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Albergue dos danados

Blog de maus e mal-dizer 

2007-02-28


Freud Sinatra. Perto da repartição de finanças da cidade pequena, passou uma gaja quase nua, literalmente mais nua do que quase, notoriamente chanfrada, com andar frenético, a alçar as nádegas e a assobiar uma canção ligeira d’the voice, no mesmo instante em que ele recordou que hoje, justamente hoje, por osso de ofício, verá ao longe alguém com o nome Deolinda. Segismundo.

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Slogans do campo mártires da mátria, ii. Comporta-te de modo que o teu corpo seja um stock car. Segismundo.

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Aos quatrocentosecinquenta graus Farenheit. Por instantes, antes da jornada da madrugada começar, acontece um compasso de espera, o abrigo na preguiça. Mais ou menos o mesmo recuo por que, prévio ao lançamento, passa o pára-quedista, embora, no caso, em firme, sobre o chão. Este recolhimento, porque é recolhimento, é uma espécie de tempo de compensação, para a fracção e a refracção do que está quase a terminar. E, sob o magistério lunar, são subitamente as saudades em relação a Wayne Shorter. A Рахманинов também, nomeadamente a rapsódia sobre um tema de Paganini. É a consciência de haver György Kurtág reservado sobre a cabeceira. A mesma consciência sobre as composições de Mauricio Kagel deixadas na cápsula automóvel. É a mão a lançar desperdícios de afago sobre um corpo dormente, caído e colhido próximo. É uma gata doida, como a dona, a arranhar a parede da sala. E, na teelvisão, é a Demi Moore em manobras no varão. Conjurado o programa, torna e transforma-se a realidade. Os dedos aproximam-se da máquina. HTTP Status 503 - Servlet NewFrontend is currently unavailable, sobre azul. Admite-se o acaso, insiste-se. Status report. Persiste a surrealidade. Servlet NewFrontend is currently unavailable. O quê? The requested service (Servlet NewFrontend is currently unavailable) is not currently available. Não há motivo para desespero. Apache Tomcat/4.1.24, também sobre azul. Blogger Beta é bom mas é o caralho! Segismundo.

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2007-02-27


Por cisma e quarkquakes. A (des)propósito, ele também é capaz de imaginar scripts que redundem em fitas como Cobra versus Tango ou, em registo menos ficção científica, O Duro e o Justo: Criogenia e Ressurreição de John Spartan e Joseph Dredd. Segismundo.

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Manuel de identidade, i. Para ser simpático com os outros, alguém tem que ser simpático consigo. É justamente aí, nesse princípio, que ele começa a falhar. Se. Segismundo.

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O senhor de Montmorency-Laval. Disse, não releva se é cru, conquanto o tópico seja humano, não animal somente, e o motivo seja cruel. O Marquês.

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2007-02-26


Quando o juízo não é detergente para a mácula. O senhor dr. Paulo Portas pode ser - ser de facto e não de fama apenas - a sumidade política que muitos apregoam para aí. Mas há um senão, que não é senão apenas: a tomada de posse do fulano como senhor ministro de Estado, da Defesa Nacional e Assuntos do Mar, era o senhor dr. Pedro Santana Lopes o maioral do colégio governamental. Pois, se fosse sumidade realmente, deveria ter usado um lenço ou um guardanapo na cerimónia. Para iludir melhor a face. Nicky Florentino.

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Por que é que buzina não rima com democracia? Nesta ditosa pátria, a disseminação de serviços públicos pelo território não foi tanto o resultado de um impulso de democratização do estado quanto o produto de uma pressão para a popularização desse mesmo estado. É por isso que, agora, como antes, anunciado o encerramento de alguns daqueles serviços públicos em alguns dos lugares de Portugal, foi suscitada a sanha gentia, materializada em manobras mais populares e populistas do que democráticas. Qual é a diferença? A democracia, enquanto processo, não se confunde com a turba na rua, largada em clamores ou a primir o dispositivo que acciona o claxon. Nicky Florentino.

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A missão. Às vezes um gajo arvora-se em professor. Poderia ter sido em engenheiro de som, gestor de empresas ou serralheiro mecânico, mas, por contingências da puta da vida, a inclinação e o sortilégio concedeu-o à missão docente. Não à carreira, que isso é outro arranjo e os recibos verdes não enganam. Até que chega o momento da apreciação do produto das criaturas que estiveram circunstancialmente sob o seu magistério. E o vocábulo «caralho» torna-se a única palavra do único refrão que quebra o silêncio. Segismundo.

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A constância das eras. O tempo é um absoluto, cujos limites são o «antes» e o «depois». O ritmo desse absoluto é elíptico, embora seduza a ideia da sua forma derramada, fluída. De fluxo, portanto. De algum modo, o tempo é assim, uma sucessão pautada. Atrás os trinta, adiante os quarenta. Uma espécie de impasse. De onde tende a sobrevir uma sensação grave. Que daí, de tal impasse, há duas saídas possíveis apenas, ou pela suspensão ou pela derrapagem. À suspensão chama-se morte. À derrapagem chama-se envelhecimento. Não há escolha. De um ou de outro modo, o tempo matar-nos-á. Segismundo.

