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Albergue dos danados

Blog de maus e mal-dizer 

2003-09-30


Em voz, “voltámos aos piores momentos do cavaquismo, de não deixar a imprensa ver”, lamirou, ontem, em Paio Pires, na SiderúrgiaNacional, o senhor dr. secretário-geral do PS, por o respectivo conselho de adminstração não permitir aos jornalistas aceder às instalações da empresa. Argumentou o dito conselho de administração da empresa, em razão dessa sua decisão, que não estavam reunidas as devidas condições de segurança para a visita. Concerteza não havia daqueles patéticos capacetes de fibra para a cabeça de todos. Mas, convenhamos, quem raio é que avança para uma visita à SiderúrgiaNacional sem um aviso prévio à respectiva administração? Ao menos um pequeno alerta, que oferecesse tempo suficiente para varrer as limalhas e as escórias do chão. É que, como é bem consabido, na siderúrgia, para além da ferrugem, a imagem é quase tudo. Aliás, essa é justamente uma das condições de segurança que cumpre verificar. Foi assim no tempo em que o senhor Prof. Doutor Aníbal António Cavaco Silva foi primeiro-ministro, é assim no tempo em que o senhor dr. José Manuel Durão Barroso é primeiro-ministro. Todos, com a honrosa excepção do senhor dr. secretário-geral da trupe socialista, compreendemos isso. Embora, pela lógica das coisas, fosse expectável que ele também o conseguisse compreender. Afinal ele é Ferro, ou não? Nicky Florentino.

Referência



No último exercício em que escrutina o que entende terem sido os melhores da semana finda, CAA, do Mata-Mouros, anuncia como melhor proposta apresentada uma que foi apostada por LR, um comparsa lá de casa. Ora, o que dizer?, para além de que é muito bem visto. Apenas que se justifica que, aquando da cerimónia de agraciamento de LR, em fundo, tipo passe-partout sonoro, soe Duetto buffo di due gatti, per soprano e pianoforte, concebido por Rossini. Pois é também uma composição pândega, muito pândega, ainda que não tanto quanto a proposta de LR. Segismundo.

Referência

2003-09-29


No que concerne às futuras eleições autárquicas, afirmou, rotundo, o senhor dr. presidente do CDS/PP, "o nosso sentido vai para Norte e para a direita". O que significa que, com tal desígnio, os prováveis edis democratas-cristãos/populares irão parar ao outro lado da Península Ibérica. Por isso estimo que um dia ainda teremos saudades deles, dos que emigraram tomando o nordeste como horizonte. Gregório R.

Referência



As mulheres são criaturas inconvenientes na política, sabe-se isso de boa razão e desde o antediluviano fundo dos imemoriais primórdios da espécie. Fiel a este observado princípio, segundo o elenco de figuras estampado hoje na página doze do Público, no universo de sessenta e três lugares que compõem os órgãos do CDS/PP, seis são ocupados por mulheres. Qualquer coisa como, arrendondado às décimas, nove vírgula cinco por cento. É capaz de ser excessivo, não? Pois que em tal proporção o mal pode propagar-se e, tunga!, fulminar a congregação. Aliás, como qualquer aprendiz da arte sabe desde a sua rudimentar competência - se bem que neste pormenor os prometidos conservadores sejam mais precoces -, um partido político para ser um partido político tem que ser um autêntico «clube do Bolinha»: menina não entra. Ou isso ou está tudo estragado. É que elas são o diabo. E nisso o senhor dr. Paulo Portas, á grande homem!, não se engana. Nem é enganado. Nicky Florentino.

Referência



Titula a edição de hoje do Público , em caixa alta, “Portugal é o país da Europa onde o frio mata mais”. Já se suspeitava. A raça lusa resiste, garbosa, à canícula bruta, os celsius baixos é que são o caraças. O que significa que o senhor dr. ministro da Saúde, faça sol ou faça chuva, está a contas, contas mórbidas. O Marquês.

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Chegam hoje, pelo Público, ecos de uma entrevista ao senhor eng.º deputado do PS João Cravinho, transmitida pela RádioRenascença. Nessa circunstância, a propósito do caso-escândalo da Casa Pia, terá ele desabafado, em lamúria, “como toda a gente vem verificando, no plano político, só se fala de altos dirigentes do PS. Já se falou em altos dirigentes do PSD ou em altos dirigentes do PP? Não! É só isso”. Aliás, como toda a gente foi verificando, com o caso-escândalo da Universidade Moderna também foi assim. Danada sorte. Sempre as mesmas vítimas, sempre os socialistas, sempre os socialistas. Será que não se podem mudar as regras do jogo? Ou será do jugo? Nicky Florentino.

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Não sei se este fim-de-semana, em Matosinhos, se ouviu a saudação “ó!, mon ami Fini”, mas, se se tivesse ouvido, não me supreenderia. É que há amizades que, como algumas burocracias, não espantam. Nicky Florentino.

Referência



O senhor dr. presidente do CDS/PP, ontem, no discurso de encerramento do décimo nono congresso da causa, entusiasmado, do púlpito, revelou: “a Constituição é para todos, não é apenas para os socialistas”. É que antes, assim, com a mesma propriedade, ser comum, para todos, só existia a pizza familiar. Dividida em fatias, uma para cada um. Nicky Florentino e Segismundo.

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2003-09-28


Na página dois da edição de hoje do Público há uma polaroid pândega do senhor dr. presidente do CDS/PP em acto. O fulano está com o braço direito hirto e estendido, parecendo estar a fazer a saudação a César ou fascista. O Carlos suspeita haver uma capciosa intenção subjacente à decisão de estampar tal polaroid no jornal. Aqui suspeitamos o mesmo. Mas é justamente essa suspeita que nos faz nutrir maior ternura pela dita. Não porque mostre o que a criatura é, mas o que a criatura pode ser. É que, mesmo que remota, uma hipótese é sempre uma possibilidade. E essa é justamente uma das trágicas ironias do mundo. Celebremo-la. Pois é isso que, aqui, nos faz ser voluntária e desejadamente maus. O Marquês e Segismundo.

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Cite-se Le Livre du Rire et de l'Oubli, de Milan Kundera. "O futuro é só um vazio indiferente que não interessa a ninguém, mas o passado está cheio de vida e o seu rosto irrita, revolta, fere, a ponto de o querermos destruir ou voltar a pintar. Só se quer ser senhor do futuro para poder mudar o passado. Luta-se para se ter acesso aos laboratórios em que é possível retocar as fotografias e reescrever as biografias e a História". Embora esta prosa arraste a memória para os tempos e os processos do senhor Estaline, hoje ela parece aplicar-se também, sem tirar nem pôr, aos manhosos expedientes da propaganda do CDS/PP. É que, segundo consta, na abertura do décimo nono congresso dessa cristã e popular confraria foi exibido um filme onde foram ostensivamente omitidos alguns dos antigos presidentes da causa, inclusive o primeiro. É um comportamento típico de quem, incapaz de fazer esquecer ou superar o pai - que já não é mais do que memória -, o mata por supressão, pretendendo vingar-se das memórias que considera indesejáveis. O problema, o danado problema, é que há sempre outros, conservadores ou antiquários, que não esquecem o que foi e como foi o passado. Pelo que, por mais insistentes que sejam os ensaios, raramente todas as memórias se conseguem construir por traição. Segismundo.

Referência



O senhor dr. Paulo Portas, no uso implacável do plural majestático que tão bem lhe assenta, disse, ontem, em Matosinhos, no conclave do décimo nono congresso do CDS/PP, “nós preferimos um imigrante com integração do que dois sem integração”. Como a aritmética é simples, o senhor dr. presidente do CDS/PP poderia ter evitado os complementos proposicionais das orações, bastando-lhe dizer "nós preferimos um imigrante a dois". É que, porque o conhecemos de sobejo, pode economizar nos artifícios góticos que injecta nos seus solilóquios, proporcionando-os mais claros. Pois que, ele, falar de integração de imigrantes serve apenas para confundir. E a confusão é incómoda. Uma espécie de arremesso de areia para os olhos. Nicky Florentino e Segismundo.

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Consta que ontem, no Barreiro, num seminário promovido por autarcas do PSD, o senhor secretário de Estado da Administração Local ousou reconhecer que os municípios, nas actuais circunstâncias, não têm condições para assumir as competências que ele mesmo tem tratado de, com sofreguidão, lhes entregar. Aliás, chamou o dito senhor secretário de Estado a esse processo de entrega e ao que supostamente lhe sucederia «revolução tranquila». Percebe-se, agora, de onde promana tal tranquilidade. E sem decoro o dito secretário de Estado isso diz, embora sem ter noção do que diz. Ser-lhe-á o espírito assim tão leve?, caraças. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



Ontem, em Matosinhos, o cenário do décimo nono congresso do CDS/PP era azul, azul, azul, com umas pequenas clareiras de amarelo. Mas o sangue que corria dentro das criaturas que compunham o cerco humano do evento era vermelho, vermelho. O que significa que, onde quer que seja, o diabo encontra sempre um lugar para se domiciliar. O Marquês.

Referência



Ele, "ó avózinha!, mas é como eu estou a dizer-te, a missa vai voltar a ser dita em Latim e o padre, no altar, vai voltar a ficar de costas para os fiéis. Vinha esta semana nos jornais", desconcertou-a.
Ela, "olha!, sabes o que te digo?, deus lá sabe das artes da missa e ele compõem o mundo como entende que melhor ele deve ser", reagiu assim, acreditando no neto, enquanto apertava o terça na mão.
Ora, porque é que a velha, beata, disse o que disse? Porque acreditar nos do seu sangue é como acreditar em deus, com a diferença de que naqueles, ela, cega, consegue tocar e ver. O Marquês

Referência

2003-09-27


Neste tugúrio não acreditamos no branco, menos ainda no branco em barda. Preferimos passear de helicóptero. É outra a emoção, é outro o sentido da liberdade. E preferimos o Paint it black a Sympathy for the devil. Pelo que os danados daqui estão para cortejos em turba, assim como os falcões estão para as pombas. Brancas. Da cor das farpelas, em lençóis feitas, da trupe KapaKapaKapa. Gregório R., Nicky Florentino, O Marquês e Segismundo.

Referência



Repara uma moçoila do espesso Expresso ao senhor dr. deputado do CDS/PP Telmo Correia, "o secretário de Estado Barreiras Duarte, em entrevista ao Público, criticou o discurso [que Paulo Portas proferiu na rentrée]". Responde o dito senhor dr. deputado, "não li"... O resto da resposta é dispensável. Todos acreditamos nele. Segismundo.

