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Albergue dos danados

Blog de maus e mal-dizer 

2008-06-30


“Se alguém se julga religioso, mas não refreia a sua língua,
ilude o seu coração e a sua religião é vã.”
*

Da imbecilidade. Ele ouviu alguém dizer não se sabe o quê sobre imbecis. Que é o que qualquer criatura diz sobre imbecis. Nada de extraordinário, portanto. A comunidade permanece. Os imbecis são os outros, incluindo os outros dos outros. Esta é uma religião bonita. Segismundo.
__________
* carta de São Tiago, capítulo um, versículo vinteeseis.

Referência



Actas para motosserra, v. A sociologia é um cadáver esquisito. Segismundo.

Referência



melancolia zündapp

# v
. falta, a cratera instalada na carne e a continuação. Edgar da Virgínia.

Referência

2008-06-27


Por uma economia política espontânea do trabalho. Há um princípio natural que deve nortear a acção das pessoas, a vontade, enquanto determinação livre e pessoal. Neste sentido, alguém, não interessa quem, deve poder trabalhar as horas que quiser ou entender necessitar. A jornada semanal de sessentaecinco horas é um atentado à autonomia de quem quer ou entender necessitar trabalhar mais. Se alguém quiser ou entender necessitar trabalhar sessentaecinco horas por dia deve e merece poder fazê-lo. A regulação do tempo de trabalho, sobre a vontade de quem quer ou entende necessitar trabalhar, serve apenas a servidão de quem trabalha. Fred Augusto de H.

Referência

2008-06-26

Referência



O método de Mato Miranda para a resolução de todos os problemas políticos. Há uma teoria lírica - teoria lírica é qualquer narrativa autocertificada, que vinga porque sim, independentemente ou para além da prova empírica - que sustenta haver uma relação directa entre estado e corrupção. O raciocínio peregrino sem ser falcão avisa que menos estado - que é também menos regulação e consequências dessa regulação - gerará menos corrupção. Presume-se que, dissolvido esse reduto malsão e vicioso chamado estado, assim, abracadabra, hocus pocus, toutus talontus, vade celerita jubes, perlimpimpim, eclipsar-se-á definitivamente o fenómeno da corrupção. Quem levar o estado, há-de levar também as práticas capciosas e venais. Levará igualmente Hegel de braçado. Enfim, o indigenato já tem motivo para a exaltação. Sem estado ou quase isso, a pátria florescerá melhor do que pinheiros com nemátodo. Pouco importa que, em The terror of a toy, Chesterton tenha escrito que “o espírito moderno desceu à degradação mental indescritível de tentar abolir o abuso das coisas abolindo as próprias coisas”. Nicky Florentino.

Referência



Vinteetrês. O Futebol Clube do Porto é um colosso futebolístico. Posto a frio, isto dói um bocadinho, está bem. Mas a malta do contra, moremente a mole adepta do pássaro e pluribus unum, tem estofo suficiente, aguenta, tão treinada que anda em desaires. Mais. Apenas um clube assim, como o Futebol Clube do Porto, com tendência à magnanimidade, consegue ser campeão com o mister Co Adriaanse, primeiro, e com o mister Jesualdo Ferreira, duas vezes, depois. Mas isto é parte da glória apenas. A glória seria superlativa se, e só se, o mister Jesualdo Ferreira, o maior especialista autóctone em curling sobre relvado, fosse misterear o slb ou o Chelsea Football Club na próxima temporada. Intendente G. Vico da Costa.

Referência



Manuf(r)actura. That’s how you fight monsters. Lure ’em close to you, look ’em in the eye and smack ’em down. Posto assim, como Hank Deerfield explicou a David, o filho da detective Emily Sanders, numa cena de In the Valley of Elah - filme realizado por Paul Haggis -, parece fácil. O problema é quando os monstros são em papel. Dobrá-los cansa. Pôr-lhes um cordel também. E um gajo tem mais que fazer com as mãos. Mas isto é o que menos arrelia. Porque há a complicação da questão monstruosa. There’s no such thing as monsters, disse Tom Stall para sossegar a sua filha, Sarah, numa cena de A History of Violence - filme realizado por David Cronenberg. E um gajo fica sem saber em que crer. Ou o caralho. Segismundo.

Referência













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(i) isto é curioso porque o homem que assinou o cheque está morto. ele estacionou o carro na rua lateral, entrou no prédio, depois no elevador, carregou na tecla para subir até ao quinto andar, mas, durante duas horas, o elevador não saiu daquele patamar. foi a vizinha do terceiro esquerdo que, ao chegar, vinda do arraial dos santos, deparou-se com a cena, o homem degolado, com a cabeça quase separada do corpo, vários golpes no tronco, ensanguentado, e gritou. quem ouviu acorreu mais para testemunhar o terror gritado do que em socorro. isto foi o que, como matéria de facto apurada, o investigador inscreveu no relatório. o que significa que até hoje não se sabe o motivo por que não foi encontrado qualquer recibo, a atestar a compra que motivou a emissão do cheque referido, dentro de um bolso ou da carteira do homem morto. o que se sabe é que a investigação prossegue e que o investigador parece envolvido no caso com intensidade e dedicação maiores do que aquelas que preescrevem como recomendadas e justas os manuais, as regras e a deontologia policiais. por exemplo, são conhecidas as simpatias excessivas dele para a agora viúva, que ele tem visitado assiduamente, invocando o processo de investigação. testemunhas várias asseguram ter escutado risinhos e ruídos, típicos de amantes em labor, que coincidem com a presença do investigador em casa dela. há até quem assegure ter ouvido a senhora a gemer e gritar ai aurélio, espeta com força. aurélio é o nome falecido, pelo que a vizinhança não descarta a hipótese de ele estar em estado de alma penada e, portanto, haver um fantasma no prédio. o que não é bom para a reputação e a cotação do imóvel. entretanto, ontem, foi entregue uma cama de pregos e um colchão ortopédico no domicílio da viúva. relutante a princípio, ela anuiu e assinou a prova da entrega, na faixa sob o picotado, a seguir à expressão «recebi a mercadoria constante desta guia de remessa», porque, na ocasião, entregaram-lhe também o recibo que não havia sido encontrado, emitido em nome do seu marido falecido, antes um faquir reputado. Edgar da Virgínia.

