sei. Não invento. Mas o que me parece é que eles gostam de futebol. E não são o senhor dr. Mota Amaral. Nicky Florentino.

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O senhor dr. deputado do PS Guilherme d’Oliveira Martins, ipsis verbis, “quando não gosto ou não me interessa, leio em diagonal, para ver do que se trata”. Ora, é lá isso ler? As linhas que compõem os livros não estão ordenadas paralelamente umas às outras, em sequência, do topo para o fundo da página? É impressão minha? ou elas não se arrumam de esgelha? Segismundo.

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A propósito das condições em que foi remetido o contingente de gêéneérres para o Iraque, lamentou-se o senhor dr. secretário-geral do PS, “estamos perante uma questão de interesse nacional e o primeiro-ministro nem sequer procurou saber a minha opinião”. Pois, pois é. Os tempos mudaram. São outros. Os governos do senhor eng.º António Guterres é que tinham a mania de ser simpáticos com gente da oposição. Como aquele outro senhor eng.º presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, umas vezes, e deputado, outras vezes. Deu, tunga!, no que deu. As simpatias são sempre prejudiciais aos simpáticos. Pelo que o actual senhor dr. primeiro-ministro não está disponível para, ele mesmo, cometer semelhante erro. Os outros que comete já são em proporção que chega e sobeja. Nicky Florentino.

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Perguntou inteligentemente o moçoiolo do espesso Expresso ao senhor dr. deputado do PS Fernando Gomes, “não veria o PS apoiar uma candidatura independente de Menezes [à Câmara Municipal do Porto]?”. Respondeu o dito senhor dr. deputado, “não me parece que ele alimente esse cenário”. Ele, quem? O PS? ou o senhor dr. Luís Filipe Menezes? Não se compreende. Também não é para compreender. Nicky Florentino.

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Ninguém verte lágrimas de cera. Menos ainda bonecos antropomórficos. O Marquês.

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Por simpatia ou qualquer outro engano, o espesso Expresso estampou na secção de debate do suplemento Actual um texto do senhor Prof. Doutor António Manuel Batista a pretexto de – e não sobre – um livro recentemente editado, estouvada e ignominiosamente intitulado Um Conhecimento Prudente para uma Vida Decente, organizado pelo senhor Prof. Doutor Boaventura de Sousa Santos. A ciência não carece de enlevo. É, mesmo, comovente, quando, no âmbito de um suposto debate científico ou com pretensões a isso, a retórica da ofensa prevalece. Em muitas circunstâncias, não é o juízo, esse discernente articulador, que orienta os argumentos e a sua cadeia. E, depois, há o incontornável problema das tribos, das trupes, das seitas. É uma aporia. O senhor Prof. Doutor Boaventura de Sousa Santos pode ser considerado um tonto entre os físicos. Mas convém não esquecer que também o senhor Prof. Doutor António Manuel Batista pode ser considerado um tonto entre os sociólogos. Existem motivos de sobejo para que assim seja. Não é a verdade a referência do debate. É, sim, o poder de enunciar a verdade. A força, sempre a força. A minha verdade é mais verdadeira do que a tua verdade, é o que, em derradeira instância, qualquer cientista pretende afirmar. Por isso, vale o insulto alarve. Assim como vale o dislate aviltante. Merece atenção o episódio do novelo – mais do que da novela – que provavelmente se segue. O que possa ter de edificante ou ilustrador é o que menos interessa. Aliás, é para esse horizonte que menos são mobilizadas energias pelas personagens implicadas. Pois os debates entre cientistas não se querem bonitos. A estética é, sempre foi, má ciência. O Marquês e Segismundo.

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As criaturas ressabiadas são criaturas pândegas. A sensibilidade aos comportamentos dos outros é proporcional à incapacidade de reflexão e discernimento relativamente a si mesmas e ao seus próprios actos.
A AssociaçãoPortguesadeApoioàVítima, a propósito do dia internacional contra a violência sobre as mulheres, fez estampar na página trinta e cinco do suplemento Actual que subsidia parte da espessura do espesso Expresso uma polaroid onde assimila os homens casados, os maridos, aos cães perigosos, aos que mordem. Tem piada. A mensagem é facilmente decifrada e assimilada. Imagine-se, agora, que a piadinha apoquentava a imagem das senhoras casadas, as esposas. Portanto, mulheres. É que também as há que arreiam forte e feio nos seus consortes. São menos, certamente. Mas existem. E, por paralelismo, são como cadelas, cadelas que ferram. Olha a novidade. Nunca convenceu que as cadelas, todas, fossem amigas dos homens. A natureza é danada. O Marquês.

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O espesso Expresso, com fácil tendência ao moralismo sôfrego, dá pouco destaque ao facto de várias pessoas, consabidos portistas ou portistas confessos, não terem sido convidados para a inauguração do estádio do Dragão. É um facto que o senhor dr. presidente da Assembleia da República pouco ou nada tem a ver com o Futebol Clube do Porto. Portanto, que não seja convidado para a inaguração do estádio do Dragão, qualquer que seja o motivo, sequer importa. A ordem do futebol é uma, a ordem da política é outra. Cada uma deve regular-se pela sua própria lógica. É por isso que é relevante e bastante significativo saber que nomes profundamente incrustados na história do Futebol Clube do Porto, como, por exemplo, Fernando Gomes, não tenham sido convidados. Relativamente a isso é que seria compreensível a destilação de censura e indignação. Mas sobre isso, o quase silêncio, o sussuro. Seja como for, Fernando Gomes irá à inauguração do estádio do Dragão. Comprou bilhete. O senhor dr. presidente da Assembleia da República poderia ter feito o mesmo. Nicky Florentino.

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Uma das poucas regras universais é que a estupidez, se exposta, deve ser exposta com comedimento. Na medida do possível, deve, mesmo, ser evitada. E se impossível for evitá-la, então a estupidez deve ser disfarçada, dissimulada, camuflada. Nunca, por nunca, a estupidez deve ser evidente. Pois, para além desacreditar o agente da estupidez, incomoda os respectivos pacientes.
Como era expectável, o espesso Expresso tornou ao tópico da inaguração do estádio do Dragão. Na fronha da sua edição de hoje surge lavrado, “apesar de Mota Amaral ter sido excluído da lista de convidados...”. Ó senhores!, ó senhores!, olhem que não se exclui o que nunca foi inserido ou integrado. Percebem? É assim por princípio da ordem das coisas. É como na aritmética das subtracções. O subtrativo tem de estar contido no aditivo. Caso contrário, não há diferença no reino dos números inteiros. Que compreende, para além dos números naturais, o zero. Percebem? Ou é assim tão difícil de assimilar? Nicky Florentino e Segismundo.