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Academy awards. Ano após ano, confirma-se, a cerimónia de entrega dos Oscars é uma realização sinistra, tipo Dakar indoor. Vale sobretudo pelas paisagens andantes. Mas, depois, em parelha com Nicole Kidman, Daniel Craig assoma ao palco do Kodak Theatre e um gajo subitamente começa a imaginar quando é surgirá para tela grande a película Rocky versus Rambo, ao mesmo tempo que manifesta uma vontade íntegra, os Oscars que se fodam. Segismundo.

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2007-02-25


A pátria enquanto the twilight zone. O território é um dos elementos constitutivos do estado. Sucede, porém, que, em Portugal, o estado tende a perder o seu chão, não porque mirre o espaço em que assenta ou a sua paisagem, mas porque alastram os vazios do seu mapa. Neste sentido, o estado nacional é uma entidade cada vez menos territorial. O que faz com que, onde a máquina da pátria não alcança ou alcança em solução mais diluída, o terreno português seja sobretudo uma reserva de fantasmas. Ou, se houver vivos, de condenados. Nicky Florentino.

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A face mais como diverso do que como universo. Não necessariamente no mesmo momento ou pelos mesmos motivos, quase todos sentimos dificuldade em manter o rosto. Deveria haver um manual ou um folheto que nos informasse sobre o assunto, que, quando a lavagem não é suficiente, nos ensinasse a recuperar a face, que nos aconselhasse a recolher as mãos sobre a cara, que nos avisasse sobre o perigo constituído pelos espelhos ou pelos olhos dos outros, que nos alertasse para o risco da revisão. Porque, agora, para virar a cara já é tarde. Para fechar os olhos também. Segismundo.

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Acácia, meu amor # xxi. A estação das chuvas perturba-me, do mesmo modo que perturba o mais que é na savana. Mas perturba-me com outro método, não pelo sobressalto, mas pelo recolhimento. A chuva serena a brasa, lava-a, abafa os ruídos, inunda os chãos. O nosso lugar é o mesmo, porém transformado. É o mesmo, o continente que nos é íntimo, mas molhado. A maior diferença reside no facto de, sob tais condições meteorológicas, ninguém correr. Eu sou um exemplo dessa metamorfose. Em mim, o que é necessidade adormece. Acompanho a chuva, a sua trajectória, guardado em ti, meu amor. O mais que faço é esperar, não de esperança, simplesmente de espera, que é uma das manobras que executo melhor. Nenhuma chuva é eterna. Por isso, sei que, depois da perturbação, tornará o regime dos hábitos e das necessidades. Regressar-me-á a fome. E não demorará que eu volte às corridas. Por ora olho as gotas de água a precipitarem-se sobre a tua pele, sobre a minha pele, sobre as nossas peles, a fronteira dos nossos corpos, pela qual se prometem e encontram um ao outro, um para o outro. Eliz B.

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2007-02-24


Hipoteca, tópico revisitado. Portugal é o nome da dúvida dos portugueses. Segismundo.

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Uma perseguição inefável. Sob a ausência e o silêncio que os dias lhe trouxeram, ele não esqueceu o confronto com Das Leben der Anderen. Segismundo.

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2007-02-23


Da arte e da economia da entalação. Não é necessário um dispositivo analítico extraordinariamente sofisticado para entender o exercício político autóctone, esse mistério. Em rigor, a acção política dos gentios e dos senhores pátrios extingue-se nos actos de entalar, tentar entalar, evitar ser entalado, desentalar. Grosso modo, quem entala?, quem é entalado?, com o quê é que se entala? e com o quê é que se é entalado?, estas são as interrogações fundamentais sobre o tal mistério, sendo suficiente a resposta a tais perguntas para o deslindar. Nicky Florentino.

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Paralaxe, ii. O outro, para além de saberes que é esloveno, o que sabes mais sobre o Žižek? Ele, sei que é um gajo que está na Fnac. O outro, só isso? Ele, o mais que sei sobre ele chama-se Analia Hounie, mas o que é que isso interessa?, não é? Segismundo.

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Paralaxe, i. O outro, conheces o Žižek? Ele, não. O outro, porra!, não conheces o Slavoj Žižek? Ele, não, não conheço, mas conheço o Zlatko Zahovič, que também é esloveno. Segismundo.

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Tesoura para cortar papel. Em figura, deus é o último imperador. Vale-nos o juízo, quando há, com o qual lhe guilhotinamos os dedos insidiosos. Segismundo.

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2007-02-22


O morgadinho do Campo Grande. O coturno do senhor dr. Mário Soares é como a fama do Constantino, vem de longe. Atente-se a mais uma prova desse facto. Ontem o fulano excursionou a Coimbra e foi interpelado sobre tópicos a que, majestático, escusou qualquer referência. De qualquer modo, ao que parece sem instância, em tom de morgadinho do Campo Grande, explicou o motivo da sua escusa: “não sei se já chegou a Coimbra, mas em Lisboa já sabem: só digo aquilo que quero”. Convenhamos, sem qualquer culpa - constará isto em Lisboa? -, é justamente a isso que merecemos ser poupados. Nicky Florentino.