Referência



finisterræ

o mar adiante. o promontório já não alberga o nosso encontro. o verão acabou, é janeiro. guardamo-nos distantes, a testemunhar a tábua marítima do inverno, a assistir à sucessão das vagas, clamorosas contra o perfil dos alcantis. há histórias de anjos mortos ali, precipitados sobre as rochas, cortados pelo impacto e o seu sangue derramado. no entanto nenhuma cruz por eles, constata-se.

partilhamos o isqueiro. repete-se o ruído abrasivo antes da chama, primeiro na tua mão, depois na minha. temos os rostos parados, a contemplar a frente, que ultrapassa o pára-brisas. o nosso filho dorme lá atrás. o silêncio preenche-nos mais do que a culpa. ligo a telefonia que, súbito, através da frequência modulada empurra uma melodia contra nós. they sentenced me to twenty years of boredom,* ouço. quanto tempo de pena ainda falta cumprir?, ocupo a cabeça com esta interrogação, a tentar curar a hipótese da minha ressurreição em taciturno. o amor é uma coisa sobre a qual não devemos falar, afirmas, expelindo depois um sopro de nicotina. olho-te, o tempo permite-me acumular detalhes. certas coisas são a nossa destruição, começam o nosso fim. continuo a olhar-te. também professo que sobre certas coisas devemos e merecemos o silêncio, porém nada digo. temos a esperança que as coisas se tornem mais pequenas, mas elas crescem, crescem inexoravelmente, pelo que mais cedo ou mais tarde tornam-se um problema de arrumação. continuo a olhar-te, a acompanhar as tuas palavras. onde colocar as coisas maiores?, não é?, os vazios não são tão vastos que possam acolher todos os excessos. os vazios - os íntimos incluídos - são finitos. mesmo os cemitérios começam a constituir um problema. o chão é um bem escasso, não chega para todos. sim, eu sinto, a solidão, a nossa solidão, está cada vez mais difícil. cercam-nos, vigiam-nos, avizinham-se de nós e, por aproximarem-se demasiado ou encostarem-se, quase que nos cortam a carne e sufocam-nos. é necessário resistir, por separação ou combate, para não pertencermos à comunidade dos outros, digo, aos seus gostos, aos seus credos, às suas liturgias, aos seus ritmos, às suas orações morais, aos seus apelos, às suas determinações, às suas simpatias, às suas vontades, aos seus tédios, aos seus condomínios. aspiro o cigarro que seguro e, nós dois, como três, os que estamos dentro deste carro, somos o mais que, porque nós, podemos ser, acrescento. encarnamos o máximo de comunidade possível, assumo. para além do que somos começa a estranheza, o lugar deles e os seus efeitos, onde perdemos a diferença, deixamos de ser nós e passamos a ser outros, como os outros. não há natureza nisto.

tento a mão direita sobre a tua perna mais próxima. alcanço-a e afago-a, deslizando os meus dedos sobre a tua pele. permites-me aí enquanto olhas o mar através da janela do teu lado. a vida é ridícula. aliás, no fim apenas o que é ridículo pode resumir-se a uma cova, sentencias. encaras-me para verificar se te entrego a minha concordância. morres, sepultam-te. não esboço qualquer gesto que desabone a tua afirmação. ficam cá as tuas coisas, até as tuas garrafas, aquelas que dizias permitirem-te avocar amparo mediúnico e cujos rótulos olhavas demoradamente, como se estivesses a ler um poema.

tenho pregos no bolso, não sabes. estão embrulhados numa folha que rasguei de um livro, porque, acredito eu, para confirmarem-se os poemas necessitam de utilidade e hostilidade. se não devemos falar de amor, também não devemos falar de poesia, reparo. são o mesmo mal, sob formas diferentes, palavras que não pronuncio e reservo para uma necessidade eventual.

por instantes alieno o mar adiante e imagino o exercício de amanho de poemas, escritos numa máquina velha, que punça o papel cada vez que uma tecla é percutida pelos dedos. embora aparente ser mecânico, o ritmo é marcado por passos que se ouvem e de que não se sabe a direcção. passos como vozes, que se ouvem.

recosto a cabeça, torno a alcançar o fragor oceânico. penso o luar, o seu brilho em segunda mão, que não tarda. sem propósito, também recordo aquele momento em que lançaste duas cartas sobre a mesa, a sena de espadas e outra, e disseste xeque mate, sou tua. não eras, não foste. valsas devagar, para não te dares. já ninguém valsa assim. xeque mate, sou tua, disseste, recordo. e em simultâneo indago em exercício mnemónico onde terei deixado o livro de cheques da caixa geral de depósitos, um dos meus outros cuidados pequeno-burgueses. ocupo-me mentalmente disso até ouvir uma voz cantar love is never through.**

estás preparado para morrer?, queres saber. ninguém, nenhum filho da puta está preparado para isso. eu sou e estou como eles. há a fraqueza, a cobardia, a deserção, a doença, o coração, os medos do corpo. decidi não responder-te. vou fingir que estou alheado, levado pelo ofício do cigarro, que aproveito para aspirar novamente. talvez este seja o meu caminho para a suite ómega, não sei. a condenação espera-me, mas admito não comparecer-lhe. bato o cigarro no cinzeiro, a urna cinerária das nossas aspirações naquele momento, o tempo real.

tempo real? todo o tempo é real, sem devolução, sem dissolução. talvez por isso não sei o que fazer agora com a verdade. afinal para que serve?, o engano ainda é opção?

