2005-05-31
Manifesto do partido patriótico. O senhor presidente da República anda entretido com as políticas. Vai daí decidiu rogar espírito patriótico aos parceiros sociais - confederações patronais e sindicatos -, porquanto, no seu juízo, é esse denominador gregário que permite “transformar as incertezas da hora presente em razões de confiança no futuro, assentes na co-responsabilização, no realismo e na solidariedade”. Na prática, o senhor dr. Jorge Sampaio, com um altruísmo impecável, pediu aos representantes de determinados segmentos sociais que abdiquem dos interesses específicos associados à respectiva condição em prol de uma comunidade imaginária chamada Portugal. Que ninguém sabe muito bem o que é, onde começa e acaba. Esse rogo, como é óbvio, tange o limite do patético. Porque o capital e o trabalho são, por serem, sem pátria. Sem espírito. E apenas interesses. Sem pátria. E sem espírito. Nicky Florentino.
Vigil in a wilderness of mirrors. Um gesto de mão, como acto de croupier, domador de espelhos, daqui para aqui. Segismundo.
Diálogo com o louco do fim da rua. Senhor António, posso fazer-lhe uma pergunta?, se não é indiscrição. Ele, pode. Senhor António, o senhor por acaso é terrorista? Ele, não, por acaso não sou terrorista, mas se fosse também não lhe ia dizer que era. Senhor António, á pois é... mas o senhor não é terrorista, pois não? Ele, não, não sou. Senhor António, mas se o senhor fosse terrorista não me ia dizer que era, pois não? Ele, não, não lhe ia dizer. Senhor António, então isso quer dizer que o senhor pode ser terrorista, não é? Ele, sim. Senhor António, não leve a mal, mas então tenho que ter mais cuidado consigo, não é? Ele, é. Senhor António, com uma inaudita vontade de se afastar dele, olhe, se não se importa, dê lá cumprimentos meus ao seu paizinho e à sua mãezinha e à sua irmã e ao seu irmão também. São muito boas pessoas, não são? Ele, são como eu, é o mesmo sangue. Senhor António, com um sorriso de quem não se deixa enganar, não são nada... Segismundo.
Em casa da mãe. Antes havia almoço para ele. Antes sabiam que ele gostava de sopa de agrião. Agora há apenas almoço. Se queres, queres, se não queres, cheira e deixa. É isto começar a pôr um filho na rua. Segismundo.
Passos em volta. Passos. Para lá. Passos. Para adormecer as vozes interiores. Para calar todas as vozes. Passos. Sobre o mesmo chão da mesma avenida. Até à mesma distância. Passos. Sob a escolta da mesma companhia. Os mesmos animais das mesmas noites, a lua, o silêncio, a coruja, a solidão. Passos. Para cá. Passos. De volta a casa. Ao lugar chamado corpo, ao lugar chamado fome. Passos. E, depois, ainda, subir as escadas. Segismundo.
Resexistência. Parte da memória é fisiológica, arquivada, entranhada na carne. É por isso que o corpo, feito, se faz contra o tempo. Segismundo.
2005-05-30
Arcana imperii. A política é uma tentativa de domesticação da besta humana através de ocultos e de espectros secularizados. A democracia é a via irónica e trágica dessa tentativa. É por isso que a União Europeia é
Europe, mon amour. Em política, raramente os resultados de eleições ou de referendos significam mais o fim do que quer que seja do que a sua continuação, o seu prolongamento. Por isso, é provável que o resultado do referendo sobre o tratado constitucional europeu acontecido ontem em França a mais não obrigue do que a um compasso de espera. Até ao próximo referendo sobre o mesmo tópico. Até que sim. C'est la vie. Nicky Florentino.
Página do livro das latitudes, iv. Em alguns gestos há urgências que se ultrapassam com a lassitude suficiente. Segismundo.
Orgy in rhythm, ii. O ritmo descobre-se sob?, sobre? ou com o silêncio? Segismundo.
The man who wasn't there. Ao mesmo tempo que ele via, puta
Dos afectos e demais inclinações. O amor ou é a doer ou não é. O Marquês.
2005-05-29
Na Europa das línguas faladas. Não, não ganhou o não, ganhou o non. Nicky Florentino.
La
A panela ao lume e o arroz está cru. É pungente a prosa do senhor dr. Pedro Santana Lopes, estampada na edição de hoje do Diário de Notícias. Tanto pelo tino quanto pelo desatino que revela. Nicky Florentino.