Referência



A separação das ordens. Embora não seja exclusivamente nacional, verifica-se a tendência a uma sobrevalorização da dimensão política da generalidade dos casos bizarros relacionados com a administração pública. Em Portugal, um dos exemplos mais flagrantes dessa paranóia está inscrito na agenda actual, a situação no órgão executivo do município de Lisboa. A ignorância sobre o que é um município atinge tais proporções que, (des)orientados por um trambelho sôfrego, são muitos os que entendem e pretendem que a eleição intercalar da Câmara Municipal de Lisboa permitiria resolver o problema. Porém subsiste um problema. Admitindo que há um problema, o problema é que o problema na Câmara Municipal de Lisboa é nada ou pouco político, mas judiciário sobretudo. Nicky Florentino.

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O avesso do avesso do regime. Provavelmente por preconceito ou sensibilidade equívoca, não poucas almas admitem e julgam a corrupção como um morbo do regime pátrio. No entanto, convém não iludir tanto a hipótese quanto a probabilidade elevada de a corrupção ter subsidiado a estabilização e a consolidação desse regime. Não apenas através do financiamento das falanges políticas da nova ordem, mas também através da conformação administrativa dos valores e da matriz de práticas e conveniências das forças animadas dessa instância nebulosa chamada sociedade civil. Na prática, foi o resultado do encontro entre um lastro cultural e um programa político emergente, um e outro populares. Que, em Portugal, são o que é a democracia possível. É por isso que, por cá, a corrupção, se for mal, é um mal genético da democracia. Pelo que, esta é a graça maior da circunstância, pretender combater a corrupção é pretender combater os fundamentos da democracia também. Nicky Florentino.

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Das exclamações do leopardo, ii. Se te apanho!, chamo-te bife em sangue. Segismundo.

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Gerúsia. Uma velhinha filhadaputa é por ser filhadaputa, não por ser velhinha. Segismundo.

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Chuvas de todo o ano. Há um problema quando se ama alguém que diz pelo sabor ou pelo perfume sou capaz de diferenciar a água da chuva das diferentes estações. Um problema que, para ele, era necessário resolver. Por isso, durante o ano seguinte, quando choveu, ele colheu a água cadente e conservou-a metodicamente em tinas esterilizadas. Para as distinguir, desenhou um símbolo em cada um dos recipientes e, em papel, que escondeu, registou o significado de cada um desses símbolos. Uma gota de água em tom azul celeste significava chuva de inverno. Uma flor desabrochada, uma túlipa - pela forma -, significava chuva primaveril. Um sol amarelo resplandecente significava chuva de verão. Uma folha de plátano, torrada pelo sol baço de Outubro e Novembro, significava chuva outonal. Porém, mantendo a suspeita que ela seria capaz de decifrar os símbolos, no dia da prova, à cautela, ele decidiu agrafar-lhe os olhos. O Marquês.

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2007-02-21


A conjura insular. Por maior que seja a indignação dos jacobinos, dos moralistas e dos híbridos, a demissão do senhor presidente do governo regional da Madeira é prova tanto do regime consolidado quanto do funcionamento regular das suas instituições. Pois o que releva do caso não é o destempero eventual do senhor dr. Alberto João Jardim, é, sim, a resistência do concerto institucional ao fulano e à respectiva trupe, aos seus actos e às consequências dos seus actos. Em termos políticos, na prática, no arquipélago da Madeira aconteceu o que podia acontecer. Facto que, em qualquer circunstância, merece louvor, não censura. Nicky Florentino.

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Slogans do campo mártires da mátria, i. Queres ser justo?, sê inconsequente!, ascende!, porque, como acaba, a justiça começa em ti. Segismundo.

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Tol. Tolerância não é indulgência. Também não é paciência. Segismundo.

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2007-02-20


Corso da miséria comum, iv. Para o carnaval pátrio ser pior do que é, apenas falta o perfume fétido da sardinha assada. Segismundo.

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Das exclamações do leopardo, i. Carne! Segismundo.

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Hipoteca. Portugal é o nome da dívida dos portugueses. Segismundo.

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2007-02-19


No pavilhão atlântico. O senhor presidente do governo regional da Madeira demitiu-se, prometendo recandidatar-se oportunamente à mesma honra. Mas, desde já, a sua maior vitória é obrigar quem tem que zelar pela integridade política e pela ordem institucional do estado, o senhor presidente da República - que, como o diabo em relação ao cepo crucífero, pretende livrar-se das intendências lodosas da respectiva missão -, a participar no bailinho insular. Vira, virou, olaré, olarilolé. Nicky Florentino.

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Vã virtude. A esperança é um derrame fideísta de expectativas. Segismundo.

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Corso da miséria comum, iii. Os gentios são medonhos. Os gentios largados na rua são ainda mais medonhos. Porque não há cortejo que iluda a miséria da sua condição. Segismundo.