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Estampa hoje o espesso Expresso, na fronha, "«Agastado» com o Governo que acusa de não o tratar condignamente enquanto presidente da segunda maior Câmara [Municipal] do país, Fernando Seara está a reavaliar a sua situação em Sintra". Pois, pois... Não se sabe que unidade de medida foi considerada pelo redactor da peça, mas essa de que a Câmara Municipal de Sintra é a segunda maior do país... deve querer dizer que o país é Lisboa e os arredores mais imediatos. Ao sábado o espesso Expresso é assim, propenso ao disparate. Mas é bom - reconfortante, mesmo -, sábado após sábado, poder confirmar essa propriedade. Sinal de que o mundo ainda vai preservando algumas exactidões. Nicky Florentino.

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2003-09-26


O José, o outro, apostou uma prosa geométrica, “o berlinde é um dado que não pára por ter faces a mais”. O que fez deflagrar em mim a seguinte interrogação: será o senhor dr. Paulo Portas um berlinde?, tipo abafador. Segismundo.

Referência



A pátria, desde o mais humilde gentio, eventualmente edil, até ao senhor eng.º ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação, anda em cavado sobressalto. Consta que existe em Portugal uma quantidade significativa de pontes em risco. Ora, há em tal informação um sério problema de credibilidade. Dado não ter caído ainda nenhuma ponte – aquela que caiu sobre o IC19 não conta, no sentido em que foi um factor contingente absolutamente imponderável, chamado incúria, que produziu o infortúnio -, em que é que podemos basear a confiança relativamente a tal diagnóstico?, quando ele parece desproporcionadamente alarmista. Enquanto não colapsar qualquer uma das pontes inventariadas não é possível acreditar na palavra do relatório do InstitutodeEstradasdePortugal. Fazê-lo implicava convocar uma fé que não está disponível aos mortais. Nicky Florentino.

Referência



O José era um senhor. Escrevia nos jornais, falava na rádio e na televisão. Era uma voz livre e um corpo com uma barriguita proeminente e uma barba que vinha de outros tempos. Um dia, ao senhor, deu-lhe a mania dos blogs e foi-se a eles. Criou dois, um maior, outro mais pequeno, de nome escolástico e grave. O blog maior, esse sim, era um exemplo. Crescia, crescia, crescia e cresceu mais do que qualquer um dos outros. Era o mais famoso e o maior entre todos. Até que um dia uma trupe, autodesignada Grupo Operacional de Vigilância Democrática (GOVD), inventou um mentideiro sob a forma de blog. E, alimentado pela mórbida e funesta curiosidade das criaturas, cresceu, cresceu, cresceu, cresceu e ficou maior do que o blog grande do José, que até então era o maior. O José não gostou. E fez queixinhas. Primeiro ameaçou, escreveu no blog e no jornal. Depois, para maior audiência, falou na televisão. E o blog que havia crescido mais do que o seu, num instante, tóing!, eclipsou-se. O José voltou a ficar contente. E, coçando o umbigo, murmurou para si “abrupto, mas não bruto”, no tom em que o outro canta “romântico, mas não trôpego”. O José é um danado, triste é ser dos bons. The end. O Marquês.

Peristilo ao contrário. Qualquer semelhança entre o parodiado antes e a realidade é, claro está, mera ficção, não coincidência.

Referência

2003-09-25


É ternurenta a leveza de espírito revelada por LR, do Mata-Mouros, na sua proposta de refundação do sistema político da pátria. Em justiça, porém, note-se que ele próprio não deixa de reconhecer os laivos néscios que subjazem a tal proposta. É que, acusa ele, tem consciência de que as alterações radicais que preconiza dificilmente são passíveis de concretizar de súbito, antes necessitam de ser graduais, animadas “por pressão de dinâmicas sociais que se criem”. Como se faz com o uso de alavancas ou martelos.
Tudo começa com uma nova Constituição, que talvez não careça mais do que quinze artigos. A felicidade começa aqui, pois, se assim for, o “cidadão comum” – que, concerteza, se distingue do que seja o cidadão incomum – tenderá a conseguir criar uma mnemónica que lhe permita facilmente recapitular, como numa oração, os artigos constitucionais. O passo seguinte segue uma insuspeita e célebre cartilha. O Estado é para reduzir – atenção!, no marxismo é que o Estado era para suprimir – a funções “apenas normativas e fiscalizadoras”. A sociedade civil, salvífica, é para libertar, liquidando-se, assim, as maléficas corporações que, embora incrustadas nessa dita sociedade civil, existem apenas porque existe o Estado. E como é que isso se concretiza? É muito simples, por via de uma “profunda reforma da divisão administrativa do país”. Os municípios são para não ser mais do que cem, com uma dimensão demográfica de aproximadamente cem mil habitantes cada, dedicados “a uma mera «gestão de condomínio» e a alguma «filigrana social»”. As freguesias, essas, são “redimensionadas e homogeneizadas à volta dos dez mil habitantes, passando a servir apenas para fins estatísticos e eleitorais”. Diga-se, en passant, que não crê o LR “que haja algum concelho com identidade sociológica marcante”. Ele não se refere às freguesias, mas é provável que a crença a propósito delas não seja muito distinta. Aliás, como é bem sabido, apenas um agudo discenimento sociológico manifestamente patológico é que pode sustentar que existem em Portugal comunidades territoriais com identidade, diferenciadas umas de outras. Enfim... A paródia continua no mesmo tom e, por ser digna de registo numa antologia de anedotas de engenharia política, merece ser lida na íntegra. O que lá se encontra é um argumento tanto original quanto limpinho. Tão imaculado quanto palavras brancas numa folha branca. Olha-se para ele e não se consegue descortiná-lo. Não porque não se consiga vê-lo, mas porque não está lá o mínimo que seja de juízo. Os ilusionistas, no circo, conseguem fazer o mesmo. Os malabaristas é que não. A arte é outra. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



O senhor dr. presidente do CDS/PP e ministro de Estado e da Defesa é uma criatura à qual se deve dispensar absoluta confiança. Demonstrou-o esta noite. Se alguém lhe endereça uma pergunta a versar sobre alhos e ele, sem responder à interrogação colocada, disserta sobre bogalhos e medronhos, das duas, uma. Ou o fulano não sabe Português e, por isso, é perigoso apenas no sentido em que não sabe o que diz, o que não é grande perigo. Ou, então, sabe Português e faz que não sabe e, por isso, é perigoso simplesmente porque não sabe ou não consegue ser sincero, o que também não é grande perigo. É dever de todo o gentio recordar-se da fulgurante competência do fulano revelada nos seus exercícios peripatéticos de doutrinação em feiras e mercados, por vales e veredas, sempre com aquela bóina, verde british, da Lacoste, enterrada na cabeça. Pungente, sim!, mas pedagógico. Ou será demagógico? Democrático não é certamente, mas o que é que isso interessa?, não é? Nicky Florentino e Segismundo.

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Uma das ficções modernas é a figura do cidadão. O cidadão é a criatura que, pela relação que tem com uma determinada comunidade política, é igual a todas as outras criaturas que tenham uma relação semelhante com essa mesma comunidade política. Assim como todos somos iguais para a miopia divina, também todos somos iguais para o Estado. É essa condição isométrica que nos faz cidadãos. Tendo isto presente, é pois com estupefacção que se sabe que uns senhores drs. causídicos, defensores de uns quantos arguidos do caso Casa Pia, escreveram num recurso que apresentaram ao Supremo Tribunal de justiça a expressão «cidadão médio da comunidade». Haja alguém que explique aos senhores - provavelmente com o superego a murmurar-lhes num débito contínuo que são uns senhores cidadãos xiséle ou xisxiséle e que assim se devem sentir - que os cidadãos da comunidade – haverá outros?, em Vénus?, em Saturno? – são todos do mesmo tamanho. Não os há minis ou médios ou colossais. Por muito que uns insuflados se julguem civicamente acima de outros, todos os cidadãos estão domiciliados no rés-do-chão. Há misérias que são assim. Nicky Florentino e Segismundo.

Referência



A sabedoria dos gentios vale o que vale, mas alguns axiomas até têm o seu quê de sensato. Aqueles do tipo «nem tudo o que luze é ouro» são uns dos mais plausíveis. A este propósito, disse a senhora jornalista que tentou interpelar o senhor dr. juiz-desembargador presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, “quando uma pessoa vai para a porta do Tribunal de Instrução Criminal fazer uma reportagem com ciganos enraivecidos com uma decisão qualquer, está preparada para uma cena violenta, mas não era o caso”. Pois, não era, mas foi. O senhor Prof. Doutor Erving Goffman explica bem o fenómeno. Essa de que ciganos enraivecidos com uma decisão qualquer à porta do Tribunal de Instrução Criminal são diferentes de um senhor dr. juiz-desembargador presidente do Tribunal da Relação de Lisboa no salão nobre do Supremo Tribunal de Justiça é uma mera impressão. Que se gere. Segismundo.

Referência



Não conhecia a criatura. Os apetites nunca foram para aí apontados. Mas, num canal da SociedadeIndependentedeComunicação, vi o senhor dr. juiz-desembargador presidente do Tribunal da Relação de Lisboa e foi como amor à primeira vista, embora, claro está, sem amor. Aprecio fulanos irascíveis, brutos, capazes de debitar ameaças por via do uso de vernáculo. Pois, considero eu, os eleitos são aqueles a quem a vergonha não alcança. E que têm o discernimento de chamar merda a uma câmara de filmar. Aliás, mais pândego do que isso só mesmo a disposição, á valente!, para quebrar a dita, toda. O Marquês.

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O senhor eng.º José Sócrates confessou, numa sessão na secção do PS de Benfica, “não estou infeliz por estar na oposição”. Ora, se assim é, que por lá fique muitos e bons anos. Com a continuação pode ser que acabe por se afeiçoar ao lugar e alcançar a felicidade. Que é o que toda a criaturazinha que pensa almeja. Nicky Florentino.

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Um senhor dr. deputado do CDS/PP chamado Nuno Melo virou-se para um senhor dr. deputado do PS chamado Vitalino Canas e disse, “não percebo como se atreve a falar em xenofobia, quando se dirige ao CDS/PP”. É fácil decifrar o mistério dessa incompreensão. O atrevimento, assim como o não perceber, advêm certamente da imunidade parlamentar. Quando se é senhor dr. deputado pode fazer-se à vontade, sem restrição, figura de palúrdio. Ninguém percebe. Nem mesmo o próprio. Nicky Florentino.