falas-me em prodígios e eu só penso em foder-te, em maneiras de foder-te. prodígios, sim, percebi logo à primeira, estou a ouvir-te com atenção. é mentira, estou a sentir o quanto quero foder-te, agora já sem preocupar-me com a questão dos modos. quero foder-te apenas, combinar o meu corpo no teu, no mal que ambos possam e que melhor sirva o que quero. que quero aqui e agora. eu não sou a Julieta, tu não és o Romeu, este carro não é a verona das nossas famílias, dizes, provavelmente a tentar a minha desistência. eu espero, aviso. entretanto o nosso filho acordou, acodes-lhe. estou a ser sincero, insisto. não estou. está bem, aceitas, sem revelar convicção. hic et nunc, aqui e agora em latim, é onde e quanto quero o que quero, foder-te. não quero esperar. permaneço calado, mas não desistido. a hipótese da satisfação do desejo faz o sangue possante e as vozes dentro calarem-se. torno a escutar a rebentação do mar a frisar o teu discurso. o desejo agrilhoa o corpo à condição de cativo, falido em tudo o mais que não forneça o fim da ânsia, que acaba apenas quando consumida na sua realização. merecemos o êxodo?, pergunto. não consigo disfarçar.

já não tenho a mão no cigarro, matei-o, e estendi-a até a uma garrafa, que abafo nos lábios, para recolher-lhe o conteúdo. ouço-te ofegante. com um braço seguras o nosso filho contra o teu peito, onde ele com a boca encontra um seio e sorve de ti a seiva. vejo mal, a puta da miopia, mas verifico que deixaste cair o outro braço e recolheste a mão abaixo, até ti. masturbas-te. cuspo para fora do carro, passo uma mão pelos lábios. é esta a nossa humanidade, uma parte inteira de tudo, que nos compreende e pela qual nos compreendemos, sem motivo ou consequência. a excitação, a função, a paixão, a prova. não há explicação para a identidade e para a circunstância em que somos. somos a carne lavrada e o nome que a habita. temos o nome de uma alfaia, respondemos-lhe. não adianta desviar o olhar da evidência. tu e eu somos tão fatais quão espectrais. nunca te beijei como agora desejo beijar-te. o desejo não é mal para a morte. encosto os meus lábios aos teus, acolho o bafo quente da tua respiração e os teus gemidos. o nosso filho está entre nós, somos três corpos. por continuar a apertar a garrafa, a minha mão transpira. o nosso filho ama-te, eu amo-te, partilhamos a necessidade. a mesma carne concorre-nos. extasias.

será que já não queres um homem? agora preferes um jockey?, alguém que use gravata, capaz de sentar-se a uma secretária durante o horário de expediente convencional e que saiba fazer fazer downloads, alguém light. gasto, sinto-me assim. para iludir-me escrevo enunciados sem sinopse e depois destruo-os, como fiz com comporta lohengrin e comporta tannhäuser. com cabaret baudelaire também. títulos forçados, copiados ou quase, de que não há vestígio. são a herança que deixo ao nosso filho. beijo-te outra vez. recolho a minha mão da tua face.

à devoção segue-se a desolação. as trevas não são passíveis de devassa. em seu torno a fé continuar a cavar trincheiras e a erguer barricadas, de modo a constituir a guarda e a defesa de nada. sais da atitude em que estiveste, do golpe com que rasgaste a tua a carne. agora são os teus lábios sem comoção, como se a loucura tivesse entregue neles a resposta de depois, o silêncio. chaque fois unique, la fin du monde.*** pode ter sido sugestão apenas, mas quase sou capaz de jurar que tinhas invocado Derrida, a tristeza pronunciada devagar. é preferível não jurar. ou comem todos igual ou não há moral. prefiro que não haja moral, é dieta melhor, mas não digo a minha preferência.

e tu dizes o quê? o suspiro que expeles derrota-te. as canções estão apagadas, as tuas veias estão abertas. conheço o teu silêncio melhor do que qualquer outro, deus incluído, deus o grande, o das revoluções e o da miséria, o de todas as sedes e todas as fomes, o deus cão autenticamente, porque não há outro. quando dizemos amén ladramos baixinho. as orações são ladainhas de canil. e deus enganou-nos tão perfeitamente que duvidamos mais de nós do que dele. puta que o pariu. sal e limão para temperar as feridas, as nossas, antes que cicatrizem.

revejo a sombra a mover a mão do jogador. controlo remoto. recordo o teu gesto, as duas cartas sobre a mesa. é um jogo a perder, se o sangue não é a transcrição das nossas vidas. antes havia aqui um motor a solo, apontas o teu peito, agora há um coração sucata. as mentiras reflectem com outro tom. o corpo sem amor, calafetado em vão. as trevas que infligimos, sem tréguas, sem manhãs, onde voltamos, para perpetuar os acidentes, para escrever as cartas que não enviamos. somos o único nómada que conheço, tento acudir, diferente do tempo. haveremos de voltar.

o mar adiante continua a quebrar. sem adeus. O Marquês
_____________________
* verso de “first we take manhattan”, canção composta por Leonard Cohen, editada originalmente no álbum i’m your man (columbia records, 1988).

** verso de “wolfie”, canção composta por Scout Niblett, editada originalmente no álbum kidnapped by neptune (too pure, 2005).

*** título de um livro de Jacques Derrida (paris, éditions galilée, 2003), tradução da edição original sob o título the work of mourning (chicago, the university of chicago press, 2001).

Referência



Livrete dos anjos sujos, xvii. Mónica Liberman tinha coração cascadeur. As asas permitiam-lhe isso, coreografias e manobras que desafiavam as gravidades, a da maçã de Newton e a da pauta honrada. Era louca na cama e sobre outras peças de mobiliário. Não por acaso a pedra de mármore da cómoda do seu quarto foi partida. Se não distinguia mobília, ela também não distinguia divisões ou exigia o recato de paredes para consumar o acto. Bastava-lhe a vontade, dispensava espórtula. Havendo talante, propiciava a oportunidade e concretizava a performance. Às vezes na rua, como uma cadela ciosa. Porém ela não beijava. Sou solta n’ars amatoria, comigo pode ser tudo, excepto beijos. Temia que, durante o ósculo, algum dos seus parceiros lhe sugasse o ar dos pulmões, asfixiando-a. Morreu ainda nova, antes dos trinta anos, na sequência de um salto com pára-quedas mal sucedido. O exercício fazia parte da terapia contra a fobia dos beijos. Por causa da fama acumulada e dos seus modos soltos, as autoridades locais impediram que a sua campa fosse adornada com uma lápide com o seu nome talhado a cinzel. Aqui, às putas e às tontas, mesmo às que têm asas com penas macias, este pormenor dela o administrador sabia-o por prova pessoal, aplicamos a regra da campa rasa, explicou ele. Desde então, naquele lugar, o vento desafia os ciprestes como nunca antes qualquer elemento desafiou. Há quem diga que as gravidades estão a começar a mudar, ali. Eliz B.