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Reach out and touch faith. Perante a necessidade de alguém reencontrar-se consigo, a fronteira é o seu sentido. Porém, ao dirigir-se para o seu limite, o que alguém faz é definir e acrescentar o precipício diante de si. Segismundo.

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2007-02-18


A capital, ii. A Câmara Municipal de Lisboa é composta por dezassete elementos. O que significa que, no instante de submeter listas a sufrágio, qualquer força política que pretenda entrar no concurso de rateio de lugares no executivo municipal da capital tem que, no mínimo - sem contar com as senhoras e os senhores suplentes -, listar e elencar dezassete nomes. É este facto que permite resolver suspensões ou renúncias de mandato durante o termo de quatro anos entre eleições. Neste sentido, como surge óbvio a qualquer criatura sem o juízo sequestrado ou a sensibilidade afectada, por mais bizarra que seja a situação na Câmara Municipal de Lisboa, as regras do estado de direito devem prevalecer. Pelo que, estando estimadas eleições autárquicas para o Outono de doismilenove, enquanto o PSD tiver criaturas para preencher a sua quota de mandatos eleitos no executivo municipal - e, portanto, subsistir quorum na Câmara Municipal de Lisboa -, os lisboetas que amochem, mesmo se desgostosos, insatisfeitos ou preocupados politicamente. É que a democracia, no que é, não é um regime calibrado para criaturas frenéticas, sensíveis ou impressionáveis, concebido para a resolução de melindres políticos circunstanciais. É, sim, um regime de paciência, com prazos e termos definidos. Propriedade que é uma das garantias maiores contra os desmandos tanto dos gentios quanto dos senhores. Nicky Florentino.

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A capital, i. Sem iludir a magnitude do caso capital, convenhamos, o município de Lisboa é um município apenas. Nem mais nem menos. Nicky Florentino.

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Mistérios de república popular no rectângulo da família Cartwright. Por que é que, nesta pátria ditosa, a presunção da inocência (até prova em contrário) não é um princípio válido no domínio da política? Nicky Florentino.

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Corso da miséria comum, ii. Na pátria, o carnaval não é concupiscente. É pungente. Segismundo.

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Futurama. O futuro é um modo de atraso do corpo. Segismundo.

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Acácia, meu amor # xx. Tranquilidade... Há muito tempo que não dizia esta palavra, tranquilidade. Que significa a alma sossegada pela carne, o corpo apaziguado pela sua dieta. Sabes?, após a consumação de cada vítima acontece-me uma espécie de plenitude. Não sei explicar, mas é como se fosse a conformidade com o cerco, com o alimento, com a tua fibra, meu amor. Com tudo, como num reencontro de alguém consigo mesmo, numa exactidão impressionante, em que, excepto tu, ninguém mais é necessário. Sei que não será sempre assim. Sei que, depois, um dia virá a falência, virá um princípio novo. Virá a inquietude, pela fome ou pelo instinto. Antes, porém, reservo-me sobre ti, meu amor. Com a indolência e a tarde morna, sou contigo. Até que a noite me acorde o desejo ou a necessidade. Eliz B.

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2007-02-17


Página do livro dos googlemas. Foda-se, isto é o que se chama equívoco. Segismundo.

Referência



Corso da miséria comum, i. Enquanto interrupção pagã dos dias ordinários, houve tempo em que o carnaval tinha o seu quê de sol. Era a folia a roçar o zénite da clave, a exaltação da irresponsabilidade dos gentios sob o perdão dos dias gordos, vésperas quaresmais. Agora, enquanto imitação invernal do que é tropical, o carnaval sobretudo suscita dó, a nota mais próxima do silêncio. Segismundo.

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Anarchitektur. Porque necessita habitar, o corpo é o primeiro patamar da arquitectura. É também um dos destroços das estruturas que, antes, colapsaram. Segismundo.

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2007-02-16


A nacionalização dos casos paroquiais. Os partidos políticos não são muito diferentes de uma rede de cestos com maçãs, distribuídos pelo chão da pátria segundo a lógica de franchise. Compreende-se, pois, que, assumindo a condição de pomareiro mor da seita, o senhor presidente do PSD tenha tanto a ilusão quanto a sensação do dever de se pronunciar sobre a suspensão ou a não suspensão do mandato de um vereador da Câmara Municipal de Lisboa. As maçãs são um fruto mimoso. E, como não há órgãos locais no partido político ao mando do senhor dr. Marques Mendes, tem que ser o fulano, em senhor, a fumigar os cestos e em seu torno. É isto a política dos grandes em todo o seu esplendor, tudo no mesmo saco, como se Lisboa fosse Portugal. E é. Nicky Florentino.

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Peregrinação à montanha. Por uma questão de salubridade, antes, decidiu não ter teelvisão no quarto. Agora, confessou, está a ponderar instalar um divã - ou uma cama - na sala. Segismundo.

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Sabes?, o teu samsung de vinteenove polegadas não disfarça a tua indigência. Em muitos casos, não ter teelvisão é um modo de esquivar à miséria. Imagine-se quão pungente é o exercício de zapping entre quatro canais apenas, todos como má resolução no écran, tanta que é justo afirmar-se que um desses canais sequer conta. Segismundo.