Reflexo condicionado. Aqui, neste tugúrio sem tecto, sem chão, sem paredes, invejamos este espelho pela subtileza e pela elegância que consegue. Segismundo.
E paz. Porque quando choras é o mar que te sai dos olhos, disse-lhe ela. Segismundo.
Guerra. Ele, às vezes solto as palavras com demasiada facilidade. Ela, não é esse o problema, o problema é que, quando saem de ti, muitas vezes as palavras são já corpo, corpo jogado para ferir, para matar. Segismundo.
Morte lenta. Adiar o corpo por amor é adiar a sentença que já lhe
Orgy in rhythm, i. Há apenas dois modos de sair da puta da vida pelo corpo. Um desses modos é utilizando o ritmo. Segismundo.
2005-05-28
Oui. Euro lex, sed lex. Nicky Florentino.
Non. Ou a vã glória de mandar. Nicky Florentino.
Era só
Como andar de bicicleta. Arremessar pedras, zás!, contra vidros, trau!, não se esquece. Segismundo.
Ganhar corpo. Onde estás? é a pergunta que ele deixou de fazer a si mesmo. É isto ser absoluto. Chão de terra. Segismundo.
2005-05-27
Memorabilia. Página vinteeoito da edição de hoje do Público. Vê-se. Antes a poesia era arrojada. E a hermenêutica também. O verso “mais pão para o povo” rimava com “divórcio para todos”. Eram outros tempos. Quando, em faixas largas, para todos verem, era possível escrever apelos cordatos. Como “se não és fascista apoia o divórcio”. Trinta anos depois, a puta da vida está muito mais estreita. Aconteceu o mesmo à política. Nicky Florentino.
Política e dissonância cognitiva. Disse o senhor dr. Manuel Monteiro, “a Constituição europeia não é um familiar que volta e meia nos escreve a dizer vou aí pelo Natal”. Alto! e pára o baile. A malta pode não saber o que raio é essa coisa chamada tratado constitucional europeu. Mas, é de apostar dobrado contra singelo, nem no mais leve juízo do mais manso dos gentios alguma vez foi hipótese que tal coisa fosse um familiar com competência epistolar e simpatias natalícias. Nicky Florentino.
Agenda. Vinteedois de Julho, Lisboa, Anfiteatro Keil do Amaral, Ali Farka Touré. Segismundo.
O caminho dos
O caminho dos magnânimos. Aceitar a derrota. Para depois vencer. Segismundo.
Pessoal e intransmissível. A mãe é dele. O carro é dele. Por algum sortilégio que a ele escapa, tipo comunismo familiar ou o caraças, ela levou-lhe o carro. Como se fosse dela. Porém, dela, no que é e para o que é, é o filho. Não o carro. Do filho. Segismundo.
Ida e volta. Da cidade pequena ao Lux. Do Lux à cidade pequena. Perseguido pelos ecos do concerto de Currituck County e Vetiver. O mundo pareceu-lhe pequeno. Só dele. Só ele. E um pêndulo. Segismundo.
Ofício. Se algo há que, para confirmação, é necessário experimentar-se com as mãos próprias, que seja o sangue morno dos outros. Não o vinho. O Marquês.
2005-05-26
Sintomatologia. Segundo a edição de hoje do Público, o senhor Prof. Doutor Vítor Constâncio começa a ser admitido pelos socialistas como putativo candidato à honra de senhor presidente da República. É confrangedor o ponto de distúrbio que alcança a puta da crise. Nicky Florentino.
A democracia como
A hipótese do desperdício. Disse o José Luís, levares isto, para oferecer a ela, vale-te doze pontos. Ele levou. Para a impressionar. Mas depois o seu raciocínio foi tomado por uma dúvida. Assim, óquei... doze pontos...
Cotação. Aqui, neste, custa quase nada. Uma pequena dor, talvez. Ou uma pequena maldade. Custo isento de qualquer emolumento, taxa ou simpatia. Tipo free shop. E é a andar. Segismundo.
Prazeres. Sugerir aos outros uma visita ao Lux, hoje à noite. Levá-los. Ao engano. Embora, ainda assim, ao Lux. Depois ouvir as reclamações ou repreensões. Provavelmente veementes, algumas. Mas sem sequer ter a disposição de as atender. Por já nada haver a fazer. A não ser continuar. Voltar para casa será hipótese apenas depois do engano consumado. Nunca antes. Segismundo.