Referência


Referência

2008-06-25


Stranger than paradise. Há muito tempo, havia um flautista que afiava gumes. Era raro esse flautista, mas distinto, por não haver outros como ele. Depois começou a aparecer um flautista diferente, mais frequente e sofisticado, amarelo Sponge Bob, sobre rodas, o da family frost. Anteontem, na cidade pequena, voltou a soar o antigo. Houve facas que saíram à rua. Segismundo.

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Portugalé. Canastra, celeiro e campos de golf. Segismundo.

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Veredas. Fixas-te no género, em Carson McCullers e Margaret Atwood, e não percebes o que o coração tenha a ver com o caso. Quando regressas a Coetzee estás mais morto, mas ainda assim regressas, para continuar a senda. Segismundo.

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Trabalhos para fama boa. Isto de um gajo viver no avesso das horas dos outros tem algumas vantagens. Por exemplo, descobrir na cozinha as sobras de um bolo de bolacha, sem haver vigilantes ou concorrentes perto, com quem seja necessário partilhar tais despojos. Agora já não há bolo de bolacha. E, note-se, ele hesitou entre fazer desaparecer tudo, para eliminar os vestígios do assalto - e poder negar a autoria do acto -, e deixar prova suficiente da sua gula, para atenezar os sobrinhos. A prova ficou sobre a bancada da cozinha, foi o que ele decidiu. Por isso, logo, quando vier a admoestação maternal - que é o único acontecimento certo do dia -, a fazer notar que a parcela do bolo de bolacha sobrante teria dado para três ou quatro - economia em que também a sobrinhagem haveria de estar fiada -, ele concederá à mãezinha que comeu o bolo, sim, mas que a dose não era assim tão grande. Chegou para um e mal. Segismundo.

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2008-06-24


Os tempos da emergência. O Eduardo escreveu o que merecia ser escrito sobre as últimas declarações do senhor dr. Nuno Morais Sarmento. Nicky Florentino.

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Mundo Hamlet, ii. Joga-se em mundos paralelos para o mesmo resultado combinado. Segismundo.

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Diário de um dromocrata, iv. E agora dizem que é uma coisa chamada hidrogénio que pode salvar-nos o ritmo. Segismundo.

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Cardiopatia. Disseste defraudado? ou desfraldado?, o teu coração, indaga uma voz. Ele disse subtraído, mas agora não quer responder. O Marquês.

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2008-06-23


Alçapões do regime. Em Portugal, um problema acrescido dos partidos políticos é o facto de serem portugueses. Nicky Florentino.

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Mundo Hamlet, i. Até que alguém pede desculpa pela interrupção da emissão, por motivos que são alheios à sua vontade. Segismundo.

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We will all laugh at gilded butterflies. Isto é aproximadamente Shakespeare, rei Lear para Cordelia, sua filha. Segismundo.

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Uma questão de poesia. Dizeres que é um periscópio sem função óptica não é excitante, repreendeu-o ela. Ele quis saber porquê? Irritada, ela explicou-lhe, porque desde pequena imagino os submarinos amarelos. Ele recuperou os braços após a desenvolver. Isso significa que não queres fazê-lo na banheira?, perguntou, ao mesmo tempo que agarrou os ombros dela, para que, não obstante a distância entre os corpos que o seu gesto provocou, mantivessem o contacto entre os olhos. Na banheira?, exclamou ela a interrogação, não sejas depravado, antes de acusar-lhe a imoralidade, vê se consegues ser mais poético, e a competência estética. Depois soltou-se, afastando as mãos que a agarravam. Por instantes ele ficou vencido. Baixou os olhos. E remoeu a recusa, até voltar a encará-la, este é o teu céu com diamantes, para dirigir melhor a sua mão direita cerrada em punho. O Marquês.

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2008-06-22


Sem título. A senhora dr.ª Manuela Ferreira Leite é o mister Scolari do psd. O que significa o azar da senhora presidente do psd e do psd. Nicky Florentino.

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Espiral e estratégia. Durante algum tempo o silêncio há-de distinguir o psd do ps. Mas não muito, quanto ao tempo e quanto à distinção. Porque o que tem que ser tem muita força. Nicky Florentino.

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. Não é indiferente ser-se homem ou ser-se mulher. No entanto, se não é indiferente, isto não significa que o sexo seja o maior ou o mais importante diferenciador das gentes. Posto isto, surge justificado tornar ao caso de, quando a senhora dr.ª Manuela Ferreira Leite foi eleita senhora presidente do psd, ter havido quem avisasse que o facto tinha ocorrido não obstante não ter sido accionado o dispositivo das quotas. Pois bem. No xxxi congresso do psd, acontecido este fim de semana, foram eleitos cinquenta e cinco membros para o conselho nacional, entre os quais há duas mulheres. Há uma mulher entre os nove membros do conselho de jurisdição nacional. Na comissão política nacional, constituída por dezoito membros eleitos directamente, há três mulheres, uma das quais a dr.ª Manuela Ferreira Leite. A mesa do congresso, composta por sete elementos, inclui duas mulheres. Portanto, oito a dividir por oitenta e nove dá zero vírgula zero nove, com acerto às centésimas. Esta é a proporção de mulheres no universo de criaturas eleitas para os órgãos nacionais do psd. Já contando, obviamente, com a novel senhora presidente da seita. Nicky Florentino.

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2008-06-20


Escala de Bachelard, i. Em termos futebolísticos - o futebol é um dos modos de materialismo aplicado -, um obstáculo epistemológico é um obstáculo epistemológico. Segismundo.