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Sentido. O futuro pressupõe um deslize, uma aproximação. A dúvida, porém, é sobre o sentido desse deslize, dessa aproximação. Pois não se sabe qual é o factor fixo, se o corpo, se o tempo. Ou seja, não se sabe se somos nós que nos aproximamos do futuro ou se é o futuro que se aproxima de nós. Segismundo.

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2007-02-15


Campo mártires da pátria, i. O senhor Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa é, a modos que, titereiro de si mesmo. Neste sentido, o que tem de auto-animação não é o que mais abona em proveito das suas honra e glória públicas. É um facto que, por convicção ou necessidade mórbida de confirmar a náusea, muitas criaturas consomem as suas prédicas teelvisivas - algures entre a charla e a homilía -, ao domingo à noite. Que, grosso modo, enquanto entretenimento, são o equivalente nocturno da ciranda pelo centro comercial durante a matinée de sábado. Na prática, enquanto instituição e motivo de fascínio, o senhor Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa está para os maduros do mesmo modo e na mesma proporção em que o Noddy está para os catraios. Abram alas! Segismundo.

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Beast moans. Através do tempo, o juízo tende a consolidar-se contra ou sobre o corpo. A partir do momento da sua consolidação, cada criatura passa a constituir tanto a sua base quanto a sua referência. No mais, além, todas as coisas e todos os outros passam a ser em função da posição e da disposição de cada um. Na prática e pela prática, após a consolidação, após a auto-sustentação e a auto-referência, para qualquer um de nós já nada é o que é. Se for, tudo é para o que é. É isto um dos fundamentos da tragédia comum que somos. Segismundo.

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Alçada. Se o frio não inibe a exibição do umbigo delas é porque não é frio. Segismundo.

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2007-02-14


A república Silva. Uma das características insólitas do ordenamento político português é a existência de um eleitor grande, maior do que todos os outros, qualquer gentio, que é o senhor presidente da República. Ora acontece que o senhor presidente da República convocou um referendo, que teve o resultado que teve. Não se sabe se o resultado encalhou ou não no goto do senhor Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, o que se sabe é que o fulano já ditou sugestão sobre o que há-de ser legislado pela Assembleia da República, sem que alguém lhe tenha rogado parecer prévio sobre a matéria. Se o senhor presidente da República tinha conselhos ou objecções sobre o caso, deveria ter-se manifestado oportunamente, não após a gôndola referendária ter girado. É que, agora, por mais que pretenda que o seu acto constituiu um exercício de cooperação estratégica apenas, na prática o senhor Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva meteu o bedelho em seara alheia. Mas, claro, ele é o maioral. E os seus bitaites são os seus bitaites. Ainda bem. Nicky Florentino.

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Como saberá. A Sonaecom fez publicar na página quarentaetrês da edição de hoje do Público uma exortação aos accionistas anões da PT. Pelo que parece, tal extorção foi lavrada em português para pés. Segismundo.

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A oração do espectro que paira. Em texto estampado na edição de hoje do Público, um senhor director adjunto do referido título afirma que a primeira frase do Manifest der Kommunistischen Partei foi imposta à história em miloitocentosesetenteedois. Bem, encomendado no final de miloitocentosequarentaesete, tal manifesto foi publicado pela primeira vez corriam os alvores do ano seguinte, Fevereiro de miloitocentosequarentaeoito, quase um quartel antes do que pretende o senhor Nuno Pacheco. Em todo o caso, espectros são espectros, mesmo os vetustos. Sabe-se lá quando é que, a seu propósito, alguma frase se impôs à história. Segismundo.

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A casa que não é da tia Joana. Havia um número limitado de fatias de bolo, cinco exactamente, uma para cada uma das criaturas que não compareceram ao almoço de ontem. À noite, porém, já não havia resquícios da iguaria. Após averiguações, como é hábito, consta que uma das pequenas bestas devoradoras deglutiu em excesso, ofendendo com gravidade a economia familiar. Não se sabe qual das pequenas bestas devoradoras foi agente da proeza. O que se sabe é que hoje, desde cedo, lá em casa foi restaurado o regime «o tio é mau». Durante os próximos dias ainda será pior. Segismundo.

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Homo videns, ii. O outro, sou sincero, prefiro a Procter a fazer de Calleigh Duquesne, em detrimento da Helgenberger a fazer de Catherine Willows. Ele, o quê?, não percebi. O outro, a loura, pá!, antes a de Miami do que a de Las Vegas. Ele, e isso significa o quê?, antes o Jacobson Adriaanse do que o Jesualdo Ferreira? Segismundo.

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2007-02-13


O rectângulo da família Cartwright e respectivas adjacências. Em Portugal, «democracia deliberativa» e «deliberação democrática», se não são pretextos, são pronomes de algazarra. O que significa que, neste pátio político, a democracia é sinónimo de assuada, não necessariamente reserva de assoados. Nicky Florentino.