Despojos. Vieram e armaram as bancas. Venderam. Vieram e carregaram víveres e outros produtos. Compraram. Depois, já depois do fim do mercado, sob o sol inclemente do post meridium, um velho, com equilíbrio tolerado por uma bengala, veio e escrutinou demoradamente o chão, revolvendo os destroços do comércio tradicional, procurando restos do mercantilismo que lhe valessem. Por três vezes o velho recuperou algo do chão, soprou e limpou esse algo com a mão livre para, depois, o acondicionar no bolso do seu casaco preto. Foi-lhe difícil o regresso. Foi-lhe penosa a subida das escadas. Durante essa manobra, mais próximo, percebeu-se-lhe o rosto cozido pelo tempo longo. Percebeu-se-lhe o rosto congestionado pelo calor. Percebeu-se-lhe melhor a pobreza. Mas, em simultâneo, lia-se-lhe nele e no modo dos seus gestos a vontade de
Ainda noite. Ela não lhe respondeu. Fingiu, sem fingir, não ter ouvido a sua pergunta. Fingiu, sem fingir, não estar ali. Fingiu não fingir, dormindo
Noite. Ele olhou o satélite vigilante, cheio, claro, e perguntou em silêncio, serias capaz de suportar a lua?, sozinha. Ela não lhe respondeu. Segismundo.
2005-05-25
Cândidos. A harmonia e o conserto da pátria podem suscitar aos gentios uma sensação de miséria. Mas, crêem eles, tudo corre e há-de correr pelo melhor. Ou não fosse o senhor primeiro-ministro desta falua chamada Portugal um autêntico Pangloss. Nicky Florentino.
ImpostosobreoValorAcrescentado. Em três anos, de dezassete para dezanove, primeiro, e de dezanove para vinteeum, depois. É isto progredir na carreira? ou subir de escalão? Nicky Florentino.
Fé, esperança e caridade. É isto o máximo possível do optimismo antropológico. Segismundo.
Tabu. Isso não, é do meu tio, sussurrou uma voz
Indecent proposal. Foi o que ele não fez ontem. Devia ter feito. Para conhecer, se não, se sim, a resposta. Segismundo.
O lado negro da força. É a insustentável leveza do amor. Antes fosse a litost. Segismundo.
Página do livro dos segredos, v. A dieta dos anoitecidos. Nêsperas, cerejas, pêssegos. E, para não esquecer o pecado, maçãs. Os outros dormem a madrugada. Segismundo.
2005-05-24
Operação coração. O saneamento das finanças públicas há-de vir aí. Fatal como o destino. Mas não é o Governo que o vai custear. O Governo existe para governar. Os gentios existem para pagar. E para serem do Benfica. Portanto, que seja ordenada a presença dos benfiquistas na tesouraria do respectivo bairro fiscal. Seisvírgulaoitentaetrês a dividir por sete milhões
O governo in. O défice público não decorre do mau governo. Não. A pátria é ingovernável. O facto está documentado desde as brumosas auroras de Viriato. Um romano qualquer já havia dito que os autóctones da última flor do Lácio nem se ordenavam nem se deixavam ordenar. Mas, se assim é, por qual raio ainda hoje susbsite por cá o simulacro das eleições legislativas e consequente constituição do Governo? É que mortificação política maior não há. Nicky Florentino.
Porque a vida é uma única canção, November spawned a monster.
Sleep on and dream of Love
Because it's the closest you will
Get to love
Poor twisted child
So ugly, so ugly
Poor twisted child
Oh hug me, oh hug me
One November
Spawned a monster
In the shape of this child
Who later cried:
«But Jesus made me, so
Jesus save me from
pity, sympathy
And people discussing me»
A frame of useless limbs
What can make GOOD
All the BAD that's been done?
And if the lights were out
Could you even bear
To kiss her full on the mouth
(Or anywhere?)
Oh, poor twisted child
So ugly, so ugly
Poor twisted child
Oh hug me, oh hug me
One November
Spawned a monster
In the shape of this child
Who must remain
A hostage to kindness
And the wheels underneath her
A hostage to kindness
And the wheels underneath her
A symbol of where mad, mad lovers
Must PAUSE and draw the line.
So sleep and dream of love
Because it's the closest
You will get to love
That November
Is a time
Which I must
Put OUT of my mind
Oh, one fine day
Let it be soon
She won't be rich or beautiful
But she'll be walking your streets
In the clothes that she went out
And chose for herself. © Morrissey. Segismundo.
Paisagem. As meninas sentaram-se, descalçaram-se, arrumaram-se no banco como princesas, cada uma tirou um livro da respectiva sacola, trocaram algumas palavras, palavras de circunstância, sorriram e começaram a ler, indiferentes ao sol, aos putos que passavam com alarido, ao senhor António que as espiava. Eram estranhas as meninas. Falavam Francês. Segismundo.