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Olhando para ele, assim, sem mais, sem outra referência, sem outro pormenor, ninguém o diria órfão de pai. Corpo bem talhado, figura composta, saudável, era o que ele era e parecia. E estas não são propriedades ou aparências de um órfão de pai. Como habitualmente são estimados os órfãos de pai, ele deveria ser tísico, sem pose, feio feito, triste. Deveria carregar a culpa de não ter pai. Deveria mostrar-se constrangido, sem sorriso, derrotado pela vida. É que quando alguém mata o pai não pode dizer apenas que o seu pai morreu. Não é exacto. Os pais não morrem por acaso quando são assassinados pelos próprios filhos. O Marquês.

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2003-11-14


Ouvi. O Governo da pátria – governo com maiúscula, mais por convenção do que por convicção – decidiu promover e patrocinar a evacuação da jornalista da SociedadeIndependentedeComunicação ferida no exercício do ofício numa frente qualquer do cenário iraquiano. Ao abrigo de que critério ou fundamento político ajuizado não se sabe. Também não tem que se saber. Há transcendências que não são de se saber. O Estado tem sempre os seus segredos. Pois a transparência é uma exigência a que os poderes, incluindo os democráticos - sobretudo os democráticos -, jamais conseguirão corresponder. Começa aí a hipótese da discricionariedade. Umas vezes isso é bom. Outras vezes isso é mau. Na política não há exactidões, assim como não há constantes. E esse facto é simultaneamente o fundamento da sua dimensão irónica e da sua dimensão trágica. Seja como for, aconteça o que acontecer, as televisões transmitem. Os gentios, como telespectadores, agradecem. Provavelmente, comovidos. Pois não há nada que valha mais uma lágrima genuína do que a real sorte dos nossos. Se são nossos, amamo-los. Desesperamos por eles. E perdoamos ao Estado, essa comum besta, as indevidas intromissões onde era suposto, nunca!, meter o bedelho. Nicky Florentino.

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Pior do que os inocentes, há apenas dois tipos de criaturas, os mansos e os ingénuos. Sobretudo estes. Os bispos confundem-se com eles. Entre outras similitudes, uns e outros não percebem puto de futebol. Por isso articulam como se fossem entidades celestes. Os bispos portugueses, por exemplo, numa nota pastoral, saíram-se com esta, que os estádios contruídos ou melhorados a pretexto do Eurodoismilequatro fossem colocados “ao serviço de toda a comunidade, particularmente apoiando as camadas mais desfavorecidas”. Mais, constava ainda da dita nota pastoral, que, no entender dos referidos bispos portugueses, a realização do Eurodoismilequatro constitui “uma ocasião excelente para redescobrirmos a dimensão lúdica do futebol, o seu papel na educação para os valores, o seu contributo para a construção de um mundo mais unido, mais pacífico, mais solidário”. Mas em raio de mundo é que vivem estes bispos? É por estas e por outras que não é recomendável a fé. Neles ou em quaisquer outras criaturas. Sejam elas telúricas, sejam elas siderais. O Marquês.

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É bizarra a propensão ao recurso das escutas telefónicas. O facto não abona muito em favor da salubridade da ordem. Mas fazerem-se gravações de conversas de putativos suspeitos e não escutá-las é o cúmulo. Sobretudo por implicar desperdício. Um desperdício de direitos – o que para o caso pouco importa. E um desperdício de recursos, humanos e financeiros – o que, isso sim, não é dispiciendo. Depois queixam-se da senhora dr.ª ministra de Estado e das Finanças, a megera da fazenda. Pelo que se vê, sem qualquer razão. Nicky Florentino e O Marquês.

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Lamuria-se o senhor dr. presidente do PND por não saber o que pensa o senhor dr. presidente da República sobre a remessa de um contingente de gêéneérres para o Iraque. Em compensação, mesmo que involuntariamente, lá vamos sabendo o que não pensa o senhor dr. presidente do PND sobre o mesmo assunto. E outros. Pois assoma nele um estado de não pensar que é enciclopédico. Nicky Florentino e Segismundo.

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Pergunta, é preferível uma cárie a uma amálgama de mercúrio incrustada num dente? Reposta – à Bagão Félix ou Catalina Pestana –, seja o que deus quiser, mas valha-nos Dom Miguel. O Marquês.

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2003-11-13


Ninguém pode amar o que não tem. O amor ao que não se tem não é amor. É, sim, imaginação. Ou, em hipótese mais deplorável, delírio. Pelo que o único amor possível, o único verdadeiro e derradeiro amor é o amor que não é, por não poder ser, correspondido. É o amor de uma pessoa por uma coisa ou entidade coisificada. O amor não se dá. O amor apropria. O amor entre pessoas é uma forma degenerada de amor. Não é amor, portanto. Aliás, bem entendido, até o amor próprio, o amor de uma pessoa a si mesma, é impossível. Ninguém se ama a si mesmo. Pois a faculdade do amante não é passível de auto-devolução. O mais que aquilo que habitualmente se julga amor a si próprio consegue ser é o negativo da soberba relativamente aos outros. Quais outros?, os outros todos. Nem mais um nem menos um. Não por acaso, o amor é uma invenção da burguesia. A única classe revolucionária. Aquela que sabe o que é a propriedade e o que é a modernidade. Segismundo.

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No zénite de uma discussão acontecida no HardRock Café, em Las Vegas, a senhora esposa de Christian Slater arremessou um copo contra a cabeça do seu consorte, rasgando-lhe o toutiço. Como consequência, a dita senhora foi detida pela polícia. Mas o senhor seu marido, com a cabeça suturada em vinte pontos, tratou de esclarecer que, afinal, as coisas não tinham sido como tinham sido e como ele inicialmente havia reportado. Pecou, pois. Prestou falso testemunho. Disse que o que aconteceu foi que, quando a senhora sua esposa lhe queria atirar água ao focinho, o copo deslizou inadvertida e acidentalmente da mão, tendo embatido contundentemente na nuca. O amor inclina-se sempre para o engano ou para a desculpa. Reside aí a sua maior fraqueza. O Marquês.