Referência



A constituição da (in)decisão. A pátria é tão pop noir, os gentios e os senhores são tão equívocos, que, mesmo após a consulta referendária de domingo último, subsiste a disputa sobre o alcance e o limite do mandato da Assembleia da República em relação à matéria referendada. O excesso de democracia dá nisto. Ninguém sabe o que o povo deseja. Porque, em rigor, consoante a inclinação da veneta e da concupiscência, mesmo quando nada querem, os gentios querem tudo. Nicky Florentino.

Referência



A persistência da demora. Nestes dias de todos os fins, a estupidez pronuncia-se-lhe nos actos com agudeza maior. Nada explica a necessidade de revisão de Faustrecht der Freiheit. Nada explica a urgência que o impele a ouvir novamente “Hospitalstische Kinder / Engel der Vernichtung”. Não tem Céline nas mãos, também não tem Kafka, não tem qualquer volume que lhe suscite um estado mais sobressaltado e assombrado do que é usual. Sente apenas o atraso, a falência a latejar nos ossos, não no juízo. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Apenas o atraso, a falência. Segismundo.

Referência



Homo videns, i. O outro, de entre os vários CSIs, qual é a loura que preferes? Ele, loura? Segismundo.

Referência

2007-02-12


Consolo remoto. A política pode não poder muito, mas pode alguma coisa. Por exemplo, o senhor eng.º Guterres, mesmo após a abalada, continua a ser sodomizado derrotado como gente grande. Agora, claro, por conta e mora. Nicky Florentino.

Referência



P. Os rengorrengos a que um gajo está habituado são uma das condições da sua segurança ontológica. Quando algo é desconforme a tais adquiridos, ainda que adquiridos julgados anódinos, a probabilidade da angústia aumenta significativamente. Hoje, por exemplo, ele sentiu o seu jornal desarrumado. Motivo por que exclamou a palavra «caralho», seguida de «onde é que está...?», mais vezes do que é costume. Segismundo.

Referência



Silence is sexy. Lá fora ensaia-se o regresso à realidade. Uma sensação híbrida, ressaca e consciência recauchutada. A mesma sensação de quando se passa pelo espaço de um mercado após o fim da barganha e das licitações. O chão coberto de destroços da venda. Depois do frenesim extático, o silêncio do bazar é a estação mais próxima possível da tranquilidade. É isto o que a terra espera de nós. Segismundo.

Referência

2007-02-11


Para além de «sob o signo de Περικλής». Os gentios são o que são, sem tirar e sem pôr, uma mole de criaturas desafectas e incompetentes em termos políticos, não haja ilusões. O que significa que o realismo cínico de Walter Lippmann continua a revelar-se mais adequado para reportar o fenómeno democrático contemporâneo, nomeadamente no que concerne à probabilidade de concretização da ordem democrática por via da participação cívica, do que o pragmatismo tão frouxo quão bem intencionado de John Dewey. Nicky Florentino.

Referência


Bons motivos pro «não», hors-série

Segismundo.

Referência



Acácia, meu amor # xix. Que mais posso dizer-te?, hoje é dia de alerta. Tento ver o que não vejo, não ser traído pelo engano ou pelo espanto. Tento. Eliz B.

Referência

2007-02-10

Bons motivos pro «não», xv (edição digestivo)

Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», xv (edição sobremesa)

Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», xv (edição pequeno almoço)

Segismundo.

Referência

2007-02-09


Coro. É sobejamente estúpido exortar ao «voto em consciência». Porque um voto, qualquer, vale enquanto voto, não enquanto consciência. Nicky Florentino.

Referência


Bons motivos pro «não», xiv

Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», xiii

Segismundo.

Referência



Cadáver adiado. Pelo corpo é o jet-lag identitário, o prenúncio da falência. É por ele a hesitação, a esquiva, a fraqueza, o arrasto, o limite, a queda. O arrombo por sonhos acontece no corpo também. Segismundo.

Referência

2007-02-08


Livro dos rogos, ix. Escolhe outro. Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», xii

Segismundo.

Referência



Ser adiado. Qualquer promessa implica um futuro, não um futuro qualquer, mas um futuro reparado. Neste sentido, o enunciado de uma promessa é o primeiro sintoma que algo falhou ou está a falhar. O que justifica a expectativa da reparação, porém, está além do momento. Pelo que a admissão do futuro como momento de rendenção tem como motivo a disposição a esperar essa mesma redenção. O que significa que a promessa é um modo pelo qual alguém começa a ser o que ainda não é. Segismundo.

Referência



Pietà. Às vezes toma-a uma sensação tormentosa e, não fui feita para isto, lamuria-se. Ele, porém, incapaz de a compreender, insiste e tenta dissuadir-lhe o pranteio, mas eu amo-te tanto, não gosto de te ver sofrer, mentindo-lhe, ao mesmo tempo que, em complemento da manobra, a aconchega entre os braços, contra o peito. O Marquês.

Referência

2007-02-07


Livro dos rogos, viii. Fode-me, apenas. Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», xi

Segismundo.

Referência



Quatro iluminações para a memória. As mesmas mãos seguram Thel, Urizen, Ahania e Los. Não obstante, as mesmas mãos não são um lugar ou aqui. Segismundo.