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comporta tannhäuser

dezassete papéis de tamanhos vários por resolver. o tempo draga-te o coração, a cabeça. sentes a culpa a crescer, a ultrapassar-te os gestos. algo que não consegues precisar detém-te a partir de dentro. começas a ficar demasiado atrás e para trás, comprometendo a hipótese de recuperação. ranges os dentes quando ouves love me tender na telefonia. não é diferente quando ouves a repetição do verso com sweet, true, long ou dear. tomas a decisão, o fim, hoje, ainda hoje. nunca disseste sou a melhor do mundo a dançar slows, não por não ser verdade - a verdade é que quase não deixas que te toque -, mas por, mesmo que fosse verdade, parecer-te uma afirmação pirosa. tens o hábito de escolher as palavras, como se elas tivessem beleza e calibre preciso. agora olhas-me sem olhar, o calor perturba-te, falas contigo. mas não diante do espelho, falta-te a coragem e pareceria que estás a ensaiar um discurso. hoje, ainda hoje, o fim. eu estou junto à porta de casa, espero-te. tu estás no hall de entrada, a concertar o cabelo. o último retoque. quando disparo, estás de costas para mim, cais sem amparo e sem saber porquê. Edgar da Virgínia.

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2008-06-19


Ainda o touro disfarçado. Se falta mundo ao mundo, é redundante afirmar que falta europa à união europeia. Uns quantos irlandeses, não muitos, não demais, deram o recado sob a forma de voto em referendo. Mas parece que os irlandeses - como antes os dinamarqueses - não são franceses. E que democracia não empata diplomacia. Foi sempre assim. Nicky Florentino.

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Portugalé. Um dia santo de nevoeiro. Segismundo.

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Página do livro das sentenças, lii. No (hu)man’s land, o nome do mundo como culpa. Segismundo.

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2008-06-18


Zero e depois. O princípio é simples. Calças as luvas, calças as botas. E fazes o meio caminho que falta, ou indo ou regressando, com a verdade de que se foda presente. Não longe encontrarás uma filha sobre Kraftwerk. E, quando já ganhaste, podes tentar mais. Segismundo.

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Adagietto em Mahler. O que fosse o tempo, julgas agora que ele traiu-te e disso não guardas prova, porque ele passou, passou simplesmente. Segismundo.

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Da precariedade. Ainda há quem grite isto está tudo ligado, mas a ligação está demasiado má para conseguir perceber-se o que estão a dizer do outro lado. Segismundo.

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melancolia zündapp

# iv
. como o espectro incita hamlet a falar com a mãe, vê-se a insânia devolvida à hipótese da morte, sem consumar o regresso. Edgar da Virgínia.

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2008-06-17


Tudo o que não disse. A senhora dr.ª Manuela Ferreira Leite disse que não fez qualquer intervenção pública a propósito do estado de sítio posto na pátria por caminionistas e empresários da camionagem porque estava no estrangeiro - junto de um neto nascido recentemente -, é mulher e as mulheres não pensam permanentemente em política. Talvez a senhora presidente do psd seja mulher e as mulheres isso, mas a explicação dada, se é explicação, foi à macho. Porque, no parecer da dita senhora - se não dito, subentendido pelo menos -, homem que é homem albardado com honras políticas maiores não vai visitar o netinho longe e não fica calado quando há crise. Porquê? Porque, o kit natureza explica tudo, um homem é homem e uma mulher é mulher, com a consequência evidente de um homem ser sempre homem e nada mais do que homem, enquanto uma mulher é mulher e pode também ser avó e acumular um ror de tarefas e ocupações cujo o cúmulo os homens são menos capazes de suportar. O que significa que, ao visitar o neto, a senhora dr.ª Manuela Ferreira Leite foi como eles são, avó apenas. Nicky Florentino.

Referência



Diário de um dromocrata, iii. A infelicidade de não rodar a 33⅓, o ritmo exacto para a agulha que roça e sulca na carne estriada. Segismundo.

Referência



Página do livro das sentenças, li. A salvação nasce necessariamente na culpa. Segismundo.

Referência



O idílio e a desgraça. O argumento tinha enredo, ritmo e sentido. Mas também tinha um problema, a primeira frase. Que era propicia a encalhe, quando, ordena a estética, deve ser de lançamento. Entretanto o problema foi removido, agora o argumento já tem uma primeira frase como deve ser, Deolinda nasceu flor, mas a narrativa restante perdeu plangência e esplendor. O Marquês.

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2008-06-16


Página do livro dos equívocos, xiii. Uma teoria. Os gajos são maus a avaliar carácteres, piores do que as gajas. O que eles retêm das gajas é o cheiro, a textura da pele, o modo como o cabelo delas pende sobre os ombros. As memórias que os gajos são capazes de reservar servem-se de índices somáticos, portanto. Tudo o que é mais do que instintivo é muito complicado para os neurónios deles. Os gajos são animais, tocam, não têm sondas para almas alheias. Podem ir fundo, está bem, mas não é por causa de almas. Menos ainda de almas com estrogénio. Por isso muitas vezes os gajos imaginam o seu engano com gajas e deleitam-se com a própria imaginação, um modo de masturbação eidético. É este pormenor, o aviso, o mais que os distingue dos orangotangos. As gajas, essas, jogam noutra divisão e muito merecidamente. Algumas até nunca ouviram falar de orangotangos. Algumas são cabras. Mas todas elas são mais sofisticadas do que os gajos. Excepto as tontas. Segismundo.

Referência



Estúdio realidade, v. Deus deu tudo o que tinha a dar, por isso morreu enquanto jovem. Segismundo.

Referência



The mind is a terrible thing to taste. Um rapaz interessa-se por coisas estranhas. Ele, por exemplo, gosta de escolher os naipes da artilharia. Porém nada ou pouco atenta às manobras ofensivas. Tal, quem ganha ou quem perde, é-lhe indiferente. A sua curiosidade esgota-se no estrépito, o do lançamento e o do impacto dos projécteis. Porque o ruído é o que verdadeiramente o comove. Segismundo.

Referência



Das duas uma. Ou tu fodes-me ou eu fodo-te, clamou ela, não há terceira via, consolo para piegas. O Marquês.