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Aconteceu na Grã-Bretanha. Pelo sim, pelo não, foram destruídos ou embargados os jornais estrangeiros que aludiam a um qualquer escândalo que implicava essa peçonhenta e principesca criatura chamada Carlos. O Reino Unido fez jus ao seu nome. É reino, terra de súbditos. E é unido. Inclusive na estupidez. Nicky Florentino e O Marquês.

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Consta do dicionário editado pela Merriam-Webster a palavra McJob. McJob, na definição proposta pelo dito dicionário, é “um emprego no sector dos serviços com pouco prestígio, pouca dignidade, poucos benefícios e nenhum futuro”. A McDonald’s sentiu-se ultrajada. E, como devia ser, tomada de justa indignação, escreveu uma carta aberta onde denuncia a dita definição por constituir uma descrição incorrecta do trabalho e das oportunidades num restaurante da cadeia de fast food. O problema é que, por vezes, as palavras denotam mais do que conotam. Segismundo.

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E se Álvaro Cunhal não tivesse feito estampar um texto seu no Avante!, teria o seu nonagésimo aniversário tomado cerco de tanta pompa e tanta circunstância? Ou, como plausível, passaria publicamente despercebido? Não sei. Não quero saber. As perguntas são ensaios de retórica. Valem por si, bastam-se. Nicky Florentino.

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Circunstancialmente o José perde a compostura, emproa-se para além da medida, insufla. Se o tópico da discussão é Álvaro Cunhal, então, essa é uma das tais circunstâncias em que o José se revela grave, como quase sempre, incapaz de frivolidades ou leviandades, sisudo. Conceda-se, sem disputa, por ser por demais evidente, que o José é uma autoridade no assunto Álvaro Cunhal. Sabe muito, leu muito, escreveu muito sobre ele. As mil e quinhentas páginas que escreveu sobre a criatura, consequência de um labor disciplinado e de uma investigação e apurada, atestam-no. É sabido que o José não morre de amores por Álvaro Cunhal. Ele próprio, o José, o confessou. Mas nutre pela personagem uma dedicada, pública e continuada obsessão.
No artigo que surge estampado na edição de hoje do Público, o José argumenta que o fracasso histórico de Cunhal não é um fracasso, mas um «fracasso», um fracasso entre aspas. Ou seja, Cunhal perdeu na história, mas ficou gravado nela. Pode não ser uma forma bonita de perder, mas é uma forma importante, de cânone. Pois é sobretudo por aí que se ilustra a memória. Nicky Florentino e Segismundo.

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Nem por um instante estou disponível para assumir responsabilidades que não tenho. As que tenho, tenho-as em consciência. Os estouvados e os voluntários que suportem as consequências das suas acções e decisões. Neste momento, estou ocupado. Tenho mais que fazer. Para além disso, a minha paciência nunca foi recurso que sobejasse. Por isso, se acontecer alguma merda no Iraque, se houver sangue português derramado, o senhor dr. primeiro-ministro que se aguente. Que seja homem. E não o Zé Manelinho que gosta de brincar com soldadinhos de chumbo. O Marquês.

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2003-11-12


Comovente. Um senhor dr. outrora ministro dos Negócios Estrangeiros a passear o seu
basset pela Cinco de Outubro. Vai, foi. Depois, não muito depois, torna, tornou. Eu vi. Vi o cão do senhor embaixador a alçar a perna. Sei qual foi a árvore onde ele verteu o conteúdo da bexiga. Tudo instinto. O encontro da natureza em plateau urbano. Unidos pela trela, o senhor e o cão, domesticado, não amestrado. Eu vi. E não consegui evitar o incómodo de assistir ao episódio. Quando nos armamos em amigos dos animais somos indignos de nós mesmos. Fazemos figuras tristes. E, acredito eu, encarceramo-nos numa solidariedade, numa dependência que apenas no misera. Afinal, o que aprendemos nós, criaturas mundanas, com um cão que não possamos aprender com a televisão ou com a banda desenhada? O Marquês.

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Quando enamorados, os homens transformam-se em seres patéticos, em entes atoleimados, capazes de proezas inenarráveis, como cuspir na própria mãe ou afirmar que aquele fulgor que os preenche plenamente no instante estender-se-á até ao cabo do tempo da respectiva vida. Nas mulheres a metamorfose de que padecem por paixão ou amor não é menor. Tornam-se elas, de serigaitas, em senisgas. Seja num caso, seja noutro, confrange. O Marquês.

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O amor entolece, entonta. A paixão ainda origina pior, demencia e estanca o trânsito automóvel. O Pedro sabe-o. Aprendeu pela melhor forma. Sofreu-o. Experimentou-o. Foi vítima. Como ele, entendo que é inadmissível que um beijo estorve o fluxo de uma artéria urbana. Nada nos deve deter. Mais ainda, é intolerável que um beijo de estranhos possa resistir à onomatopeia ostensiva do claxon do carro cujo volante está confiado às nossas mãos. Primeiro o decoro, o recato. Depois, só depois, o amor. E, por princípio ecológico, nunca na rua, por ser hipótese que perturba o trânsito, a liberdade de circulação. O Marquês.

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É a Universidade Católica mais católica do que universidade? Ou, por outras palavras, o que é que tem a Universidade Católica?, que é diferente das outras. Segismundo.

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As coisas são o que são. Nem mais nem menos. Mas ninguém tem o dom de assim, singelamente, sem mais ou menos, as ver. Pois que vê-las é vê-las como é possível vê-las, sob condição e em circunstância, nunca na sua integridade original ou substantiva. Adiante.
A entrevista do senhor dr. secretário-geral do PS mereceu eco num quarto de página, a onze, do Público. A visita de uma pequena comitiva de deputados socialistas aos hospitais de Santiago do Cacém mereceu eco em meia página, a doze, também do Público. Por qual razão assim foi pouco importa. O tempo é um limite. E as coisas são o que são, mas vistas no tempo e com o tempo. Acontece igual com as notícias. Nicky Florentino e Segismundo.