Referência



Κρόνος. É uma sequência eterna?, um derrame permanente para a perda?, o tempo. Ou é um puzzle?, um exercício?, através do qual o corpo se inscreve em compasso e em ritmo, configurando-se como referência para a sua posição. Segismundo.

Referência

2007-02-06


Livro dos rogos, vii. Fode-me, mas não com a tua paciência, que é santa. Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», x

Segismundo.

Referência



Diz-me como te soltas. Em termos penais, o habeas corpus é mais coitus interruptus? ou ivg? Segismundo.

Referência



O olho de Bentham. À atenção e ao escrutínio de todo o liberal old fashion, a lei número setebarradoismilesete, de cinco de Fevereiro. Segismundo.

Referência

2007-02-05


Operação fellatio. Foi convocado um referendo que se consumará no próximo domingo. Perante a interrogação proposta, há cinco hipóteses lisas, sem disputa, a abstenção, o voto em branco, o voto nulo, o voto «não» e o voto «sim». Aparece, agora, promovida por uma falange pro «não», uma sexta hipótese, peregrina, votar «não» para, depois, tipo ora chupa aqui a ver se eu deixo, valer «sim». É um facto que, pelo regime que foi atribuído ao dispositivo referendário, a tensão entre o referendo e as instituições de representação política salvaguarda a ductilidade necessária a qualquer regime de enganos. Mas é conveniente não abusar. Nem da atrabílis nem da puta da desfaçatez. Nicky Florentino.

Referência



We’ll always have Odemira. Por mais incómodo que seja para as criaturas com sensibilidade Disney, é conveniente não interromper a validade da doutrina de Malthus. Há quem morra pelo bem, sobretudo pelo bem estar, de outros. Isto é um facto, não obstante a modernidade e a paranóia igualitária tenham subsidiado entendimento e melindre diferentes. Se dúvidas houver, atente-se na evidência sobeja fornecida pelas retóricas prevalecentes e indolores. É por isso que, nas circunstâncias actuais, embora compreensíveis, as declarações do senhor porta-voz da turma de peritos que elaborou uma proposta de requalificação dos serviços de urgência do serviço nacional de saúde - “com a nova rede, a probabilidade de alguém morrer desnecessariamente será menor do que existente” - mais não são do que um subsídio para a alienação persistente. Portugal é e deve continuar a ser as suas urbes e as respectivas coroas suburbanas, junto com os gentios que aí habitam. O demais território não é chão para ambulâncias, assim como a demais fauna autóctone não é raça que mereça a atenção em qualquer urgência. Nicky Florentino.

Referência



Livro dos rogos, vi. Fode-me, mas não com o teu jeito apóstata. Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», ix

Segismundo.

Referência



You self sabotage machine.* O seu exercício tinha uma intenção febrífuga estúpida, esvaziar a própria sombra. Segismundo.

* verso da canção «Day glo», incluída no álbum Learn to Sing like a Star (4AD, 2007), de Kristin Hersh.

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Du jazz dans le ravin. Procrastinar é sobretudo um problema de ritmo, a ilusão que o tempo é inautêntico, que o futuro, apenas o futuro, é o momento definitivo. Segismundo.

Referência

2007-02-04

Bons motivos pro «não», viii

Segismundo.

Referência



Agenda primavera. Três de Março, Lisboa, Maxime's, vinteeduas horas, Dead Combo. Dez de Março, Lisboa, Galeria Zé dos Bois, vinteetrês horas, Josephine Foster. Dezasseis de Março, Lisboa, Centro Cultural de Belém, vinteeuma horas, Orquestra Sinfónica Portuguesa e Mauricio Kagel. Vinteequatro de Março, Almada, Culto Club, vinteeduas horas, Sol Invictus. Vinteeoito de Março, Coimbra, Teatro Académico Gil Vicente, vinteeuma.trinta horas, Ursula Rucker. Catorze de Abril, Lisboa, Aula Magna, vinteeduas horas, CocoRosie. Vinte de Abril, Coimbra, Teatro Académico Gil Vicente, vinteeuma.trinta horas, Robert Fripp e The League of Crafty Guitarists. Onze de Maio, Braga, Teatro Circo, vinteeduas horas, Mão Morta. Dezoito de Maio, Lisboa, Coliseu dos Recreios, vinteeuma horas, Bloc Party. Segismundo.

Referência



Acácia, meu amor # xviii. Ai, ai. O sossego é o corpo saciado, a carne a macerar em carne, em digestão. É nesse estado que me deito e estendo o corpo sobre ti, meu amor. A brisa corta, dissolve o perfume do sangue, leva-o. Agora apenas nós permanecemos, a minha pele sobre a tua, na quietude dos amantes. Nós dois, tu e eu, apenas, nada ou ninguém mais. E, sabes?, assoma-me um ritmo de cadência demorada, a carne vence-me a partir de dentro. Por isso, por instantes reservo-me a contemplar a frente, a sentir o tempo escorrer. Olho a perder, sem atenção. Depois do sossego, cresce-me a letargia. É sempre assim. Não tardará o sono. Guarda-me, meu amor. Hoje não correrei mais. Estou e estarei apenas para ti. Guarda-me. Eliz B.