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Tal como os piores cegos são os que se recusam a ver, os piores surdos são os que insistem em não ouvir, armando-se em moucos. Vêm estes aforismos a propósito da intervenção de um senhor dr. deputado do CDS/PP na Assembleia da República. Disse ele, “a política de imigração defendida por Paulo Portas nada tem a ver com as posições selvagens preconizadas por Le Pen, mas o discurso do PCP sobre o Iraque é igual ao de Le Pen”. Caso para dizer, olha a coincidência, ã! Agora, faça-se, já!, um baralho de cartas com a efígie dos cabecilhas dessa praga comunista nacional e remeta-se o dito a’The Pentagon. Ou isso ou a rapaziada do CDS/PP revela inconveniente e simpática complacência com Le Pen. Nicky Florentino.

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O artigo do José estampado hoje no Público é uma armadilha, uma ratoeira, onde, parece-me, ele próprio cai. A tese do José é que o terrorismo e o SíndromadaImunoDeficiênciaAdquirida não são comparáveis. Se não são comparáveis, suspeita-se que não seja possível estabelecer uma relação entre eles. Mas o José, lançado para diante, resvala para a contradição, por sustentar a sua tese com um argumento que assenta e acentua justamente a relação entre os dois factores. Escreveu o José, “o combate contra a epidemia da sida nunca será o beneficiário directo ou indirecto da secundarização da luta contra o terrorismo”, up!, upa! E depois, de imediato, acrescenta, “um mundo instável e perigoso é o melhor terreno para a proliferação da sida, particularmente em sítios como a África, onde a doença está inscrita profundamente na sociedade, sendo um factor de depressão económica e social”, down!, chão! O dispositivo tem a sua elegância, mas é fatal. Corolário: terrorismo e sida são comparáveis, mas não como o senhor dr. Presidente da República experimentou fazê-lo. Não é?, ó José! Segismundo.

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2003-09-24


O discurso é eloquente. Disse o senhor dr. Manuel Monteiro, “na verdade, não conhecia o dr. Portas. Nunca o conheci. Hoje tenho a firme convicção de que ele nunca foi meu amigo”. O curioso é que a criatura, tempos houve, teve a firme convicção de que o senhor dr. Paulo Porta era seu amigo. O que quer dizer que as firmes convicções, essas sim, se mantêm e lhe merecem inabalável confiança. O tempo, o raio do tempo, é que corre e muda tudo. Embora, como em qualquer senão, o folhetim do estranho caso dr. Portas e mr. Monteiro há muito estivesse escrito. É isso o destino, ainda que destino taqueopariu. Por isso, os conservadores, mais do que qualquer outra fauna, o sofrem merecida e prazenteiramente, os lorpas masoquistas. O Marquês.

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O senhor George Walker Bush disse, ipsis verbis, "I appreciate people's opinions, but I'm more interested in news". Depois acrescentou, "and the best way to get the news is from objective sources, and the most objective sources I have are people on my staff who tell me what's happening in the world". A estupidez quando é franca e soberba tende a tanger o sublime. Ó George!, o que seria de nós sem ti?, certamente umas figurinhas tétricas e sem motivo existencial, não é? Segismundo.

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O Vaticano, essa maravilhosa invenção, pelos prestimosos ofícios da Congregação para a Doutrina da Fé, de sueminência Joseph Ratzinger, e da Congregação para o Culto do Divino e a Disciplina dos Sacramentos, de sueminência Francis Arinze, reuniu um consórcio de esforços e de santificada imaginação, consórcio esse que, entre outras orientações, pretende fazer vingar o entendimento de que não é recomendável, salvo se sobrelevarem razões pastorais, a existência de moçoilas no engenho de sacristão. É que sabedores que são da coisa, os congregadores sabem que elas, as tentações, são capazes de subir alto, mesmo capazes de arribar ao altar. E, convenhamos, poucas são as mulheres que, no altar, não são súcubos. Pelo menos para os curas, pastores a quem há sempre uma ovelha que, tocada pela luxúria, lhes parece mais própria para o castigo ou coisa que o valha. O Marquês.

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O senhor James Wolfensohn, presidente do World Bank, disse “o nosso planeta não se encontra equilibrado. Muito poucos controlam demasiado e demasiados têm muito pouco com que contar”. Olha!, olha!, mas essa não era uma profecia do senhor Karl Marx?, vai para mais de século e meio. Querem lá ver que, embora considerado tão démodé, o fulano tinha razão... Ou isso ou ele há espectros que não param de pairar, os raios, não? Gregório R.

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Muitos, sobretudo com inclinação canhota, revelam incómodo ou mais do que isso em relação à doutrina da administração norte-americana em matéria de geo-estratégia, a preventive action, aquela do disparar primeiro, ajuizar depois. Porém, como todos, ou quase, sabemos, um homem prevenido vale por dois. E nisso o senhor George Walker Bush não é diferente dos demais mortais. Inclusive na estupidez. Que, pela prevenção, é multiplicada pelo dobro. São, enfim, as contas da vida. Por acaso feitas com algarismos árabes. Nicky Florentino.

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Consumia-o a sensação de pecado cometido, não propriamente o facto de ter pecado. Pertubado por haver noites consecutivas sem dormir, decidiu confessar-se. Sabia ele que o cura da paróquia, só ele, o podia perlavar dos seus pesos de alma. E disso confiante foi à capela em demanda do padre. Reportado o feito, em pantomina, entendeu, porém, o pastor não poder redimi-lo. Há pecados que não se perdoam, disse. E o homem sofreu para o resto dos seus dias, que não foram muitos. Pois que, revelada que foi a infâmia, breve cuidaram os vizinhos de o empalar. Sofre, canalha, murmurou o pároco para si mesmo, no zénite da execução. Não se roubam as nêsperas da nossa senhora da piedade!, acusou depois. Roubar é infringir o sétimo mandamento da magna e divina lei, assim como sucumbir à gula é um pecado mortal. E menos ainda se roubam as nêsperas da nossa padroeira, a senhora da piedade, para lhes dar o uso de supositório. Não é suposto que assim seja!, clamou o padre, perante uma plateia em gáudio, enquanto o flagelo da criatura, lento, prosseguia. O Marquês.

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2003-09-23


O XV Governo constitucional, aquele que por estes dias nos vai flagelando, tem uma imaginação que ultrapassa os estreitos limites do prodígio. É que, segundo consta, nos termos de um projecto de regulamentação que apresentou recentemente, referente à avaliação dos funcionários públicos - essa espécie de oblatos modernos -, os senhores do executivo atreveram-se a fixar quotas em função das classificações a atribuir-lhes. Assim, no limite, máximo, apenas vinte por cento das gentes da administração pública poderiam ser classificadas com «muito bom» e, critério ainda mais refinado, apenas cinco por cento dessas mesmas gentes poderiam ser classificadas com «excelente». O princípio, reconheça-se, é audaz. Porém, subsiste uma pertinaz suspeita, por qual raio se insiste em classificar os funcionários públicos? Não se poderia, antes, supliciá-los com azorrague ou, melhor ainda, lapidá-los com paralelepípedos de calçada portuguesa? Se é para as pôr na linha, em sentido, às criaturas que animam a administração pública, o que é necessário é fazer-se-lhes o que não se faz aos cães. Que é para essa malandragem aprender. Nicky Florentino e O Marquês.

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Fui testemunha de um diálogo, entre dois gentios, que sorviam um café, depois de almoço. Concedo-lhe aqui eco.
Eleum, a ler o Público, em voz alta, em tom de desprezo, para outro, “Ouve esta: 'Opus Gay acusa Bloco de Esquerda de «golpes trotskistas» para controlar o movimento'”.
O outro, eledois, “«golpes trotskistas»?, devem ser golpes por trás, não?”, expostou a dúvida.
Eleum, esclarecedor, “golpes por trás?, não!, desses a Opus Gay era capaz de gostar e não se queixar”.
Eledois, "pois é!, pois é!, deves ter razão", disse, ilustrado.
Depois riram-se como duas hienas, os balofos, sentados na mesa ao lado. Que, por acaso, devem saber melhor o que significa gay do que o que significa trotskista. A vida tem destas ironias. O Marquês.

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Diz o José, o outro, o do Reflexos de Azul Eléctrico, não o do Abrupto, que "entre servo e cervo vai quase um dicionário". Mas maior é a distância que, no dicionário, medeia alce e veado, embora, pela natureza, tal não pareça justificar-se. Pois ruminam ambos, como qualquer besta. Segismundo.

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2003-09-22


Richard Grasso era o maioral da NewYorkStockExchange. Por fortuna, consta que auferia uma parcimoniosa remuneração pelos seus profissionais préstimos e pela sua dedicação à bolsa de valores de New York, algo a rondar, a dita remuneração, os cento e quarenta milhões de dólares. Porém, não faltou quem, ferido pelo mal de inveja, injectasse no juízo da plebe que tal remuneração era hiperbólica e obscena. O que acabou por provocar a demissão de Richard Grasso, pobre coitado. Não é justo. Que sorte virá a ser a dele no futuro?, ó cambada de ingratos fariseus! O Marquês.

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Segundo o senhor dr. Manuel Monteiro, o presidente do novel PND, a pátria, cruzes!, credo!, está em fase de "pré-golpe de Estado". Acautelem-se, pois, ó gentios! Trancas na porta! Andam por aí maus, ai!, ai!, ui!, ui!, que querem aproveitar-se do pobre e indefeso luso Estado, essa institucional besta que nos segura e protege do lobo-mau. Nicky Florentino.

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2003-09-21


Cuidou de carpir a senhora dr.ª Maria Elisa, senhora deputada com o mandato suspenso por cinquenta dias, que umas quantas más almas se deram ao trabalho de excesso de zelo e da maledicência por, em grossa medida, ela ser mulher e ter alguma notoriedade. Ora, ora... que seja mulher pouco se nota e que tenha alguma notoriedade nem é muito evidente. Pelo que as más vontades de que a senhora dr.ª Maria Elisa se supõe vítima são sobretudo consequência do obscurantismo daqueles que não percebem que a prevenção da doença é perfeitamente compatível com o trabalho. Aliás, como está bem de ver, para além dos preguiçosos e dos dolentes, apenas os mortos não trabalham. O Marquês.