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A propósito de um imbróglio qualquer relacionado com a nomeação dos maiorais da administração do aeroporto de Beja, a comissão política distrital do PSD alvitrou que se possa estar perante uma tentativa de cartelização das administrações de empresas de capitais públicos, o que, se não for acautelado em tempo, poderá redundar na “criação de um Estado de money for the boys”. É sempre uma satisfação deparar com a palavra cartel ou qualquer outra sua derivada. Faz lembrar touradas, festa brava. Que é ao que se assemelha a política chã da pátria. Olé!, olarilolé! Nicky Florentino e Segismundo.

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O senhor director do Público, com uma solidariedade que me suscitou estranheza, escreveu que “os que entendem que o problema foi criado contra a sua opinião deviam perceber que hoje o «problema» também é deles. O mesmo é dizer, nosso”. Pois... O que quer que seja que o «problema» – assim, exactamente, entre aspas –, desde já anuncio que não é meu. Não!... é!... meu! Não o suscitei. Não o inventei. Não o caucionei. Por isso, agradeço que, por gentileza ou ombridade, não me considerem entre os seus legítimos proprietários. O que eu quero e estimo é distância, sossego, paz. E o juízo ajuda a lograr estes pequenos prazeres, estas singelas felicidades.
Seja como for, não é a distância a que o Iraque está do chão da pátria, aqui assim, que me sossega. O que acontece no Iraque não me é indiferente. A distância aos problemas, no contexto da hodiernidade, não é condição de sossego. Eles, os problemas, assim como as suas consequências, podem transitar da sua longínqua origem para outros paradeiros, estendendo os seus efeitos e contaminando a órbita da nossa proximidade. Outros, por comodidade, conveniência ou ingenuidade, assim não julgam. Aos desajuizados, à gente sem trambelho vale sempre o axioma longe da vista, longe do coração. Agora, também confesso, o facto de num futuro próximo andarem gêéneérres a patrulhar território iraquiano não altera nem muito nem pouco, nada, a equação. Pelo que, se padeço de um certo sentido de cosmopolitismo ecuménico – que, em consciência, me faz simpatizar com o horizonte de um Iraque livre –, não iludo que a liberdade se conquista. Não se impõe. Pois o que quer que seja imposto, coisa boa não é. Segismundo.

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O senhor dr. primeiro-ministro pretende que sejamos, todos, solidários com o subagrupamento Alfa da GNR cuja excursão ao Iraque ele decidiu promover e patrocinar. Não me incomoda puto que o dito senhor dr. primeiro-ministro tenha mandado uma trupe de gêéneérres para o Iraque. Até porque eles, os gêéneérres, foram para o Iraque também por extracção da sua própria vontade. Por isso, é-me indiferente a sua sorte enquanto gêéneérres ou portugueses. Olho-os com o respeito com que consigo olhar os outros, indiferenciadamente. Não me peçam mais. Não estou disposto a mais. Isto é a vida. Não é um jogo ou um circo. Nicky Florentino.

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Por uma vez, sem motivo para reedição, vislumbrei utilidade na existência do senhor dr. ministro de Estado e da Defesa. Vê-lo no oceano, a dar aos braços, a mostrar aquelas bandeirinhas de marujo, corajoso, sagaz, na proa de uma fragata dessas que para aí há, tipo Meko, para impedir os tóxicos e obsoletos vasos de guerra norte-americanos, que se arrastam penosamente para a sua desmantelação e transformação em sucata, de penetrarem em reserva oceânica da pátria, lá para os Açores. Isso é que era ser homem. Isso é que era ser senhor dr. ministro de Estado e da Defesa. Isso é que era. Não, como aconteceu, mostrar-se um incapaz, acoitar a curta cauda entre os joelhos e assobiar como quem não quer a coisa, mas já levou com ela, a coisa, os navios tóxicos. Porque não tenho paciência, mais uma vez sou inclemente com o senhor dr. ministro de Estado e da Defesa. E tudo será pior se ele se atrever a beijar-me na boca e a chamar-me Tarzan. De quem eu sou adepto é do Mandrake. De quem eu gosto é do Marsupilami. Nada de confusões. Ou de oblíquas abordagens. De quem não gosto, não gosto. Sequer aceito ósculos. E os incapazes, quando deles julgo haver necessidade, confirmam-me o asco que lhes tenho, por serem omissos no acto e na palavra. Havia de doer-lhes a alma, aos sacanas dos incapazes. O Marquês.

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Ela, este foi o pior dos três Matrix, disse, sentenciosa, à saída da sala de cinema. Mas este foi o único em que tu choraste, não foi?, desmascarou-a a outra. Como é que sabes?, indagou ela. A outra sorriu e nada disse. O rimel debotado havia-a denunciado. Até eu notei, não o facto, mas o indício, o rimel lacrimalmente traçado. Ela chorou. Não consigo perceber porquê. Mas, pior, saber que ela chorou não me fulguriza. Pois apenas as lágrimas dos outros que destilam dor me comovem e satisfazem. O Marquês.

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2003-11-11


Image-se a cena. Não é necessário esforço suplementar, a evidência é fácil de alcançar. O filho de um carpinteiro abre os braços e profere o infame apelo deixai vir a mim as criancinhas. Entre a assistência está Dom Miguel. Goa, Damão ou Diu seria o destino garantido e imediato da criatura, o filho do carpinteiro. Pois, como se sabe de boa ciência, o castigo da distância é a cura para os males, todos. Sejam eles maleitas contagiosas, sejam eles catraios. Para mais, tem também a vantagem, presume-se, de, com a distância, ninguém necessitar de morrer. Como se vê, um mau filme. Série bê ou pior. E com o som, péssimo, típico das produções nacionais. Catalina Pestana faz a voz off. Manuela Moura Guedes noticia o caso na TeleVisãoIndependente. O Marquês.

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Uma despeitada militante, derrotada numa contenda na paróquia popular de Mirandela, confessou, “não estamos habituados a que elementos do CDS-PP ofendam publicamente militantes do próprio partido”. Como é óbvio, a coberto das paredes translúcidas do partido político presidido pelo senhor dr. Paulo Portas, vale tudo, excepto arrancar olhos e puxar cabelos. Aliás, como qualquer ajuizada criatura tem por evidente, os bons hábitos são justamente aqueles que se adquirem no recato, que é como quem diz em casa. Nicky Florentino e Segismundo.