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2007-02-03

Bons motivos pro «não», vii (edição não ExpresSol)


Segismundo.

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Achtung! Uma besta no sentido ruminante do termo é uma besta, uma carrada de mato é uma carrada de mato. Pelo que, não obstante a simpatia ontológica entre uma e outra identidades, são entidades diferentes. Segismundo.

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Scary world theory. Madrugada baixa, o frio erguido, na rua. Os dois conversavam mano a mano, man to man, sobre o mundo, o mundial e o deles. Não identificavam qualquer surpresa fosse nas suas relações fosse nos seus contactos. Era isso que, por não serem soberanos, os incomodava e fazia rir. O mundo que se foda. E, sem intenção, através da exposição da própria miséria conseguiram a franquia para a ironia. Pois é, sem estar, estamos fodidos. Segismundo.

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2007-02-02


Livro dos rogos, v. Fode-me, mas arfa e grita, porque, durante, não quero ouvir os sinos da igreja. Segismundo.

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Bons motivos pro «não», vi

Segismundo.

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Da histerese à histeria. Às vezes ele perde os olhos e os sentidos nas páginas dos jornais e onde está escrito «Governo» lê «Guterres». Depois, sobressaltado, em voz ou em murmúrio, exclama foda-se!, o que é que é isto? - a prosódia é sempre a mesma - e torna rapidamente à primeira página do jornal, para confirmar a data e o seu tempo. Notado o equívoco, recobra. A tranquilidade, porém, nunca lhe regressa. Segismundo.

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Palavra de ordem que ele nunca ouviu, mas julga ter ouvido. Duche sim, Bush não. Segismundo.

Referência



La vie en rose. Circunstâncias há em que o que se abandonou num momento anterior recupera contra o atraso e atinge-nos com inclemência. Diz-se então que a puta da vida, sob a forma de azar, persegue-nos. Pode ser. Mas em alguns casos, como um boomerang, o que nos atinge é apenas o custo diferido e actualizado da cobardia não resolvida antes. Pelo que, no instante do impacto do que voltou do passado sobre nós, somos o erstaz do que fomos, mais fracos, surpreendidos, desprevenidos, apanhados. É que os espectros que nos perseguem não ressuscitam. Alcançam-nos outra vez, isso é que é. Fodem-nos de um modo que já não estamos acostumados. O que, no limite, configura sobretudo um problema de hábito. E de memória. Segismundo.

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2007-02-01


A verdade, toda a verdade, apenas a verdade e nada mais do que a verdade. O senhor ministro da Economia e Inovação, em chão chinês, exortou os empresários autóctones a investirem em Portugal. Para tanto, informou-os que, por cá, os salários são mais baixos do que a média da União Europeia e que, ao invés dos famélicos do leste recentemente admitidos no clube, os gentios lusos ou não reclamam ou não conseguirão aumentos de salário significativos. Na metrópole, tal declaração suscitou um coro de indignados, tendo como consequência o levantamento do escarcéu habitual por parte dos desvalidos políticos. Ora, excluindo a tontaria de afirmar os salários como vantagem competitiva nacional para os chineses - que é o mesmo que propor a venda de cubos de gelo aos esquimós -, o senhor ministro reportou evidências apenas. Por outras palavras, limitou-se a recensear factos. O que, convenhamos, nem é bonito nem cai bem. Nicky Florentino.

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O cortejo das honras e das competências contentes. Consta que, pelas mãos do senhor presidente da república, o anterior senhor procurador-geral da república vai ser agraciado com a grã-cruz da ordem de Cristo, carga por conta de, diz-se, salientes serviços à pátria no exercício das respectivas funções. Provavelmente faria sentido não alongar os motivos e os salamaleques subjacentes à condecoração. Bastaria reconhecer, como motivo sobejo para a consignação da dita grã-cruz, que o alfinete da honra lhe calha estritamente pelo exercício das respectivas funções. Como, se bem, se mal, se o caraças, não interessa. Pelo menos no caso do senhor dr. Souto Moura. Nicky Florentino.

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Livro dos rogos, iv. Fode-me, mas não com a tua consciência, que é pesada. Segismundo.

Referência


Bons motivos pro «não», v

Segismundo.

Referência



Para uma fenomenologia do chamamento e da invisibilidade. Na rua dele. Em sentido contrário vinha uma mulher. Antes de se cruzar com ele, a mulher parou, voltou-se para trás e, em apelo, disse anda, anda. Esperou uns instantes. Depois retomou a caminhada. Deteve-se adiante, pelo menos mais duas vezes, para repetir o apelo paciente, anda, anda lá. Nada ou ninguém que fosse visível seguia aquela mulher. Mas ela, num ritmo intermitente, interrompia o passo, esperava e chamava por algo ou alguém. Não se sabe o quê, não se sabe quem. Segismundo.

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A engrenagem dos aflitos. Uma coisa é ser possante, ter uma força desalmada, outra coisa é ser uma besta no sentido ruminante do termo. Segismundo.

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2003/2017 - danados (personagens compostas e sofridas por © Sérgio Faria).