Credo e fuga. Por que é que não acredito em fados?, porque acredito em fadas, disse-lhe ela. Segismundo.
Página do livro das sentenças, xiv. Errar é falhar um degrau e não cair. Segismundo.
2005-05-23
Seisvírgulaoitentaetrês. Há-de haver uma explicação. Antes não se sabia qual seria o raio do rácio do défice público. Foi preciso constituir uma comissão para o calcular. Os da tal comissão, porém, falharam. Parece. Pois, fenómeno inaudito, conseguiram estimar o dito cujo acertado apenas às centésimas. O que é ridículo. Pois de boa e melhor ciência era conseguir acertar o número até à sexta casa decimal. Nicky Florentino.
À sombra de. Touche pas à la Femme Blanche, a vida dele é um ensaio de si ainda mais absurdo. Segismundo.
Long play. O título da vida dele voltou a ser if i should fall from grace with god. Segismundo.
2005-05-22
Folclore e ave de rapina ao peito. Há triunfos que não disfarçam, antes revelam, a miséria em que se suportam. A dos vencedores. E a dos outros. Nicky Florentino.
Se celulóide. A vida dele tem uma legenda, mes nuits sont plus belles que vos jours. Segismundo.
2005-05-21
Uma questão de hidráulica. Segundo algumas vozes ultramontanas mais assanhadas cá da pátria, quem está para nascer não deve ser abortado porque é gente em potência e, nascido, tem direitos consignados. Entre eles o direito à educação sexual. Não a sua, mas a dos seus pais. Porque, esse, é um direito que calha ao nascido apenas por herança. Não por nascença. Nicky Florentino.
Dificuldade. O ódio devia ser fácil. Como a paixão. Segismundo.
2005-05-20
Dúvida. O senhor dr. Durão Barroso ainda conta como fulano português? ou já só conta como senhor presidente da Comissão Europeia? Nicky Florentino.
Quem? Depois dos sinais, no horizonte desfilou um cortejo fúnebre. No café percebeu-se a curiosidade e a inquietude. As mulheres, ávidas, começaram a disputar a identidade do levado. Que era rapaz ainda novo, apesar dos seus setenta e tais anos, foi o consenso entre elas. Porque, embora não tenham dito, se a vida envelhece e mata, a morte rejuvenesce. C'est la vie. Segismundo.
Página do livro das sentenças, xiii. As faltas (pre)enchem-nos mais do que os outros. Segismundo.
O (de
Página do livro das sentenças, xii. Em qualquer casa de bem, é condição desse predicativo, há maçãs. Todos os dias. Segismundo.
Agenda. Hoje, Santiago Alquimista, vinteetrês horas, Perry Blake & Band. Segismundo.
Pretérito
2005-05-19
Artes de circo. Quando alguém, como o senhor eng.º José Sócrates, se diz “preparado para tudo”, não é boa notícia. É que preparado para tudo, como dito, significa absolutamente capaz e disposto. Ora, em política, ninguém é assim tão bom malabarista ou ilusionista. Pelo que alguém vai ter que pagar a preparação do fulano. É uma das regras do circo. Este. Chamado pátria. Nicky Florentino.
Depois de Lavoisier. O senhor dr. Santana Lopes foi entrevistado pelo CanalUm da RádioTeelvisãoPortuguesa. Aconteceu como acontece com os iogurtes. O respectivo prazo de validade expira, mas, mesmo assim, há quem os coma. Antes fazer mal do que estragar-se. É também um bom princípio em política. Nicky Florentino.
Agenda. Hoje, Lisboa, Espaço da Mitra, vinteeduas horas, A Montanha da Água Lilás, em adaptação e encenação de Natália Luiza. Segismundo.
Auto de fé. Viridiana, não entres tão depressa nessa noite escura chamada culpa. Segismundo.
Página do livro das latitudes, iii. A solidão é uma sensação spleen, simultaneamente cativeiro e horizonte. Enquanto horizonte liberta-nos furtivamente dos outros. Enquanto cativeiro encerra-nos na experiência da sua ausência. Segismundo.
Canções para casamentos e funerais. Porto. Casa da Música. Goran Bregovic. E a culpa, estranhamente entranhada nele, por não se estenderem os momentos do concerto. Foi como morrer, embora sem morrer. E regressar. Segismundo.