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2003-09-20


Os moçoilos do espesso Expresso são de outra constelação, já se sabia. O que lhes confere uma danada propensão à transgressão. Desta vez, reuniu-se em areópago a redação do suplemento Actual e alguns dos seus habituais colaboradores para elencar, ordenadamente, as cinquenta personalidades, vivinhas da silva, mais importantes da cultura da pátria. E o que é que resultou?, resultou que as referidas criaturas colocaram no mesmo saco onde meteram Maria João Pires, Álvaro Siza Vieira, Paula Rego e Herberto Helder o, pasme-se, senhor general José Loureiro dos Santos. Ao diabo jamais viria tal lembrança, mas, enfim... Em cinquenta nomes há sempre espaço para considerar um militar. Que se encaixa sempre bem, entre o Paulo Nozolino, o Luiz Pacheco, a Maria Gabriela Llansol e o Adolfo Luxúria Canibal. A cultura é assim mesma, lata, tudo. O que mexe. Segismundo.

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Uma das maiores delícias, ao sábado, é o espesso Expresso. E uma das maiores delícias do espesso Expresso é o rigor dos títulos e das manchetes. Semana após semana, num ritual rítmico semelhante ao da celebração da eucaristica dominical, é asneira à bojarda, grossa, saliente, quase sempre evidente. A propósito desse facto, regularmente verificado, neste tugúrio inventámos um lazerento exercício. Olhamos para a capa do espesso Expresso e, em reserva, apostamos sobre qual é o título onde suspeitamos haver estupidez alarve. Esta semana verificou-se uma unanimidade. O título, o segundo, estampado dizia: "morte não aflige GNR". Começa a ler-se o corpo da notícia e, logo na primeira frase, a prosa é como segue entre aspas, "a perspectiva da morte não é o que mais aflige os voluntários da GNR que vão para o Iraque". Ora, convenhamos, não ser o que mais aflige não significa que a morte não aflija. Mas para os moçoilos do espesso Expresso e seu intrépido director, o senhor arq.º, parece que sim. É bonita a estupidez franca. E impune. Porque se repete, sábado após sábado. E serve o nosso divertimento. Se assim não fosse, seríamos diferentes. Para melhor. O que é mau. Manifestamente mau. Segismundo.

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O Público, hoje, na capa, sobre uma fotografia de Martin Amis, gravou o seguinte apelo de atenção para o suplemento Mil Folhas: "evocação de Lenine". O lapso é evidente. Na capa do dito suplemento lê-se, sob o nome Martin Amis, "a evocação de Estaline". O deslize poderia ter levado a escrever, na fronha do diário, «evocação de Rasputine», mas, não!, tinha de ser «evocação de Lenine». O nome de qualquer mau-ine servia perfeitamente. Como habitualmente, nestas circunstâncias recomenda-se o divã terapêutico. Uma sondagem aos fundos da alma, para lá da fronteira dos recalcamentos, e tudo se esclarecerá devidamente. É que nestes lapsos não há acasos. Qualquer que seja o seu pretenso tipo. Segismundo.

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Não se sabe quem foi o geógrafo ou o raio que o parta que compôs o mapa português das cidades que o vetusto Diário de Notícias, hoje, estampa na página vinte e oito. Mas alguém, por caridade, que informe a criatura e o director do dito vetusto diário que as cidades de Fátima e de Ourém não pertencem ao distrito de Leiria. Pelo menos se o mapa for não canhestramente desenhado. Nicky Florentino.

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2003-09-19


A moção que o senhor dr. presidente do CDS/PP subscreve e apresenta ao décimo nono congresso contém pérolas várias a merecer detalhada atenção exegética. Uma delas é sobre a atitude que o referido partido deverá ter relativamente à União Europeia. Versa assim, "ser «eurocalmo» significa não discutir o valor da nação, porque é nosso, indisponível e inegociável; e observar a integração europeia como processo de negociação permanente, onde se joga parte do nosso destino económico e social, todas as semanas, todos os meses, todos os anos". Quanto aos dias, todos, incluindo os feriados de ir à missa, ufa!, podemos ficar descansados e descansar, pois não parece ser neles que se joga qualquer parcela do fado económico-social da pátria. E essa é uma propriedade nossa, indisponível e inegociável, têmpera da nossa portugalidade autêntica. Nicky Florentino.

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A propósito do processo judicial que demonstrou - e condenou - o logro político que foi o PDC, o senhor il cavallieri disse "estes juízes são completamente loucos! Para fazer esse trabalho é preciso ser-se mentalmente perturbado, tem que se ter distúrbios psíquicos. Se eles fazem esse trabalho é porque são antropologicamente diferentes". Uma espécie de preto-chineses ou pior ainda, certamente, habituados a exercitar esconsas hermenêuticas sobre os ditados jurídicos. Nicky Florentino.

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Ele há danados relativamente aos quais nutrimos um particular, embora perigoso, afecto. Um deles é il cavallieri, o senhor Silvio Berlusconi. Disse ele a propósito da democracia nos transalpes, "a Itália é uma democracia total com uma ou duas anomalias. Temos uma oposição que não é totalmente democrática, constituída por alguns protagonistas do partido comunista italiano de origem estalinista. Outra anomalia é a de que temos um poder judicial extremamente politizado. E há uma enorme desinformação por parte da imprensa. Basta ler o La Repubblica, basta ler o Unità, são jornais ao serviço da esquerda". Ai, ai... a esquerda, sempre a esquerda, esse impróprio sentido... e os juízes, sempre o raio dos juízes... Como tudo era melhor se existisse apenas governo, se os poderes não fossem separados e se se pudesse exterminar ou mandar para uma estância balnear, em gozo de férias, aqueles que estorvam, não era? Nicky Florentino.

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O pai para o filho, és um insuflado, acusou-o. Este, impregnado do propósito de contraditar o progenitor, cravou no abdómen uma agulha para fazer malha, com que a mãe lhe concebia as camisolas mais grossas, para o inverno. Feito o acto, o rapaz contorceu-se e prostou-se, afligido por uma lancinante dor. O fígado dele havia sido trespassado. O pai, impávido, olhou-o com manifesto desprezo, como sempre. És um insuflado na cabeça, não na barriga, seu estúpido, disse-lhe. Depois afastou-se e foi ver televisão. Agora, chiu!, quero ver o noticiário descansado, ordenou e explicou o pai. O Marquês.

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Umas vigas, de avantajado porte, caíram sobre o asfalto da Áum, ao quilómetro setenta e cinco, no sentido sul-norte. Em consequência, o trânsito estancou. Por mais de três horas, desde antes das catorze até pouco depois das dezassete. E ninguém se demitiu. Caso para dizer, taquepariu os indecorosos. O Marquês.

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2003-09-18


A ingratidão devia ter limites discerníveis. Então não é que o senhor eng.º de sistemas, que há pouco havia iniciado a sua campanha de ilustração da plebe, se meteu em retirada, mudou o nome para teste e informa, em bruto e a seco, que o seu blog foi cancelado?, que é o que costuma acontecer ao dinheiro cartonado. Eram treze horas e quarenta e sete minutos - ou qualquer outro horário - desta data que corre quando, por derradeiro toque numa tecla, tudo aconteceu. É provável que exista por aí quem se sinta órfão. Nesta circunstância, se chorar não faz mal, rir faz muito melhor. Por isso, ó senhor eng.º de sistemas!, so long. E volte sempre. Pois neste tugúrio nutrimos um particular afecto por insuflados, assim como por soufflé. Designadamente de maçã. Lembra-nos o pecado. O Marquês e Segismundo.

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Em que dialecto ou com que sotaque é que se expressa o senhor eng.º de sistemas?, fulano a quem intrépidas chamas, a que ele se declara alheio, consumiram o certificado da sua sapiência. Na operação - e só na operação -, ele é alguma coisa ao senhor dr. deputado Lacão?, reconhecida personagem do sistema. Ai senhores!.., que era como exasperava a personagem de uma telenovela. O Marquês e Segismundo.

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Gosto de te ver aí, na panela, a cozer, musaranho de um raio!, exclamou a Joaninha, com as suas antenazinhas muito arrebitadas. E ao musaranho chamavam-lhe João. O Marquês.

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O senhor dr. deputado Lacão? Segismundo.

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O senhor dr. deputado Lacão é um herói? É. Hosana! e glória a ele, nas alturas, pois. Segismundo.

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O senhor dr. deputado Lacão é uma sereia?, ou não sabe nadar? Segismundo.

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As sereias são criaturas ovíparas ou mamíferas? Segismundo.

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O senhor dr. deputado Lacão é um zero?, zero à esquerda. Segismundo.

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O zero é um dígito? Segismundo.

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2003-09-17


A ética, segundo o senhor dr. deputado Lacão, é ética? ou é engodo?, tipo minhoca. Segismundo.

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No que à ética concerne, o senhor dr. deputado Lacão é tão solidário com o que diz quanto o foi com Constâncio quando preferiu Sampaio ou com Sampaio quando preferiu Guterres? Segismundo.

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Em termos de ética, o senhor dr. deputado Jorge Lacão – poucos se recordarão que a criatura alguma vez tenha sido coisa diferente – não tem a virtude de supreender, sabido que é que, nessa matéria, o seu nível de raciocínio não é elevado a mais de uma polegada do chão. Por isso, sabendo-se onde fica o chão, perto se descobrirão os roteiros éticos do dito senhor dr. deputado. Neste sentido, não espanta, pois, vê-lo a pugnar em promoção da delicada tese de que alguém, apesar do evidente atropelo ao tempo que lhe permitiria solicitar o retorno à condição de deputado, mantém legitimamente o seu mandato parlamentar. Esta era manobra expectável, talvez até certa, do já redito senhor dr. deputado. Claro está que, com frondosa ingenuidade, poderia rogar-se-lhe vergonha, mas isso seria provavelmente excessivo. Não se deve rogar a um fulano o que ele não tem. É feio. É incómodo. E é embaraçoso. Para além disso, ser o guardador da ética parlamentar abriga-o do opróbrio. Nem que seja por ilusão, como a ética dele. Nicky Florentino e Segismundo.

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Que pátria, lusa, é esta?, onde várias centenas de criaturas se despem e figurizam para a lente fotográfica de Tunick e apenas três fulanos participam na primeira flash mob convocada para chãos nossos. Que nome dar a este desassossego? Segismundo.

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Ia ele pela Áum abaixo, rumo a Lisboa, lustroso destino da pátria, e crescia-lhe um incomensurável desejo de dor, de dor nos outros, de dor obrigada aos outros, na carne. Por isso, esta noite alguém irá sofrer na capital. É da praxe. Desejo tamanho não se consome sem se consumar o que o sacia. O Marquês.

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O senhor dr. presidente da Assembleia Regional da Madeira entende que a insular proposta de resolução sobre a revisão constitucional apresentada, ontem, à Assembleia da República tem por fito proporcionar a "purificação daquilo que no texto da Constituição é sombrio". Ora, aí está mais um equívoco que vem do arquipélago. O que é sombrio, se se o pretende corrigir, não se purifica, ilumina-se. Seja na colónia, seja na metrópole. Nicky Florentino.