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Boas novas. O senhor deputado do PS Manuel Alegre colocou as suas honrarias à disposição de outros que venham em socorro da trupe socialista. Escreveu assim, num artigo estampado na edição de hoje do Público, “é hora de abrir o partido, abri-lo a figuras relevantes do PS, abri-lo a não filiados e a novos protagonistas”. Por outras palavras, o dito senhor deputado dispensou-se. Fez bem. Tão bem que o seu acto é quase poesia. Ou mais do que isso. Nicky Florentino.

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Passou o trailer do filme a ser exibido na próxima semana. Acabado o trailer, caiu um separador no écran, já gasto, onde se lê, em letras brancas sobre um fundo vermelho, a seguir neste cinema. No instante, uma voz cândida, de menina e moça, dirige-se ao menino e moço que a acompanha e confessa inquietude, nunca sei se isto se refere à apresentação anterior ou ao filme que vai dar a seguir. Ele sossegou-a, pois..., disse, com os olhos focados no écran. Nada mais havia a dizer. O filme começara já a revelar-se. O Marquês.

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2003-11-10


A propósito da situação política da pátria, disse o senhor dr. presidente do PND, "isto não é uma democracia, isto é um simulacro de democracia. E depois admiram-se do povo não votar". Sim, pois, pois é. Isto é tudo uma cambada de ladrões, uma cambada de gatunos, uma cambada de chupistas. Isto é assim como na matrix, as máquinas malévolas controlam-nos a vida. Não somos cidadãos, somos um número como os dos boletins do totoloto ou das fracções da lotaria, somos uma ficção, criaturas alienadas por um efeito doce de liberdade que verdadeiramente não temos. Somos uns desgraçados. Por isso, o último reduto da esperança, mais, o último reduto da pátria é a nova democracia, a neo democracia, e o seu líder, o Neo, o Neo Monteiro. Ou isso ou o suícido. Ei!, alto aí!, esperem!, não se suicidem já! A esperança, a esperança é que é a última coisa a morrer. Nicky Florentino e Segismundo.

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Disse o senhor dr. presidente do PND, "será o primeiro ministro quem manda? Não é. É o presidente do partido que faz governo. E, como quem escolhe o presidente do partido que faz governo são as distritais, quem manda é quem paga as sedes distritais". O que é um motivo mais do que óbvio para fundar um partido político sem estruturas distritais. Assim, se o azar alguma vez o remeter para o governo, o dr. Manuel Monteiro poderá mandar como lhe aprouver, porquanto não vai estar cativo de quem paga as sedes distritais, no sentido em que não existem sedes distritais no PDN. É tudo lógica, lógica de tubérculo, e raciocínio escorreito, sem limites. Nicky Florentino.

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Qualquer partido político é um perigo. Se for novo, é ainda mais perigoso. Se for novo e não quiser ser como os outros partidos políticos, então é ainda muito mais perigoso. Se apregoar o nome do povo, não é de confiar. Se apregoar insistentemente o nome do povo, então é de desconfiar. Se for chamado Partido da Nova Democracia, não é um partido político recomendável, pois deve deixar-se em sossego essa vetusta instituição, com mais quinhentos aniversários do que o menino Jesus, a democracia. Nicky Florentino.

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Como é que um partido político que pretende ser diferente dos partidos políticos – portanto, que pretende não ser um partido político – é um partido político? Não seria mais aconselhado ser uma confraria? ou uma cafeteira? ou um combóio? ou uma bicicleta? ou uma cadeia de distribuição de pão fatiado? Segismundo.

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Disse o senhor professor universitário Fernando Lobo a si mesmo, “já reparou que o Estado investe nos estudantes vadiolas, mas não investe num estudante que tem média de dezasseis e que quer estudar medicina”. Ou seja... um estudante vadiola é aquele que não tem média de dezasseis e não quer estudar medicina. Parece justa a definição. Cuidado, pois, ó três porquinhos vadiolas!, vocês que não querem estudar medicina e não têm média de dezasseis, o senhor professor Lobo anda aí, à solta e não vai em lérias. Pois ele sabe, de fundo saber, que papel e lápis é o que um estudante de literatura necessita. Disso e de pagar propinas. Nicky Florentino e O Marquês.

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Um senhor chamado Fernando Lobo, professor universitário, desdobrou-se em duas personagens e auto-entrevistou-se, estando o resultado desse desdobramento estampado na edição de hoje do Público. Repondeu ele, entrevistado a uma das perguntas colocadas por si mesmo, entrevistador, “muitos dos nossos estudantes não sabem que doismaisdoisigualquatro, e também não sabem o que significa ser pobre”. Disse ainda o mesmo entrevistado, “o que acontece é o seguinte. Dez por cento dos alunos têm realmente interesse em aprender. Dos outros noventa por cento uma parte anda na vadiagem e a outra parte até se esforça, mas não vai lá. Como lhe disse, alguns chegam à universidade sem saber que doismaisdoisigualquatro”. O que se temia, ó desgraça!, confirma-se. Há criaturas que correm os corredores de escolas até ao cabo do secundário sem saber fazer uma das mais elementares adições, quanto é dois mais dois?, e, depois, acedem aos corredores da academia, para se esgotarem num esforço inglório, pois aí, na academia, não existe quem saiba ensinar a fazer contas dessas, simples. Nicky Florentino e Segismundo.

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Afirmou-o animal, és uma besta!, exclamou ela, ao mesmo tempo que foi tomada por um pranto. Ele aproximou-se dela, acolheu-a entre os seus braços, dispensou-lhe o amparo do seu peito e começou a sorver-lhe as lágrimas, como se fossem um tónico vital. Sentido-se protegida, ela abandonou o choro, as lágrimas começaram a estancar. E ele, cada vez com maior sofreguidão, continuou a beijar-lhe e a lamber-lhe a face, como se procurasse aí nutrientes essenciais. O continuar do acto incomodou-a. Tentou libertar-se do embaraço dele. Mas ele prosseguiu, prosseguiu com crescente violência, magoando-lhe o corpo, até as lágrimas lhe tornarem a brotar. Beijou-lhe, então, os olhos, como se fosse aí a fonte da sua vida, como se fosse aí a origem da seiva que o alimentava, prolongando-lhe a dor. O Marquês.