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2008-06-14


telegramas a catarina sofia, i. são faits-divers meu amor mas apeteceu-me reagir à espécie de lévi-strauss em belém que disse a raça não sei o quê ou o caralho mas então como agora não estou para aí virado e é mesmo só para dizer que concordo com o shakespeare da lezíria edil sclalabitano egrégio como os avós do hino assinalado como as armas e os barões do camões ínclito cá para nós que também disse não sei o quê sobre o mal dos blogs como poderia ter dito qualquer coisa sobre o bicho pequenino e ruim que dá cabo dos pinheiros ou como poderia ter dissertado sapientemente sobre eucaliptos e a fauna da reserva natural do paul do boquilobo e também que a uefa não deve tolerar batotas ou baixarias do género como por exemplo o mister jesualdo ferreira misterear uma equipa de futebol na champions league e que o mister scolari a quem vale a nossa senhora do caravaggio ou o caralho está bem mas não vou debruçar-me sobre o assunto agora tenho que dedicar atenção à profissão mais antiga camionista tir que gostava de ir para a américa onde os camiões parecem ceifeiras-enfardadeiras da john deer verdes a gasolina mas agora já está tudo bem outra vez graças a deus ainda há praias com bandeira azul e o tolan foi há muito tempo stop guilherme b.

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2008-06-13


Guisado de couves de Bruxelles. A maioria dos irlandeses que votou ontem - poucos, note-se - fez a saudação do dedo do meio ao tratado de Lisboa. Há coisas da democracia que são um estorvo às bruxellências. Nicky Florentino.

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Sexta-feira treze. E tu, sim, tu, o rapaz da culpa, Crusoe todos os dias, náufrago de ti mesmo e do tempo que passa, deportado para a vida, qual é a tua superstição? Segismundo.

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Portugalé. Um hospício com nome de santuário. Segismundo.

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Safari, iv. E súbito um liberal old fashion encontra-se com a contradição entre princípios decentes, lealdade e liberdade, contradição em si, e hesita, por si. Segismundo.

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Romeu & Porsche, ii. O dom da crueza, há quem o tenha adquirido pelo hábito, ele procurou-o com a meditação e alcançou-o por via do discernimento e do treino. Seria mais fácil afirmar que o adquiriu através de um exercício filosófico, mas o seu exercício foi mais do que isso, filosófico, para o que contribuíram os anos, muitos, que oficiou como magarefe. Enquanto aqueles que interiorizam a crueza pela experiência ou pela submissão tendem a cicatrizar a memória, remetendo para um plano remoto de si a lembrança de tal interiorização - processo difuso e continuado, se pela experiência, brutal, se pela submissão -, ele ainda hoje é capaz de reconstituir os motivos da sua identidade e explicar com argumentos lógicos e estéticos a sua adesão ao estilo cruento, que, ao longo do tempo, aperfeiçoou. Hoje, por exemplo, ele chegou cedo ao local da missão. Correu as cortinas para trás, de modo a iluminar a sala. Pôs-se à vontade. Colocou água quente na bacia. Molhou a navalha para dissolver a aspereza da lâmina e dar-lhe um fio certo. Embrulhou a mão direita - era canhoto - num trapo branco. Agora a minha mão voltou a estar completa, a ter um fim em si, disse em voz baixa, quase sussurro, quando contemplou a mão esquerda, suspensa, a agarrar a navalha, contra a luz que trespassava o vidro da janela. E ficou à espera, declamando em murmúrio um poema longo, veterano de amor, o meu corpo é uma arma, e tu paixão sem penhor, de que se perceberam poucos versos. Entretanto calou-se. Reconheceu o ruído dos tacões de sapatos de mulher a percutirem os degraus. Depois constatou um silêncio breve. A seguir, ao ser fechada, a porta foi batida, após o que o motivo do ruído dos passos continuou, agora já dentro de casa, sobre o soalho, dirigindo-se para a sala, atraído pela luminosidade. Não houve intimidação no episódio. A operação foi rápida, sem apelo, gritos ou misericórdia. Tudo aconteceu em silêncio, excepto quando, no instante em que se aproximou dela, ele repetiu um dos versos do poema, e tu paixão sem penhor, causando-lhe pasmo. A camisa dele ficou salpicada de sangue. Arrumou as alfaias do seu ofício. Vestiu o casaco. E, a quem os piquetes do medo obstam a sublimação, das tuas visões os resíduos do amor apenas, entornados sem culpa de que somos o tempo, abandonou aquele lugar, sem olhar para trás. O Marquês.

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2008-06-12


A improbabilidade da normalidade, ii. Antigamente chamavam-lhe anomia. Era uma perturbação conjuntural, de trânsito entre complexos ou formas institucionais. Agora a anomia é a instituição. Sob tais condições, anómicas, qualquer regime político aproximado à democracia é um dispositivo de potência fraca. O que significa que, não obstante a ilusão e a propaganda, os parâmetros da acção pública são cada vez menos, em número, e cada vez mais estreitos, em alcance. Não há que temer. Depois do fim, haverá mais. Há sempre mais. Nicky Florentino.

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A improbabilidade da normalidade, i. A maior parte das narrativas analíticas disponíveis admitem a ordem e elaboram sob uma ordem, o que significa que tendem a iludir o efeito das contingências. Talvez por isto seja tão difícil admitir cenários que, em determinadas circunstâncias, são mais normais do que a normalidade do costume. De facto, é por um fio ténue que as coisas tendem a acontecer como certas. Há um arranjo institucional, as rotinas ajudam, mas isto, por si, não garante todos os dias leite nos supermercados ou gasóleo nos postos de abastecimento de combustível. Num quadro de interdependência estrutural dos diversos dispositivos sociais e económicos, a alteração de um factor é suficiente para desordenar a ordem estabelecida, sem que os outros factores tenham autonomia ou capacidade para restabelecer a ordem referida. As vontades são demasiadas para que exista uma vontade geral. Os interesses, esses, são crescentemente dissonantes, em sentido e em escala, o que faz do interesse geral uma hipótese tonta. E, embora seja ao estado que compete mobilizar os piquetes da ordem, o estado é cada vez mais uma casa de penhores - sob a forma de votos ou de interesses -, recolhido e frouxo. Ainda bem. Assim, sob a incerteza, a liberdade é maior. Não se sabe é qual. Nicky Florentino.

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Direito de circulação livre. O fascínio por livros, livros apenas, esmoreceu. Agora é o fascínio por livros em estantes, por chão não ocupado. Segismundo.