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2003-09-16


Na derradeira carta pastoral, a Conferência Episcopal Portuguesa enunciou os pecados sociais, em número igual aos dias da semana e aos pecados mortais, sete. Atente-se, porém, no último dos sete pecados sociais vincado na epístola, que é "a exclusão social, gerada pela pobreza, pelo desemprego, pela falta de habitação, pela desigualdade no acesso à saúde e à educação, pelas doenças crónicas, e que atinge particularmente as famílias mais carenciadas, as crianças e as pessoas idosas, e determinados grupos sociais". Ora, por este enunciado, quem é que tem de ir ao confessionário e rogar perdão pelo pecado da exclusão social? Os seus pacientes e sujeitos, ou seja, os pobres, os desempregados, os sem casa, os que têm dificuldade em ir ao hospital e à escola, os doentes crónicos. Na prática, por certo, todos aqueles que padecem da mortalmente pecaminosa preguiça. Pois... e eu é que sou o sádico, o mau. O Marquês.

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Apontar os imigrantes como quem aponta o diabo é infeliz acto, particularmente quando o indicador se dirige suportado na autoridade de uma aritmética lapuz, que conta como equivalente o que é diferente. O José, clarividente, apostou-o. Mas a propósito disto, o senhor dr. António Pires de Lima, porta-voz do CDS/PP, provavelmente de dedo em riste, apontou, em prosa, “o dr. Pacheco Pereira deve sofrer de algum complexo em relação ao líder do CDS/PP, pois tem uma obsessão em atacar o dr. Paulo Portas”. Fraca suposição, a do senhor dr. porta-voz do CDS/PP, por embrulhar complexos e obsessões. De qualquer modo, diga-se, se for verdade a dita suposição, é galharda, valente e terapêutica a obsessão do José. Se for mentira, não se nota, mas revela-se o ressabiado do senhor dr. porta-voz do CDS/PP. Seja como for, o José é bom companheiro, não tem a mania que é timoneiro e sabe onde é fica a Marmeleira. Infinitas vantagens sobre as vozes e os porta-vozes cujos directos ou ecos não chegam ao céu. Aliás, nunca chegarão. O que não é um questão de neurónios, mas de ruminação. Segismundo.

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O senhor dr. Presidente da República, em pessoa ou por interposta criatura, anda a ler Ulrich Beck e a repeti-lo. Não se sabe se é bom ou mau. Mas se os turcos gostaram... talvez não seja um augúrio muito cristão, palpito eu. Pelo que a União Europeia ainda há-de ser coisa do diabo ou o raio que o parta. Gregório R.

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2003-09-15


Qualquer luminária mínima sabe que a revisão constitucional implica um consenso alargado em sede parlamentar. Nos tempos que correm, para que tal revisão vingue, é necessário o acordo entre o PS e o PSD. Ora se, como o senhor dr. presidente do CDS/PP pretende, o caminho é expurgar a Constituição de todas as máculas socialistas, a revisão torna-se muito improvável, uma vez que os socialistas, se o forem de facto, não estarão disponíveis para o permitir. Pelo que ou é equívoco meu ou o senhor dr. presidente do CDS/PP forneceu, sem ter noção, um argumento para não haver revisão constitucional, justamente o que ele tanto proclamou necessário e urgente. Um urso, sôfrego, à procura de mel não faria diferente. Embora, claro está, um urso seja um urso. Nicky Florentino.

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Pretender que uma Constituição seja neutra é o mesmo que desejar que uma besta seja mansa. Não pode ser. Pois se o for deixa de o ser. O senhor dr. presidente do CDS/PP devia saber isso. E sabe, sabe bem. Mas finge que os outros, os gentios, não sabem. Como quem joga ao pau com os ursos. Acontece, porém, que os gentios são gentios, não são ursos. É essa a diferença e diferença bem de ver. Segismundo.

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Ela não era de amores genuínos por ele. Achava-o engraçado, um rapaz jeitoso, mas não a afligiam fulgores ou necessidades de forte aplacagem. Conseguia controlar-se bem. Divertia-se com ele e algumas coisas mais, mas nada de arrebatador. Incomodava-a, porém, e não pouco, uma propriedade dele, o ressono. Era como uma moto-serra em funda aceleração. Daí que um dia, depois da consumação das vergonhosas manobras, como pretensa terapia - disse ela, depois -, lhe tenha cravado nas costas, enquanto o desgraçado dormia, mais de duas dúzias de alfinetes e agulhas. Ele, quando mudou de posição, afundou os espetos na carne e sentiu a óbvia dor. Praguejou, praguejou imenso. E foi capaz de julgar e clamar, em voz projectada, que ela não o amava e que era uma doida. Ela, com um ar atónito, sentia dentro de si uma satisfação que não conhecia. Não era amor o que sentia, mas era como se fosse. Talvez até fosse mais. Perceber-lhe a dor, ser a razão, pelo acto cumprido, da dor que ele sentia fulgurizava-a. Calado ele, ela disse apenas, não há amor como o primeiro; todos os outros lhe sucedem. Era a defesa que ela tinha à acusação que, naquele instante, ele lhe lançara, tu ainda sonhas com o Benjamin e, por isso, quiseste matar-me, sua insana. Não era verdade. Ela era rapariga de afinado e justo trambelho. O Marquês.

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2003-09-14


Ribeiro Cristóvão era o senhor que se seguia à senhora dr.ª Maria Elisa nas listas de candidatos à Assembleia da Républica do PSD pelo círculo eleitoral de Castelo Branco. Uma vez que a dita senhora dr.ª suspendeu o seu mandato por cinquenta dias exactos, o também dito senhor, supreso, porque apenas havia emprestado o nome e o que ele conotasse para uma candidatura que lhe passava completamente ao lado, acabou por arribar a senhor deputado da nação. É confragedor. É pungente. Com o mérito, porém, de ser às claras. Senão, atente-se. Disse o senhor Ribeiro Cristóvão ao propósito da infiltração de comissários dos partidos políticos e de trupes de acólitos nos quadros da RTP, "não tenho dúvidas nenhumas. Eu lembro-me. Eu entrei para a RTP em oitenta e dois. Nesse tempo, se o Governo era do PS entravam todos os socialistas; se era da AD, todos os socialistas e todos os sociais-democratas; se era do CDS, entravam todos os cdss; antes tinham entrado as pessoas conotadas com a esquerda quando a esquerda dominava o país. Nesse aspecto têm todos muitas culpas, ninguém pode dizer «lavo daí as minhas mãos»". Palavras para quê... A competência política da criatura é tão avassaladora que exige que nos curvemos perante ela, a criatura, em genuflexão. Nicky Florentino.

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Disse ainda o senhor dr. António Bagão Félix, ontem, em Aveiro, na rentrée do CDS/PP, "o aborto não se resolve com mais aborto". Que assim é, é evidente. Mas, que conste, a interrupção da gravidez, para quem recorre a ela, é uma resolução, um resultado, não uma equação ou o enunciado de um problema que se soluciona com a soma de novas parcelas. Aliás, nem o menino Jesus alguma vez se lembrou de tão desmanchada aritmética. Mas lembrou-se o senhor dr. António Bagão Félix. Talvez exista perdão para esse pecado. Ou isso ou o reino dos céus. Nicky Florentino.

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Disse o senhor dr. António Bagão Félix, ontem, em Aveiro, na rentrée do CDS/PP, "a governação humanista não defende o Estado mínimo, mas o Estado suplente". Também Marx defendia isso. Ou isso ou coisa parecida. Nicky Florentino.

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Alguém, em jeito gabiru, a armar ao pingarelho, informou-me que o Carlos havia estampado no Outro, eu duas polaroids de Lisboa a arder. Mas é mentira. Lisboa não ardeu. Lisboa não arde. Apenas os arredores, apenas a paisagem. O Marquês.

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Ela, olha!, a lua!, está tão bonita, disse, apontando o satélite. Ele, não é a lua, é um candelabro de luz fosca, confrontou-a. Estás a brincar, não estás?, perguntou, intrigada, ela. Não e vou magoar-te, respondeu ele. E assim foi. Com o consentimento testemunhal da noite, amputou-lhe, cerce, o indicador com que ela apontara a lua. E ela, dorida, chorou, enquanto ele, concentrado, olhava a lua, a lua plena, como nunca a tinha visto, nova. O Marquês.

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2003-09-13


Em carta aberta simultaneamente dirigida a sucelência o primeiro-ministro e ao seu caro dr. José Manuel Durão Barroso, hoje estampada no espesso Expresso, o senhor dr. Manuel Monteiro vitupera o PS e a sua governação. Escreveu ele que, pela primavera do pretérito ano, o PS "não só deixava o país de rastos, como obrigava ainda o líder do PSD a dar a mão a quem tinha jurado não dar sequer o braço". Por isso, sobretudo por isso, vieram pragas e males de infinita proporção, de tal modo que, assevera o senhor dr. Manuel Monteiro, "nunca como agora os perigos de secessão foram tão evidentes. Secessão da nação face ao Estado, pela simples razão que aquela percebeu que este Estado a representa cada vez menos e dela se afasta cada vez mais". Asneira grossa. Primeiro, o que o senhor dr. José Manuel Durão Barroso berrou uma vez em pleno congresso da trupe social-democrata foi que, com ele, jamais o senhor dr. Paulo Portas seria levado às cavalitas. Portanto, o problema, nada tem a ver com mãos ou com braços, mas com o facto de alguém ter saltado para as costas de outro alguém e esse outro alguém, como uma besta, carregar voluntariamente a carga. Segundo, não é provável, que se vislumbre, qualquer secessão entre nação e Estado. O problema é justamente o oposto, excesso de penetração da nação no Estado. O particularismo entrou no círculo da suposta sine ira et studio e, justamente por isso, no interior do Estado grassam expedientes de oportunidade e conveniência que todos aproveitam, embora uns com maior proveito do que outros. Esse é que é o problema. Pelo que a necessidade é justamente devolver diferenciação à nação e ao Estado, porquanto quase que se plasmaram. Enfim, como está bem de ver, a carta aberta do senhor dr. Manuel Monteiro pode ter sido poupada nas despesas de envio, pois poupou o custo do selo de correio, mas não o foi no disparate. Neste pormenor, foi, aliás, frugal. Nicky Florentino.