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Chicoteou-o. Lambeu-lhe as feridas. Humilhou-o. Saciou-lhe a sede. Amputou-lhe uma orelha. Sentou-o numa cadeira. Espetou-lhe um punhal na mão esquerda, cravando-a na mesa. Sorriu-lhe. Arrancou-lhe os olhos, mastigou-os demoradamente. Acariciou-lhe os ombros. Esventrou-o. Disse-lhe até logo. Ele morreu, morreu numa agonia que se esgotou lentamente. E ela não voltou ao local do suplício, sabia-o vencido, curvado sobre as suas próprias entranhas, condenado à morte, morto. Nenhuma mulher tem saudades imediatas do homem que matou. O amor torna sempre depois, como um fantasma, que a solidão ensina a domesticar. O Marquês.

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Sentes a minha falta?, perguntou ela. Não, respondeu ele. Isso magoa-me, sabes?, tornou a perguntar ela. Sim, eu sei, respondeu ele. E gosto de saber isso, que te magoa, acrescentou. Ela chorou. Ele não. O Marquês.

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2003-11-09


Será que é assim tão difícil perceber que o senhor dr. Mota Amaral é um entre os duzentos e trinta deputados? E que, para além do senhor dr. presidente da Assembleia da República, políticos há muitos? Nicky Florentino e Segismundo.

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Na edição de hoje do Público, como eco, o senhor Luciano Alvarez apoda de “vingança saloia” a decisão do senhor presidente do Futebol Clube do Porto em não convidar o senhor dr. presidente da Assembleia da República para a inauguração do estádio do Dragão. A prosa é escorreita, mas, tal como as considerações estampadas na edição de ontem do espesso Expresso, parece nubígena, alada. É que no rol de dislates publicitados sobre o assunto, em nenhuma ocasião foi notado o enunciado do motivo pelo qual tal convite devia ter sido feito. Por uma razão simples, esse motivo não existe. Se, como entende o senhor dr. Mota Amaral, assistir à final de uma competição europeia onde está presente uma equipa portuguesa não constitui trabalho político, só a um néscio é que lhe assomaria ao juízo convidar o senhor dr. presidente da Assembleia da República para a inauguração do novo estádio dessa mesma equipa. Pois, isso, sim, seria provocação e humilhação. Segismundo.

Post scriptum, se o propósito do senhor presidente do Futebol Clube do Porto era apoucar o senhor dr. presidente da Assembleia da República, conseguiu. Não propriamente por não o ter convidado para a inauguração do estádio do Dragão, mas por alguns moralistas sôfregos terem atribuído um sentido e dado uma publicidade inusitada a esse não convite. Os efeitos perversos da acção, tunga!, são assim.

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Das quatro estações, o Outono é a mais exacta. As folhas caem sobre o chão, o vento sopra, faz frio, o sol espreita, as nuvens pronunciam-se, chove, chove muito, chuvisca, não chove. Em nenhuma outra estação a frequência dos fenómenos é assim, tão plural, tão incómoda, tão sossegada. O Outono é o maior dos confortos. Segismundo.

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2003-11-08


Que pátria é esta?, onde para algumas luminárias quase constitui um crime o facto do senhor presidente do Futebol Clube do Porto não convidar os senhores drs. presidente da Assembleia da República e presidente da Câmara Municipal do Porto para a inauguração do estádio do Dragão. Era suposto, por algum motivo palpável e defensável, tal convite? Há algum ditame nas leis da república portuguesa que obriguem Jorge Nuno Pinto da Costa a endereçar convites a quem quer que seja? Não convidar quem não se quer não é uma das dimensões da liberdade? Se o dr. Mota Amaral ou o dr. Rui Rio pretenderem ir à inauguração do estádio do Dragão podem-no fazer, não estão impedidos. Basta adquirirem o título que permite o acesso à cerimónia.
Nicky Florentino.

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O senhor presidente do Futebol Clube do Porto, ao não convidar para a inauguração do estádio do Dragão seja o senhor dr. presidente da Assembleia da República, seja o senhor dr. presidente da Câmara Municipal do Porto, está a ser simultaneamente justo e previdente. É justo no sentido em que nenhum dos dois senhores demonstrou merecer ser convidado de uma realização em que o Futebol Clube do Porto seja anfitrião. Se a assistência a um jogo de futebol não é prática coberta pelo conceito de função política de um deputado - o que me parece inquestionável -, o senhor dr. presidente da Assembleia da República, enquanto tal, nada tem a fazer na inauguração de um estádio. Se o Futebol Clube do Porto, enquanto agremiação portuense, não merece o reconhecimento e a consideração do senhor dr. presidente da Câmara Municipal do Porto, obviamente que ele, enquanto tal, não merece ser convidado para a inauguração do sucessor do estádio da Antas. Para além disso, ao não convidar nem um nem outro, pode muito bem ser que o senhor presidente do Futebol Clube do Porto não pretenda apoucá-los. Pode muito bem suceder que a atitude de Jorge Nuno Pinto da Costa tenha um propósito profilático. Ao não convidar qualquer um dos ditos senhores para a inauguração do novo estádio, o presidente do Futebol Clube do Porto pode pretender poupar um e outro ao incómodo opróbrio de uma vaia monumental. Já aconteceu a outros, convém não esquecer. Nicky Florentino.

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Aconteceu. Consta que pagar por horas extraordinárias fictícias era uma prática recorrente na Câmara Municipal de Lisboa, um modo de, supostamente, compensar alguns funcionários municipais de categoria superior. Porém, uma técnica superior do Departamento do Património Cultural insistiu em devolver dinheiro que indevidamente lhe havia sido pago por conta de horas extraordinárias que não havia feito. Parece que foi um calvário. Ninguém, nem mesmo o anterior presidente da Câmara Municipal de Lisboa, pretendia ceder ao excesso de zelo cívico da impertinente e ingrata funcionária. Como eu os compreendo, os que a tentaram dissuadir. Mas há sempre uma criatura mais teimosa, que, irra!, insiste em ser decente. Devia ser castigada por isso. O Marquês.

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O senhor Prof. Doutor Silva Lopes disse que, no que à economia da pátria concerne, "a crise está instalada e vai demorar a passar". Equívoco notório do dito e insigne economista. É que, como qualquer criatura minimamente ilustrada sabe, o plumitivo senhor dr. Luís Delgado há muito que anunciou e publicitou a retoma económica. Nicky Florentino.