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A ilusão mata. Uma das melhores histórias sobre culpa não informada inclui maçãs. É aquela que foi contada por شهرزاد nas primeiras de mais de mil noites. Morreu gente inocente. O ciúme serviu-se dos indícios para consumar a sua soberania. Segismundo.

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2008-06-11


Um problema chamado rês pública. A despolitização tem como consequência a impotência do estado. Pelo que, mais tarde ou mais cedo, os governos farsantes - constituídos para uma missão que não podem cumprir - são expostos perante a miséria que tentam iludir. Nicky Florentino.

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Dharma & Greg. Benjamin Linus é uma espécie de vivo diabo. Ninguém sabe bem quem é e como é que consegue determinadas proezas. Não obstante, John Locke atormenta-o como o caraças. O que obriga a questão, afinal será Benjamin Linus um pobre diabo apenas? Segismundo.

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Safari, iii. O direito à vida está escrito com letras grossas, vê-se bem. Assina-se o contrato em baixo, onde assinalado. Mas convém ler o restante clausulado, escrito com letras miudinhas, porque numa alínea de um ponto qualquer há-de estar escrito que quem contratou a vida não está isento de ressacas e de ai ais de amor. Segismundo.

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melancolia zündapp

# iii
. a morte, o que é?, é um trâmite apenas. Edgar da Virgínia.

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2008-06-10


Do regime ambulatório. Para não atemorizar a mole gentia, concedeu-se que, no seu processo de contracção e contrição, o estado preservasse funções de regulação e propagandeou-se isso. Como o estado não regula bem em Portugal, sucedeu por cá que a liberalização das coisas foi ainda maior. Aliás, note-se, em tal processo não foram ofendidos direitos constituídos. Por exemplo, actualmente toda a gente continua a ter o direito de cirandar. O diesel está mais caro, está bem, mas o direito de circulação permanece. Portanto, o problema é um problema de custo, não é um problema de liberdade. Quem quiser deslocar-se pode deslocar-se. Se não de carro, a pé. À vontade. Ninguém está proibido de andar descalço. Nu é que é um caso já mais complicado. Nicky Florentino.

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Dias de. Se há um dia de classe - o dia do trabalhador -, se há um dia de nada - o dia do corpo de deus -, se há um dia de não se sabe bem quem - o dia de todos os santos -, também pode haver um dia da raça, qualquer que seja o pedigree. Segismundo.

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2008-06-06


Diário de um dromocrata, ii. Heart it races, na áum nunca devagar. Segismundo.

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Safari, ii. Em termos essenciais, para os desgraçados a política é a consequência da tensão entre o direito à vida e o custo de vida. Segismundo.

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Česká didaktika. Disse ele, o mestre, ao seu pupilo, gosto quando confundes perseverança com teimosia, porque, para emendar-te, tenho que bater-te. O Marquês.

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2008-06-05


Imperativo mor(t)al. Imagina o mundo salubre, sol todos os dias, nunca calor demasiado, gajas sensatas. Agora escolhe, ou Echoes, Silence, Patience & Grace ou Viva la Vida or Death and All His Friends, não há mais ou outras hipóteses. A escolha é obrigatória e a ilha é toda tua, só tua. Ninguém mais no horizonte. Está bem, está bem. Morreremos juntos, na mesma agonia, sem partilhar a agulha. Não faz mal. Se um gira-discos não chega os para dois, cada um fica com o seu ipod. Segismundo.

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Página do livro dos googlemas. Pois, autorização para se ausentar de albergue - modelo?, só a morte. Segismundo.

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Verde código verde, ii. Vamos lá a ver, já cá não estar quem falou não é o mesmo que voltar à vaca fria. Segismundo.

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Página do livro das latitudes, xvi. A sensação de amanhecermos faz-nos comuns, embora as manhãs sejam uma questão de timing e idiossincrasia, isto é, de cada um. Segismundo.

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2008-06-04


Escala de Yossarian, iii. Saber se o mundo atravessa a cabeça ou se a cabeça é ou está fechada é o princípio da loucura de que ninguém sai. Segismundo.

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Escala de Falstaff, i. Também tu?, Bushmills. Segismundo.

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Diário de um dromocrata, i. We Are Wolves a duzentos à hora. Segismundo.

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O tipo de violência doméstica que os jornais não noticiam. Primeiro manietou-o, mãos nas costas, como um condenado. Ele consentiu. Os maridos tendem a consentir. Depois ela deitou-se e, lambe-me as feridas, queres?, ofereceu-lhe o corpo. Ele debruçou-se com dificuldade sobre ela. Antes ajoelhou-se. Ela abriu as pernas. Ambos nus. Ele começou a passar a língua sobre a pele dela, perseguindo-lhe as cicatrizes. Peito, torso. A manobra não era fácil, o peso dele impedia-o de movimentar-se consoante a vontade. Ela colocou uma mão sobre a cabeça dele, empurrando-a, ao mesmo tempo que deslizou o seu corpo sob o dele. Quando ele estava ao nível do umbigo, ela empurrou ainda mais a cabeça dele. Ele correspondeu ao gesto dela, arrastou o corpo, para evitar o excesso de pressão na sua cabeça. Agora ele estava apoiado sobre o seu peito apenas. Ela permanecia diante dele, com as pernas abertas. Ele esticou o pescoço e meteu outra vez a língua fora da boca. Ela fechou as pernas e, com as duas mãos, agarrando-lhe o cabelo com força, puxou-o contra si. Ele debateu-se, tentou soltar-se. Ela, enganei-te, isso não é uma ferida, guloso, asfixiou-o e gemeu, como as mulheres às vezes gemem, de gozo. O Marquês.