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A pátria, embora não apenas a nossa, vive num crescente aperto, num cerco cada vez mais restrito de opções políticas. A vertigem do centro, da harmonia (representada), é tão intensa que ser à direita parece ser à extrema direita, assim como ser à esquerda parece ser radical. Ora, a redução do espectro político de oscilação lateral é uma ameaça por duas razões maiores. Por um lado, aumenta a sensação de que o menor desvio, para qualquer um dos lados, é roçar o extremo - se aparenta à direita, é reaccionário, fascista, ultramontano, girondino; se aparenta à esquerda, é revolucionário, comunista, anarca, jacobino. Por outro lado, reduz perigosamente a amplitude do possível, fechando o horizonte, confinando as alternativas. Na prática, o que actualmente se verifica é o plural a diluir-se e a tornar-se simplesmente múltiplo. O mesmo, sempre o mesmo, vezes várias, repetidas, a fingir a diferença que não é. Um totalitarismo em promessa. Único. Sem danados. É mau justamente por isso, ainda que esta não seja a razão exclusiva de tal mal. Nicky Florentino e Segismundo.

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Os pulhas voltaram ao quarto. E, ao contrário de Cristo, tornaram três dias antes da anunciada e prometida data de regresso. Insofismável prova de que os pulhas, pim!, pam!, pum!, continuam como deve ser, maus e sem aviso prévio. Evoé!, danados camaradas, sejais vós quem sejais. Nicky Florentino e O Marquês.

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2003-09-12


Escreveu ontem o Público, na página vinte e dois, sobre o ataque à senhora ministra dos Negócios Estrangeiros da Suécia, “Lindh ficou gravemente ferida, embora não corra perigo de vida”. Estampa hoje o mesmo diário, na fronha, sobre o canto baixo-esquerdo, “a ministra foi esfaqueada na quarta-feira e ontem não sobreviveu aos ferimentos no estômago e no fígado”. Que resquiescat in pace, o noticiador. O Marquês.

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Malvadez, maldade de doer, maldade soez, de danado, é persuadir o senhor Prof. Doutor João Carlos Espada a ir ver o Ken Park, o último celulóide de Larry Clark, com o argumento de que é uma película própria para gentlemen. E ele, pio, tanso, acreditar. E ir. E voltar. Para contar como foi. O Marquês.

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Ela é gorda, inclinada para o feio, com uma saia desjustada ao tempo e às tendências. Bamboleia-se no átrio enquanto espera o começo do filme. O namorado, o amante, o raio que o parta, embevecido, segue-a, pendular, para aqui, para acolá. Mas pelo menos ele devia ter vergonha, embaraço, e retirar-se, afastar-se dela quando em público. Porém, o amor amarra-o à ingnominosa figura. E como isso vinga-se, vinca-se nele a sua própria pequenez. Pois ter vergonha é um predicado necessário aos pequenos para, senão serem superiores, fingirem-se plausivelmente maiores, gente que se veja. Gente, enfim. Ela não o é. Ele não o consegue ser. É o amor. O Marquês.

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Olho a criatura na televisão, em acto concreto, e parece-me uma égua. Não uma égua das autênticas, mas daquelas que, como o mr. Ed, falam. Guilhermina ou parecido é o nome que tem a besta, bípede, de espaldar recto, com polegar oponível, fêmea. Um mistério apenas, não é sabido se relincha, a cavalgadura. Talvez sim, talvez não. O Marquês.

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ANEL é a sigla do associativismo abutre. Por extenso, a coisa revela-se, Associação Nacional de Empresas Lutuosas. Associação de empresas lutuosas... como se fosse uma espécie de federação de operadores turísticos. Provável lema: «a sua derradeira viagem é connosco». Chiça, taqueapariu... O Marquês.

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Muitos pululam de contentinhos por, conforme notícias de antes, se confirmar agora a expectativa da reunião dos senhores Black Francis, Joey Santiago e David Lovering com a senhora Kim Deal – Pixies!, é o que é -, lá para a próxima primavera, em Abril. Vamos. Tem este contentamento um senão. Há nostalgias danadas que não devem deixar de o ser para tornarem a ser realidade. Pois, como Marx sugeriu, a tragédia autêntica acontece primeiro e uma única vez; o que se segue, como repetição, é farsa. Oxalá não seja esse o caso, o caso de quatro danados cairem em graça. Não teria graça. Qualquer. Ou outra. Segismundo.

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O João, outrora Vincent, autorizou a mais exacta tirada de quantas se pronunciaram e que eu li na lusa blogolândia sobre o nine.eleven norte-americano. Escreveu ele, “o onze de Setembro é uma espécie de Natal ao contrário”. Subscrevo, também. A única propriedade de Natal que lhe reconheço decorre da circunstância de, por ele, aos iraquianos e aos outros que somos, como presente no sapatinho, nos terem livrado do facínora do Saddam Hussein, transformando-o em espectro ausente que ainda paira, embora pouco. Segismundo.

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Imagine-se uma pátria imaginária, onde, bumba!, colapsam pontes pelos motivos mais prosaicos e imponderáveis, como, por exemplo, o facto de essas pontes existirem. Imagine-se ainda que alguém, metido a responsabilidades na matéria, diz que tais pontes são um verdadeiro lego, mas que não são aconselháveis nem para levar para casa. Imagine-se que essa pátria, lá longe, na imaginação, se chama Fallen Bridges. E imagine-se, para arrumar a ficção, que o director de uma entidade identificada pelas iniciais I, E e P pede a demissão, em assunção de responsabilidade pelo acaso ocorrido. É um final feliz, man down, bridge up. Pois pontes caídas, como outras coisas assim, se verdadeiramente necessário, tornam a levantar-se. Há, seguro, engenheiros com engenho para esse ofício. Nicky Florentino.

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Tom Wislack, governador do Iowa, disse, taxativo, “não acredito que os subsídios à agricultura vão acabar, não pode ser”. Os camponeses, na tardo-modernidade, são todos iguais, difíceis de domesticar na liberalidade. Veja-se lá que até no Midwest, seio do império liberasta, se confundem os apoios públicos, dessa besta incensada que é o Estado, com o sol que faz amadurecer as culturas. O mundo é um lugar de tamanhas estranhezas, enfim. Nicky Florentino.

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Por vezes, acontece, alguém, quando julga que assobia, cospe. Por vezes, como acontece, cospe sobre si mesmo. Uns dirão que são contingências da vida, outros dirão que é do ser ser o que é. Acontece, aconteceu. O que não quer dizer que esse alguém se tenha enganado. Tão só que cuspiu. Pois engano é outra coisa. Sem saliva, claro está. Gregório R. , Nicky Florentino, O Marquês e Segismundo.

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2003-09-11


Hoje, neste tugúrio, não assobiámos, fosse para o ar, fosse para o chão. Gregório R., Nicky Florentino, O Marquês e Segismundo.

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Hoje, neste tugúrio, não assobiamos, seja para o ar, seja para o chão. Gregório R., Nicky Florentino, O Marquês e Segismundo.

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2003-09-10


A atenção a cadáveres deve ser reservada a cadáveres autênticos, como Karl Marx ou Georg Simmel, não Anthony Giddens, uma espécie de zombie sorumbático. Quanto ao facto de Giddens existir como lego, é apenas motivo para compaixão. De preferência light, taciturna. Pois é o que, pela sua leve leveza, a criatura merece. Segismundo.

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N'A Praia, como n'O País Relativo, é Marx para ali e para acolá, nem light, nem hard, num número mágico, o onze, como no futebol. Melhor seria se fosse Simmel. Pois é tão marxiano quanto Marx no que é crítico e é ainda mais do que ele no que é lúcido. Segismundo.

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Olho a representação. Vejo o filho, por criação, de um carpiteiro galileu, concebido sem sémen, ungido para, em carne, ele ser aquele que é, crucificado na cruz. Não o acredito. Tão pouco, porém, o esqueço ou desprezo. Enquanto personagem é provavelmente o super-herói com a humanização mais plausível e reconhecida. Não há, pois, como não considerar algumas das suas propagandeadas virtudes. Nem que seja como limite: tende-se a elas, contudo jamais se tangem ou alcançam. Por isso, o pecado é simultâneo da condição humana. Embora exista sempre a hipótese da redenção. No que não é diferente do poker. Apenas o croupier é outro e sem paramentos. Segismundo.

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2003-09-09


Atrevimento é o senhor dr. Luís Delgado dizer “ora, retoma lá!” e a economia da pátria demorar a corresponder. Ou isso, atrevimento, ou dissonância cognitiva. Segismundo.

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Para “prestar contas sobre o que vai fazer” é, segundo o senhor dr. Luís Delgado, um dos motivos pelos quais o insigne George Walker Bush discursou aos seus concidadãos na noite do pretérito domingo. Repito, “para prestar contas sobre o que vai fazer”. Ora, esta justificação é um autêntico disparate. Pois, como bem explicou o senhor dr. ministro da Administração Interna – que não percebe puto de economia ou de finanças –, a propósito do dispêndio implicado com a remessa de um contingente de gêéneérres para o Iraque, “seria descabido fazer contas quando estamos em processo de execução de despesa”. Como está bem de ver, súmula, as contas fazem-se e prestam-se é no fim. Nunca antes. Pois antecipar na aritmética é apenas dar para o disparate. Mais ainda quando se está a falar da aritmética de alguém que trocou a verdade exacta de uma garrafa de Jack D. pela verdade vaga anunciada na Bíblia. Nicky Florentino.

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Disse o senhor embaixador norte-coreano domiciliado em Moscovo, “uma vez que os EUA não desejam coexistir connosco e desistir de desarmar a Coreia do Norte, não vemos necessidade de continuar as conversas multilaterais e não temos outra hipótese senão manter e reforçar as nossas forças de dissusão nuclear”. Pyongyang amuou. Agora, pum!, só à bomba. Taepodongum ou Taepodongdois, bombas brutas. Consta que não há por lá Charlottes. Nicky Florentino.

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Carpe o Nareg, um moçoiolo iraquiano de vinte aniversários, aluno universitário, “queríamos a liberdade e isto é o que nos deram. As raparigas não podem sair à rua, não podemos jantar com os amigos, não podemos chegar a casa um minuto depois das sete senão a nossa mãe tem uma apoplexia. Ninguém pode fazer nada por isto. Eu não acredito em deus, mas só um deus nos pode salvar”. Como parece que não há um por aí disponível, resta aguentar e esperar por melhores manhãs. Ou isso ou reforçar a resistência cardíaca da mãe do Nareg. Pois é suposto que um atraso não seja coisa que, tunga!, fulmine. Nicky Florentino.