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O senhor arq.º director do espesso Expresso escreveu, “claro que Pinto da Costa pode convidar quem quiser para a inauguração do estádio do seu clube”. Traduzido, o senhor presidente do Futebol Clube do Porto pode convidar quem entender para a inauguração do estádio do Dragão. Acrescentou ainda o dito senhor arq.º que Jorge Nuno Pinto da Costa “está no seu pleníssimo direito”. Ou seja, a decisão do senhor presidente do Futebol Clube do Porto não precisa de caução jurídica ou moral. Remata, no entanto, assim, o já redito senhor arq.º, “mas temos de reconhecer que não fica bem utilizar os momentos de festa para fazer vinganças”. Não fica bem... que é como quem diz não é bonito. Não é bonito porque não tem que ser bonito. Os direitos são para se exercer, não para satisfazer os caprichos estéticos ou morais de quem quer que seja. Aliás, essa é uma das propriedades dos direitos. No sentido em que são prerrogativas que podem ser usadas como bem entenderem os seus titulares, sem o estorvo do gosto, da moral ou da simpatia dos outros. Ir para além disto, é insuflar o verbo, é armar ao pingarelho, é intrigar. Segismundo.

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Fernando Madrinha, um dos senhores subdirectores do espesso Expresso, aquele que habitualmente preenche a página quatro, entende, por chão moralismo, que o facto de o senhor presidente do Futebol Clube do Porto não ter convidado o senhor dr. presidente da Assembleia da República para a inauguração do estádio do Dragão é o ensaio de “uma vingança tosca”. Pois, sustenta o referido senhor subdirector, “na pessoa de Mota Amaral, são todos os titulares de cargos políticos que o presidente do Futebol Clube do Porto provoca e procura humilhar”. O delírio tange o limite. É que, como o discernimento não iludiu ao senhor subdirector do espesso Expresso, o senhor presidente do Futebol Clube do Porto convidou outros titulares de cargos políticos. E, ao fazê-lo, diferenciou-os, não os considerou por atacado, todos por junto, ao molho. Pelo que ou o senhor subdirector Madrinha padece de dificuldade na articulação ou resvalou para a estupidez franca. Se padece de dificuldade em articular, com as novas terapêuticas e pedagogias, certamente que o caso é passível de correcção. Se tiver sido derrapagem para a estupidez franca, não incomoda. A estupidez franca, ao expor-se, expõe a sua própria condição. Pois é da sua natureza ser evidente enquanto estupidez. O que faz dela estupidez que não engana. Segismundo.

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Titula o espesso Expresso, a vermelho, “Durão e Sampaio não vão”. Conceda-se que não é por estupidez, mas por lapso ou motivo estético – para não ficar Sampaio e Durão não vão, por ser muito ão seguido – que a frase não respeitou e reproduziu a hierarquia institucional das criaturas citadas. Mas o senhor dr. presidente da República e o senhor dr. primeiro-ministro não vão onde? Não vão à inauguração do estádio do Dragão - que, por ser a magna casa dos portista, merecia mais atinado baptismo. E não vão porquê? Não vão por, na data de tal inaguração, um e outro estarem fora do país, algures na América latina. Não, como os moçoilos do espesso Expresso pretendem insinuar, por propósito de solidariedade com o senhor dr. presidente da Assembleia da República, que não foi convidado. Segismundo.

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Sábado, o costume, dia de espesso Expresso. Uma frase como bom exemplo: “um acaso levou o comerciante de arte José Castelo Branco, figura do «jet set» nacional, a ser apanhado, quinta-feira à tarde, no aeroporto de Lisboa, com mais de cem peças de joalharia de origem não declarada, avaliadas em dois milhões de euros”. A reter, um acaso... E a reter também, a ser apanhado... Tal e qual. Em flagrante. É o Português do espesso Expresso. O Marquês.

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Apetece-me blafesmar, enunciar impropérios, pronunciar a palavra merda, repetir essa pronúncia. Apenas não o faço por saber que o mundo não necessita de ser discursivamente confirmado. Aliás, algo, sei lá se a consciência ou qualquer outra imanente transcendência que me habite, não me permite esquecer que sou parcela e componente deste mundo. Seja como for, merda, já disse. E não repito. Não sou masoquista. Não aprecio culpar-me. O Marquês.

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2003-11-07


Uma personagem da caderneta do jet set pátrio foi detida ontem no aeroporto de Lisboa e remetida, por uma noite, aos calabouços da Polícia Judiciária, para, hoje, ser apresentada ao Tribunal de Instrução Criminal. A dita personagem transportava na bagagem mais de uma centena de peças de joalheria, não declaradas em termos alfandegários, no valor de aproximadamente dois milhões de euros. Como sugere O Independente, uma jóia de rapaz, é o que ele é. Motivo mais do que suficiente para alguém jamais querer ser como ele. O Marquês.

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Parece que a senhora Maria Elisa abdicou do mandato parlamentar que, pelo voto e pelo PSD, lhe havia sido confiado. Uns dirão que já há muito era tempo disso, outros que a senhora anda padecente de maleita e, portanto, se lhe deve tolerar certos arrastos. Seja como for, o que é verdadeiramente bizarro é alguém, como a dita senhora, abdicar do que nunca teve e anunciar a dor respectiva, como se fosse um parto, embora ao contrário, sem trabalho. Nicky Florentino.

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Relativamente à estrutura e à mecânica da confiança o senhor director do Público revela-se pouco dominador. A confiança é uma atitude que, no limite, se define como um crédito fiduciário sobre um cenário. Confiar em algo ou em alguém é admitir que, em relação a esse algo ou alguém, determinado futuro será um e não outro, embora, em última instância, nada garanta que o futuro a acontecer de facto seja esse e não outro. Segismundo.

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Segundo a douta opinião do senhor dr. ministro de Estado e da Defesa, "todos sabem por que nasceram os parlamentos, porque os contribuintes precisavam de representação". Alto! A recriação histórica devia ter limites. Se outro não houver, o do decoro. Caso contrário, a víbora revisionista fica à solta. Segismundo.

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Disse o senhor dr. ministro de Estado e da Defesa, no encerramento do debate na Assembleia da República sobre o Orçamento do Estado para dois mil e quatro, “se são radicais no voto na generalidade, falta-vos autoridade para pedir diálogo no debate na especialidade”. Como ele, a criatura em figura de senhor dr. ministro, gosta deste tipo de soundbytes. Enquanto o argumento veícula suposta inteligência, a rima projecta elegância. E jactância. E pesporrência. Mas o que é que se há-de fazer?, se a criatura até gosta do papel ridículo que, por vezes - e não apenas em feiras e em mercados -, insiste em representar. Nicky Florentino.