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2008-06-03


A cartilha álacre. A voz do senhor dr. Manuel Alegre é grave, tonitruante. E através dela é muito bem sacado o argumento de autoridade da senectude, andar aqui há mais tempo do que outros e ter lutado pela liberdade durante a noite longa do Estado Novo, quando os outros eram menores ou ainda não tinham sido paridos. A criatura sabe do que fala e, caso seja necessário, versejará sobre o assunto, usando o esquema da rima emparelhada. Mas talvez não fosse mal pensado pôr-se a pensar que, se calhar - porque pode não ser certo -, andam aqui outras criaturas a lutar pela liberdade todos os dias, como o senhor dr. Manuel Alegre alardeia, embora sem o amparo do espectro da sua senectude e a afoiteza que tal espectro lhe garante. Claro que, agora, estes mais novos - e outros - lutam pela liberdade sem falar desde Argel ou em comícios da esquerda não se sabe bem qual, aquela. Pobres coitados. Melhor é que estejam quietos e calados, para ouvirem troar a voz antiga do bardo dos soltos e dos solidários e acenarem a concordância com a cabeça, como aqueles cães que quase já não se vêem na parte de trás dos carros. Cante-se, pois, a uma só voz, a voz do senhor dr. Manuel Alegre, a voz de todas vozes que clamam justiça social e não leram Rawls ou Walzer ou Dworkin. Se alguém quiser igual direito à voz e à autoridade da voz do senhor dr. Manuel Alegre que, antes, envelheça ou vá num DeLorean até ao passado sofrer as agruras que os do contra sofreram no tempo da ditadura. Ou isso ou o silêncio. É mais ou menos a doutrina que o senhor eng.º José Pinto de Sousa também gosta muito e recomenda. Nicky Florentino.

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Elas andam aí e outros pormenores importantes. É curioso que se vejam as quotas nas listas de candidatura a órgãos políticos como sendo para mulheres, ainda que, quotas para mulheres, entre aspas. É curioso que não se vejam tais quotas como sendo para homens e mulheres. Ou que não se vejam tais quotas como sendo para mulheres com curso de licenciatura, no mínimo. É curioso ainda que seja assinalado o facto de a senhora dr.ª Manuela Ferreira Leite ser mulher e presidente de um partido político com coturno parlamentar em Portugal, sem que o dispositivo das quotas tenha sido convocado para o efeito. Se o novo presidente do psd fosse homem, não seria curioso. Se isso, também não aludir-se-ia às quotas para mulheres. Seria, conceda-se, o costume. Natural, como costuma dizer-se. E, sim, é verdade, on ne change pas la société par décret, como afirmou Crozier. É mais ou menos como com os jacarandás em Lisboa. Os jacarandás não lêem o Diário da República ou o Diário da Assembleia da República. Mas alguém os plantou ou semeou ou o caraças, para que agora sejam notadas as suas flores. Parece que então utilizaram alfaias adequadas ao caso, coisa bruta. Mas que interessa agora, diante das flores dos jacarandás, lembrar picaretas, enxadas e pás. Agora faz-se tudo com máquinas. É mais natural. Quanto ao resto da tese do Francisco, nada a declarar, excepto que surge recomendável refrearem-se as expectativas. Até porque, aqui entre nós, o Francisco e os danados, o nosso maior problema é antigo, mesmo que não pareça, é homem e chama-se mister Jesualdo, seguramente o melhor treinador de curling sobre relva de todos os tempos. Nicky Florentino.

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Páginas do livro de googlemas. Quê?, albergue de juiz de fro? De juiz, aqui, nada, mas de fro, aqui, tudo. Segismundo.

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Portugalé. Um pátio de ilusionistas. Segismundo.

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Escala de Πενθεσίλεια, i. Mais do que o combate entre amante e amado, o amor pressupõe a derrota do amado. Segismundo.

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Bo Diddley is Jesus. Desde ontem mais ainda. Segismundo.

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Tratado de cardiologia, iii. O meu coração é um órgão estreito. Ela escutou-o com atenção. Lá, nós dois ficamos demasiado apertados, compreendes? Depois levantou o queixo, afastando-o da mão fechada sobre o cabo do punhal cuja lâmina estava espetada na mesa. Não, não compreendo, mas quero verificar se é mesmo como dizes. O Marquês.

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2008-06-02


The trolley song. Embora possa não parecer, clang, clang, clang, ding, ding, ding, zing, zing, zing, chug, chug, chug, bump, bump, bump, thump, thump, thump, buzz, buzz, buzz, plop, plop, plop, stop, stop, stop, isso de pretender democracia sem procedimentos democráticos é mais ou menos o mesmo que querer omeletes e mandar pedras às galinhas. Nicky Florentino.

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Página do livro dos googlemas. A vida é feita de muitas ignorâncias tristes. Segismundo.

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Página do livro das sentenças, l. Escrever é errar. Segismundo.

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Verde código verde, i. O mundo é muito grande e nele são muitas dúvidas. Por exemplo, em inglês, wannabe rima mais com anarquia? ou com canguru? Segismundo.

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este é o ícone da sequência noir, tumultos em chaise longue. Edgar da Virgínia.

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2008-06-01


Outro paralelo a propósito de pacotes de massa cotovelinho et cætera. O Jack Bauer não ouve The National, não usa The National. Ponto final. Mas há quem tenha dificuldade em encaixar o facto. A dificuldade é tanta que a rampa da contraposição levanta a fasquia a tal altura que chega a invocar-se Foo Fighters porque um desgraçado chamado Kurt Cobain finou-se encharcado na própria miséria. Na evolução estimada do argumento, está aqui está a invocar-se os New Order ou os Def Leppard, estes porque o baterista é maneta - em rigor, é mais do que isso, não tem o braço esquerdo. Repetir versos utilizados meia dúzia de anos antes não é analepse, coisa que danado que se preze não sabe o que é. Também não é catacrese, tropo de foro semântico - a analepse, como a prolepse e o zeugma, ó, o zeugma, são tropos de foro sintático -, que nenhum danado sabe o que é também. É repetição. Pode chamar-se-lhe estilo. Está bem. Mas estilo é coisa de manso. O Jack Bauer, por exemplo, nunca repete a tortura, aprimora-a. É nisto que está a diferença, na progressão. Porque, na prática, as canções paneleiras dos The National são um analgésico com estatuto semelhante ao paracetamol. Fraquinho, fraquinho, recomendado para resolver dores de cabeça, não a cabeça. E vá, vai lá ouvir The Wombats. Segismundo.

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2003/2017 - danados (personagens compostas e sofridas por © Sérgio Faria).