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Amir Tayef’Toma, iraquiano, maduro, ensaísta e tradutor, almejou por todos os poros por onde transpira a libertação do Iraque pelas forças da coligação anglo-americana. Hoje, porém, é um fulano desiludido. Diz ele, “há uma grande diferença entre o que conhecemos dos filmes e dos romances e a realidade. Os americanos que vemos aqui são muito teimosos, muito brutos. E não aceitam conselhos”. Quem diria... Nicky Florentino.

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Há a ilusão, involuntária ou instruída, de que a liberdade é coisa que se dá. Os discursos com esse sentido abundam, não apenas a propósito da actual situação iraquiana. Porém, a liberdade nem é coisa nem é oferenda. É, sim, uma faculdade que se conquista e deseja – não necessariamente por esta ordem - e cujos custos, momentos há, a fazem parecer uma obrigação. O que é outra ilusão. Nicky Florentino.

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Ela chama-se Mariana. Mas eles chamam-lhe Maria. E, curioso, um deles chama-se Luís, embora não Delgado. Os putos são assim, inocentes. O Marquês.

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Olho, sem confronto, a criatura que me acusa do outro lado do guichet. Ela fala alto, faz-se ouvir em todo o serviço. O libelo é público, portanto. As pessoas, utentes, dispersas pelo balcão ou ordenadas nas filas de espera olham-me, acusam-me também ou, então, desprezam-me por voluntariamente admitir estar a ser supliciado ali, perante todos. Devia ter vergonha, sentir-me conpungido. Contrariamente ao esperado, a fleuma cresce-me, preenchendo-me de uma estranha tranquilidade. A criatura continua a sua diatribe, eu sou o escopo. Continua a falar num tom de repreensão. Acusa-me e, sem demora, julga-me. Pareço estupidamente impávido. Os outros começam a sentir-se também eles incomodados. A cena é violenta. Não há palavra, qualquer delas dura, que não assente sobre mim e os outros são espectadores da minha entrega, sem esboço de defesa. Até que a dita criatura exclama você devia ter vergonha! Interrompo-lhe, então, o solilóquio de indicador em riste e demando, excessivamente calmo, o livro amarelo, se faz favor. A criatura empalidece de súbito e pouco mais reage do que balbuciar o quê? O livro amarelo, se faz favor, insisto. Faz-se um silêncio estranho na repartição. A criatura, ungida pela condição de representante funcional do Estado, protegida pelo balcão, acorre a uma outra criatura, presumo seu superior hierárquico, e diz-lhe algo. Esta outra criatura, composta, chega perto de mim e educadamente pergunta o senhor importa-se de chegar ali?, ao meu gabinete, endoçando o pedido com um gesto de mão. Respondo que importo, invoco como motivo desse importar a minha prolongada demora ali. É para tratar de forma civilizada o seu assunto, explica, em tom pedagógico, a tal outra criatura, de pose mais poderosa. Desculpe, mas, neste momento, eu desejo apenas o livro amarelo, se faz favor. Era o meu castigo. E dele não abdiquei. Nem vacilei quando a criatura que, sem piedade, me havia linchado defronte de todos aqueles anónimos para mim rogava, já lacrimosa, desculpa e, por amor a deus, consequente perdão. Acontece que não sou temente. E gozo o efeito do meu mau feitio sobre os outros. Burocratas ou não. O Marquês.

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2003-09-08


Ontem, numa festa-comício em Santo Tirso, disse o senhor dr. Alberto Martins, consabido senhor deputado à Assembleia da República pelo PS, "há cento e vinte homens da GNR que este Governo quer fazer avançar para o Iraque e que, manifestamente, não estão em condições de garantir a sua vida e a dignidade, já que é uma acção que não está a ser decidida sob a égide das Nações Unidas". Ó, ó, ó, mas em que é que a vida e a dignidade dos senhores da GNR, no Iraque ou em qualquer outra latitude ou longitude, depende da égide da OrganizaçãodasNaçõesUnidas, ó senhor dr.? Pois... Olhe que não, senhor dr., olhe que não. Nicky Florentino.

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A mesa nacional dessa falange fandanga chamada Bloco de Esquerda reuniu-se no passado fim-de-semana. Após intenso debate, surpresa!, surpresa!, a dita mesa deu voto de concordância a um documento que prosa abundantemente contra a hidra ultramontana que acompanha a globalização pancapitalista. Daí que, às tantas, nesse documento se afirme que "a criação de novos territórios da política, a partilha de debates programáticos e os efeitos de contaminação e fertilização entre movimentos sociais nos debates e na criação de agendas de acção são os traços característicos do processo de globalização alternativa". Na prática, «um outro mundo é possível», é o lema da rapaziada. Tudo isto, claro está, em nome de uma democracia mais democrática, funda e do tamanho do mundo, estrelar. Há, porém, um senão. A democracia faz-se com povo, não com flash mobs ou turbas folclóricas, por mais revezadas e impressionantes que sejam. Nicky Florentino.

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O senhor dr. secretário-geral do PCP, ontem, na intervenção de encerramento da Festa do Avante!, disse "pela nossa parte, queremos deixar aqui bem claro que trabalhamos e lutamos convicta e assumidamente para que, pela ampliação do descontentamento da luta popular e no quadro normal funcionamento do regime democrático e das suas intituições, este Governo seja derrotado e substituído o mais depressa possível e tão cedo quanto possível". Para além de esta tirada pouco empolgar a grei ou os gentios, há formas mais óbvias de informar que lá para Março de dois mil e seis haverá eleições legislativas. É do calendário das coisas, faça chuva ou faça sol. Nicky Florentino.

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O senhor dr. Luís Delgado, plumitivo no vetusto Diário de Notícias e no hi-tech Diário Digital, grafa repetidamente, na crónica que subscreveu ontem neste último título - "Menos de um mês" -, o nome de Schwarzenegger assim: Schevarzzenagger. No mínimo é uma falta de respeito. Por certo que o referido cronista arengaria desalmadamente se alguém lhe chamasse Luís Intestino. Embora este nome até tenha o seu quê de aproximado ao verdadeiro nome do fulano. O Marquês.

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Se alguém disser a outro alguém, em imperativo, vai-te com as cabras!, isso não é uma ordem para acomodação ao rebanho. Pois é raro, em tais circunstâncias, as cabras merecerem tão incómoda companhia. O Marquês.

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2003-09-07


Consta que, hoje, sete de Setembro de dois mil e três, um conjunto de periódicos norte-americanos, mais púdicos, se recusou a publicar o cartoon de domingo do Doonesbury. Motivo, a peça versa sobre masturbação. Parece bem decidido, por ser tópico sobejamente perturbante. Afinal, quase ninguém sabe em que consiste a manobra da masturbação. Pois acontece que é tão misteriosa quanto o orgasmo vertical. Segismundo.

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A informação é impressionante. Segundo o senhor director do Parque Biológico de Gaia, há simpáticos pirilampos um pouco por toda a lusa pátria nossa. Disse ele, "ficámos bastante contentes com estes dados, que vieram mostrar que há uma presença generalizada de pirilampos no território nacional: no Norte, no Sul, no litoral e no interior". É a isto que se chama uma revelação luminosa, concerteza. Segismundo.

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Ela, exaltada, insistiu, a minha saia é fúcsia, não cor de rosa!; és daltónico ou quê? Ele, surpreso, fixou-a, olhos arregalados. Levantou-se da cadeira, dirigiu-se a ela, contornou a mesa, colocou-se à frente do seu espaldar. Desculpa, querida, disse. E perguntou-lhe, enquanto lhe acariciava o pescoço com as mãos, mas tua blusa é encarnada, não é? Ela reagiu, estás parvo?, o meu camiseiro é imaculado, branco, não vês? Colocada esta interrogação, súbito, ele pegou na faca de trinchar o pernil de porco que ceavam e rasgou-lhe duas das jugulares, precipitando um jorro de seiva sanguínea, glóbulos e plaquetas, que se derramou sobre o colarinho, o peitilho e uma manga, tingindo de rubro o tecido. Parece que estavas enganada, querida, sentenciou ele. Ela, braços vencidos, queixo caído sobre o peito, não retorquiu. O Marquês.

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2003-09-06


É sentença, datada, do senhor dr. presidente da Euronext Lisbon que "quem não se porta bem no mercado deve ser expulso". Daí que, em conformidade, está bem de ver, ele acredite "mais na formulação de princípios do que num mundo cheio de regras". É que, por regra, a violação das regras implica sanções. Como a expulsão, por exemplo. Enquanto que a violação de princípios... é apenas um começo. Bom ou mau, sabe-se lá. It's just business, as usual. O Marquês.

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Por mando do senhor dr. Emídio Rangel, a TelefoniaSemFios sepultou o programa Grande Júri, aquele em que, ao sábado, os senhores drs. Carlos Andrade e Magno faziam perguntas a um convidado. Para o substituir consta que contrataram a senhora dr.ª Margarida Marante, que, na nova grelha de programação, conduzirá uma grande entrevista, também ao sábado. Um…, cheira a nepotismo ou é uma cínica impressão minha? Nicky Florentino.

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Robert Mundell, economista canadiano nobelizado no ido mil novecentos e noventa e nove, propôs a criação de uma moeda única para o mundo, inteiro, tipo “cocktail entre o dólar, o euro e o iene”. Certamente, shacked, not stirred. Nicky Florentino.

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Nisto de disputas entre edis nunca se sabe bem como é que as coisas verdadeiramente são Todos sabem, mas nunca as coisas são evidentes. Então, em Sátão, parece que foi assim... Nas vésperas das eleições autárquicas de Dezembro de dois mil e um, as últimas, o senhor Acácio Pinto, o maioral dos socialistas lá da paróquia, sondou o senhor Alexandre Vaz, então vereador antes eleito pelo PSD, para ser candidato a senhor presidente da Câmara Municipal pelo PS. Acontece que o senhor Luís Manuel Cabral, o então, como agora, senhor presidente da Câmara Municipal, também eleito pelo PSD, apercebendo-se da manigância prometeu ao seu muito amigo Alexandre Vaz que, se ele não fosse por maus caminhos - candidatando-se pelo PS -, mas por boas vias - tornando a candidatar-se pelo PSD -, a meio do mandato abdicaria das edis honrarias a seu favor. Posto isto assim, o senhor Alexandre Vaz roeu a corda, deixou os socialistas pendurados e, lampeiro, tornou a ser vereador eleito em listas do PSD. Só que agora, afinal, chegado o dia, o senhor Luís Manuel Cabral não quer dispensar-se do que é. E o senhor Alexandre Vaz sente-se traído, por tardar a arribar ou a ver incerta a arribação a senhor presidente da Câmara Municipal. E tudo isto se sabe. E ninguém, por sabê-lo, se fulguriza. O que é humano. Afinal, os fulanos até são ditos amigos... Segismundo.