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2003-11-06


Álvaro Cunhal?, quem é?, pergunta um. Quem é?, não!, quem foi?, corrige-o o outro. Sim, quem foi?, ele já não é, não é?, concede o primeiro. Bem, hoje ele ainda é, enquanto sujeito é um pretérito imperfeito, enquanto predicado é um pretérito perfeito, é isso que ele é, sentenciou o outro, pretendendo-se pedagógico. O Marquês.

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O José entende que a substância do discurso vertido por Álvaro Cunhal no texto que foi estapado na última edição do Avante! é semelhante à substância do discurso da esquerda radical. Concede o José que a forma da narrativa seja diferente, mas a substância, essa, é a mesma, sem tirar ou pôr. No que à substância respeita, talvez que o José não se engane. Seja como for, aos radicais de esquerda é aconselhado não respoderem à invectiva do José, "digam lá, caso a caso, do que é que discordam?". Pois ao fazê-lo tornar-se-ão formalmente iguais tanto a Cunhal quanto ao José. Ao assumirem a demarcação relativamente ao decrépito referente comunista, esquerda radical aqui, Cunhal acolá, ficam cativos do esquema básico adoptado por Cunhal, capitalismo ali, comunismo acolá, assim como adoptado pelo José, eu aqui, os hipócritas aí. E este modo de dividir as coisas do mundo, em dois, padece de um défice de imaginação atroz. Nicky Florentino e Segismundo.

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Não há qualquer noção pública no que concerne ao tipo de relação existente entre a Câmara Municipal de Lisboa e o arquitecto Frank Gehry. É provável, aliás, que nem o senhor dr. presidente da Câmara Municipal de Lisboa saiba. Pois se soubesse, há muito que o seu tino lhe teria permitido dar publicidade ao que sabe. Que, sobre o assunto, é nada. Ou isso ou próximo disso. Nicky Florentino.

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A propósito do facto de, no Orçamento do Estado para dois mil e quatro, a base de cálculo dos montantes a transferir para as autarquias locais não considerar o total das receitas fiscais arrecadadas em dois mil e dois, o conselho geral da AssociaçãoNacionaldosMunicípiosPortugueses lavrou um texto de tomada e afirmação de posição onde enuncia que “a ANMP nunca aceitará esta violação grosseira da lei das finanças locais”. A generalidade dos edis é sempre assim, muito ciosa do seu quinhão. Pois é isso, o seu quinhão, que lhes permite serem senhores lá na paróquia. Para além disso, não é novidade que não aceitem a violação grosseira de uma lei. As violações de normativos jurídicos que lhes merecem simpatia são as violações elegantes, aquelas que, de chofre, não se vislumbram. Nicky Florentino.

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Que se perceba, o aumento das propinas do ensino superior público tem um único efeito positivo, aumentar a responsabilidade dos alunos relativamente à sua trajectória escolar. Em tudo o mais, que se vislumbre, tudo fica na mesma. Neste processo, sobressai destacada a retórica, o elevado tom da propaganda governamental e o demagógico protesto dos estouvados estudantes. Pouco ou nada se diz sobre a relevância dos cursos oferecidos, sobre a sua estrutura, sobre a sua coordenação, sobre a deficiente preparação pedagógica dos docentes, sobre as condições impróprias, as salas de aula, as bibliotecas, os centros de informática, os gabinetes para atendimento aos alunos, sobre os alunos deslocados, sobre a inexistência de tutorias, sobre o regime pós-laboral e o estatuto do trabalhador-estudante, sobre a desgovernada gestão das universidades, sobre a mirífica acção social escolar, etcetera. Mas muitos falam, muitos dissertam, muitos opinam sobre o raio das propinas, sobre o pormenor. Quase sempre os do costume. E irónico é que, com toda a algazarra, com todos os expedientes manhosos das partes implicadas, dos governantes, dos dirigentes das universidades, dos estudantes, a (des)ordem das coisas tende a permanecer, como se fosse imune ao ruído e ao estrépito que por aí corre. Poucos são os inocentes. E ninguém morre por não haver heróis nesta história. Portugal é o nome desta nublosa pátria. Nicky Florentino.

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Não vou com Felipes, apenas com Filipes. De igual modo, não vou com Borbóns, apenas com bourbons ou com Gordon’s tonificado. Não é chauvinismo. São, antes, manias, manias de aristocrata, de aristocrata fingido. Manias minhas. Nunca ir para muito longe, para lugares onde a república fica distante, para lugares onde ainda julgam que existem majestades. O Marquês.

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O mundo é um poço de ironia, um proço transbordante de ironia transbordante de si mesma. A senhora Letizia Ortiz, prometida noiva da varonil criatura que irá herdar o trono do reino espanhol, preenche a atenção dos gentios por esse mundo além. O Público, por exemplo, só na edição de hoje ocupa duas páginas, a vinte e quatro e a vinte e cinco, com as mundanidades próprias do caso. Em consequência, ao que é importante dedica escassa disponibilidade. Por exemplo, qual era o calibre da pistola que, com dois projectéis, permitiu abater o rotweiller que, numa herdade da Chainça, nos arrabaldes de Abrantes, matou onze ovelhas e deixou outras sete gravemente mazeladas? Isso é que era importante saber, saber o que acontece aos cães. Pois saber o que sucede às cinderelas e aos príncipes deste mundinho é um luxo de que se pode e deve abdicar. Por uma razão de salubridade do juízo. Segismundo.

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2003-11-05


A cruz é um símbolo estranho. Com tanta figura geométrica disponível, com tanta forma natural exposta, por qual raio foi adoptada a cruz como símbolo religioso? Por que não o círculo?, ou o triângulo?, ou a flor do lis?, ou o trevo? O Marquês e Segismundo.

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No PS andam no jogo do ora chupa aqui a ver se eu deixo. E, como quem não quer a coisa, o senhor dr. João Soares lá vai insistindo, que sim, que não diz que não, que se tiver que ser... O que, para além de mau augúrio, é pungente. E má, muito má, comédia. Gregório R. e Nicky Florentino.

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2003/2017 - danados (personagens compostas e sofridas por © Sérgio Faria).