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Mohammed Hanbali, o maioral da ala militar da seita do Hamas em Nablus, perseguido pela rapaziada do exército israelita, camuflou-se num edifício de sete andares. Como não conseguiu pôr mão no traquina-mau do Mohammed, que disparava contra os seus perseguidores, a dita rapaziada ordenou que os habitantes do referido edifício abandonassem as suas casas e, pum!, tratou de fazer explodir o prédio, todinho. A solução foi certamente ajustada. E justa. Pois é imoral alguém, palestiniano, morar em edifícios que, por um instante que seja, são utilizados pelos terroristas como refúgio. Que não se queixem, pois, os que ficaram sem casa. É que se o fizerem tornar-se-ão suspeitos. É comer, calar e não atirar pedras. O Marquês.

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2003-09-05


Um advogado francês, o senhor dr. Olivier Debuzy, propôs à estampa no periódico Les Echos um interessante artigo de douta opinião. Numa passagem do referido artigo, explicou o dito senhor dr. as vantagens da onda de calor que assolou os chãos gauleses assim, "perante a derrapagem do défice orçamental, a vaga de calor é quase benéfica. Ela contrapõe-se aos médicos que mantêm em vida os dementes senis e os doentes em fase terminal. O aumento da taxa de mortalidade enche os cofres do Estado por intermédio dos impostos sucessórios, contribuindo assim para reduzir o défice. Depois, as vagas de habitações contribuem para a baixa de preços no mercado imobiliário". Danado, ele, o advogado, ã? Será, seguro, ordenado cavaleiro da ordem de Malthus. Ou isso ou morrerá velho e abandonado. C'est la vie. O Marquês.

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Abu Mazen, dito primeiro-ministro palestiniano, é uma criatura com o seu quê de bizarro. Consta em crónicas recentes que, perante o parlamento lá da pátria, terá rogado aos deputados respectivos que o apoiassem ou, então, o remetessem embora, para casa. Parece que essa é uma decisão que pessoalmente lhe está indisponível, pobre fruste criatura. Nicky Florentino.

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Por estes dias, na Quinta da Atalaia, por ocasião da Festa do Avante, haverá para os comensais morcela com ananás. Ora, isto não é repasto de duro, proletário temperado na forja doutrinária de Marx ou Lénine. Menos ainda é pasto de revolucionário. E como está bem de ver, estes desvios burgueses ainda hão-de custar caro a alguém. Pois nem no PartidoComunistaPortugês há almoços grátis. Nicky Florentino.

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2003-09-04


Aferido o fenómeno segundo os critérios ditados pela OrganizaçãoMundialdeSaúde, apenas quatro pessoas pereceram em razão directa ou precipitante da vaga de calor que assolou a pátria nos idos de Agosto, disse, ontem, o senhor dr. ministro da Saúde. Se é o que o rigor dita verdade, acredite-se. Mas, convenhamos, aconteceu o que se temia. Nem neste pormenor conseguimos, portugueses, estar ao nível dos sobrantes países da União Europeia, saber contar pelos dedos, um, dois, três, quatro ou mais. Nicky Florentino.

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As férias fizeram bem às maltas das centrais-sindicais cá da pátria. Tornaram revigoradas. Se a UniãoGeraldosTrabalhadores, a mais moderada, reclama um aumento de quatro vírgula cinco por cento dos salários, a ConfederaçãoGeraldosTrabalhadoresPortugueses-Inter, essa, ousada, exige um aumento de cinco por cento. Parecem-me actos de fundamento justo, embora pouco sádicos. Nestas coisas há que se mais arrojado, cravar na carne, onde dói. Ou isso ou reforma. O Marquês.

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Jim, tenros vinte e dois anos corridos sobre o corpo, nado e criado no Oklahoma, tem actualmente o paradeiro em Bagdad e afligem-no as saudades do lar e da senhora sua esposa. Aceitou de grado a missão de, pelo jeito e pela força bruta das armas, escorraçar o mau do Saddam Hussein do seu domicílio palaciano, mas está apreensivo quanto ao futuro do Iraque. “Viemos aqui dar-lhes a liberdade, é a nossa dádiva para eles. Mas pensam que a liberdade é, assim, uma coisa sem leis”. Talvez que os inféis bárbaros consigam compor-se um dia destes. Quanto à legitimidade da ofensiva que a coligação anglo-americana ensaiou lá para o Crescente Fértil, o Jim revela-se simultaneamente sereno e inquieto. “Pelas história que ouço todos os dias, não duvido que Saddam era um ditador sanguinário, e foi bom tê-lo derrubado. Quanto às razões alegadas para a guerra, é mais complicado. Gostava mesmo que descobrissem armas de destruição maciça. Melhor é não falar nisso, ainda me meto em sarilhos”. O Jim tem toda a razão. Deve ter-se recordado daquela recomendação do Wittgenstein, falar só sobre o que pode ser dito. Segismundo.

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Anunciar a homossexualidade de algum figurão político é manobra torpe. Salvo se for o próprio a fazê-lo. Pois, se esse for o caso, então a manobra é dita acto nobre e corajoso. Mesmo que aconteça sobretudo ou apenas por manha, conveniência ou oportunismo do próprio. Uma única dúvida, porém, subsiste: o que é que raio interessa, em política, que alguém seja heterossexual, homossexual, bissexual ou que nem sequer esteja para aí virado? Nicky Florentino.

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2003-09-03


O senhor dr. presidente da Assembleia da República expressou intenção de alterar o regime de consequências das faltas ao plenário, às comissões ou às votações parlamentares. Parece, todavia, que há um senão que afecta alguns partidos políticos, porquanto "os partidos políticos de menor representação parlamentar encontram dificuldades especiais na presença em todas as comissões". É o que faz ser-se pequeno, não se é suficiente para as encomendas. E quem sabe se este motivo não devia constar também entre as razões que justificam a extinção judicial dos partidos políticos no novo regime jurídico dos mesmos. É que os partidos políticos pequenos só servem para enxamear os boletins de voto de ícones e siglas pouco recomendáveis. E, quando a fortuna eleitoral lhes toca, para ser a franquia institucional para criaturas que não conseguem estar simultaneamente em mais do que uma comissão parlamentar. Não pode ser. Não é bonito. Nicky Florentino.

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Danado me penitencio. Afinal o rigor das gentes do Ministério das Finanças é ainda mais apurado do que, por grossa sugestão da imprensa autóctone, me apareceu ontem. A verdadeira estória é como se segue. A primeira estimativa referente ao défice do Orçamento do Estado para o corrente ano foi de dois vírgula quatrocentos e trinta e sete por cento, até às milésimas, como se observa, do ProdutoInternoBruto, vulgo PIB. A segunda estimativa, corrigida em alta, aquela que foi anunciada por estes agoras, é de dois vírgula novecentos e quarenta e quatro por cento do PIB. Se a coisa fosse dois vírgula novecentos e quarenta e cinco era completamente diferente. Dois vírgula novecentos e quarenta e cinco arredonda-se para dois vírgula noventa e cinco e dois vírgula noventa e cinco arrendonda-se para três. Portanto, ao contrário do que afirmei ontem, é por uma milésima - e não por uma centésima - que, em números redondos, segundo o que prospectiva a senhora dr.ª ministra de Estado e das Finanças, o défice orçamental cifrar-se-á abaixo dos três por cento. A precisão da referida estimativa é, pois, maior do que a julguei ontem. Assim como o meu desejo de ser como a senhora dr.ª ministra de Estado e das Finanças. Apenas continuo a repudiar, em igual intensidade, a matéria que lhe faz a face, o pau. É uma alergia minha. Um danado completamente diferente dos outros, Gregório R.

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É admirável a ilustração do espírito das senhoras e dos senhores que, em função legislativa, se sentam e levantam na Assembleia da República. Prova: o número três do artigo décimo primeiro da novíssima lei dos partidos políticos, a Lei Orgânica número dois barra dois mil e três, de vinte e dois de Agosto, reza assim, tal e qual, "uma coligação não constitui entidade distinta da dos partidos políticos que a integram". Ou seja? Em Português parlamentar, uma coligação não existe. Segismundo.

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Não se passa nada, não passa ninguém. Porém, alguém irá sofrer. É uma questão de tempo, de oportunidade ou, mais rigoroso, de proximidade. Quando a vítima estiver ao meu alcance, ao alcance exacto, zás!, obrigá-la-ei à dor que me satisfaz. Saciado, então, sossegarei. O Marquês.

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2003-09-02


Uma das minhas honrarias de danado, devidamente certificada, é a faculdade de vaticínio. Sinto-me pequenino, no entanto, quando constato a destreza com que a rapaziada do Ministério das Finanças corrige projecções sobre o estimado défice do Orçamento de Estado. De dois vírgula quarenta e três passou-se para dois vírgula noventa e quatro. Mais uma centésima e a coisa arrendondava, por excesso, para três, três exactos. Mas não. Diz a senhor dr.ª ministra de Estado e das Finanças que o défice orçamental cifrar-se-á, prospectiva ela, em dois vírgula noventa e quatro, ou seja, números redondos, em dois vírgula nove. É impossível não vacilar perante tão tamanho rigor. Gostava de ser como ela, a senhora dr.ª ministra, embora dispensasse o pau que lhe faz a cara. Um danado completamente diferente dos outros, Gregório R.

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A expressão «revolução tranquila» é autêntica. Usa-a o XV governo constitucional da pátria. Para reportar a sua acção política no que à descentralização administrativa concerne. Ou seja, nada que jeito, por mínimo que seja, tenha. Porque revolução que se epiteta de tranquila não é revolução, mas apenas tranquilidade, o nome elegante do marasmo. Nicky Florentino.

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A Assembleia da República emitiu aproximadamente trezentas missivas a entidades várias a rogar um parecer sobre a chamada «Constituição Europeia». Não é pouco, parece-me. Mas fica bem enquanto folclore democrático que não é. Que não é democrático, entenda-se, pois folclore é-o de sobejo. E siga a dança. Nicky Florentino.

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Constou-me que o senhor dr. primeiro-ministro desta grande paróquia lusitana anunciou em Caminha estar disposto e com vontade de estugar o seu consulado até dois mil e dez. Ficam-lhe bem, a disponibilidade e o altruísmo. Mas, já agora, se não for grande o incómodo, que lá para poucos antes de meados de dois mil e seis que se convoquem eleições legislativas. Para ver como é que param as modas. Políticas. Nicky Florentino.

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2003/2017 - danados (personagens compostas e sofridas por © Sérgio Faria).