2005-05-18
Excessos. O esboço de um despacho governamental foi encontrado nas instalações de uma empresa interessada no referido despacho. Este facto não parece indiciar excesso de Estado. Parece indiciar, sim, excesso de empreendedorismo. E de
Identidade. Não, isto é a homeland, respondeu um dos autóctones. Segismundo.
Jogar às culpas. Ele estava a trabalhar. A mãe irrompeu e interrompeu-o com o ensaio de um inquérito. Soube-te bem o lanche?, os morangos estavam bons?, perguntou-lhe ela. Ele olhou-a durante um breve instante e voltou a fazer o que estava a fazer, escrever um ensaio inútil. Não lanchei, não comi morangos, informou-a ele, seco. Estás à espera que eu acredite nisso?, sondou a senhora sua mãe, dando um tom indignado à interrogação, queres convencer-me que os morangos desapareceram misteriosamente? Não, não, respondeu ele às duas perguntas. Depois acrescentou, já há alguns anos que quem tem essas competências cá em casa são as pequenas bestas devoradoras. O quê?, os teus sobrinhos estiveram cá?, quis a mãe dele saber. Não, estiveram cá as tuas netinhas e o teu netinho, pronunciou ele. Á!..., abafou ela a sua exclamação, e ele voltou a ficar sozinho, com a respectiva culpa. Segismundo.
Alteridade. É isto a otherland?, perguntou o stranger in a strange land. Segismundo.
Página dos segredos, iv. Tender is the Night, de F. Scott Fitzgerald. Entre gatas. Não se sabe porquê. Segismundo.
Porque a vida é uma única canção, Poison.
It was one of those black cat nights The moon had gone out and the air was thin It was the kind of night that the cat would drag in. I'll never forget it, we had a fight. Then you turned around turned on the light. You left our bed. Then you moved downstairs to live with her instead. Yeah just one floor and a shout away, I guess I should have moved but I decided to stay. Did I drink some poison that I don't remember now? And every night I open all the windows I let a cold dark wind blow through. I play loud organ music and I talk to myself and dream of you. Uh oh! I hear voices coming up through the pipes through all the springs in my bed and up through the lights The volume goes up then it drops back down I can hear the two of you playing records moving furniture and fooling around. Did I drink some poison that I don't remember now? Is there blood on my hands? No, my hands are clean. Did I do something in another lifetime that was really really mean? Yeah, I'm hearing voices. Am I losing my mind? Think I'm going crazy, I gotta get out. I run into the street and I start to shout Get out of my way! Get out! Get out! Did I drink some poison that I don't remember now? Is there blood on my hands? Did I do something in another lifetime that was really really mean? A small bullet, a piece of glass And your heart just grows around it. © Laurie Anderson. Segismundo.
Memória. Prata sobre o suicídio de Ian Curtis. Segismundo.
Jesualdo, o herói que nunca mais voltou. Há muitos, muitos anos, a um tal Jesualdo, carpinteiro de mãos e por ofício herdado, aconteceu-lhe um dia, em razão das suas afirmadas manias, ser cravado numa trave, padecer, perecer e ser sepultado. Passadas poucas luas, o cadáver ressuscitou. Ninguém testemunhou a ocorrência, mas a carcaça animada saiu do túmulo onde, em mortalha, havia sido posta para o seu eviterno e sepulcral descanso. Depois, diz-se, demandou Jesualdo, ressuscitado, uma vassoura. Serviu-lhe a primeira que encontrou. Colocou-a entre as pernas, como se montasse um pégaso, e, sobre ela, voou para o céu, já domicílio de um dos que se proclamava seu pai. Houve olhos, olhos de gente que já não vê, que viram essa ascenção. E esse foi o último dia em que Jesualdo foi visto. Desde então não voltou a ser observado, fosse com os pés sobre a terra, fosse com a cabeça entre as nuvens. O que significa que, entre os vivos, cada vez mais o seu nome é invocado em vão. É isso que dói. O Marquês.
2005-05-17
O bingo democrático. Actualmente, o mais que se pode fazer pela democracia é admitir que as eleições, para além de serem uma maçada, são uma mistificação e, neste sentido, uma fraude. É que cada vez mais o exercício de voto não é a expressão do povo soberano e a forma de equalização política dos gentios. Como observou Bernard Manin, com a recomposição sócio-política das sociedades do noroeste, as eleições, não obstante o seu potencial subversivo, são quase sempre um mecanismo de confirmação do triunfo daqueles que já foram eleitos por qualquer outra via, designadamente a via do star-system político. É por isso que o modo adequado de substituir a aristocracia democrática não são as eleições, mas, sim, o sorteio. Tomando como critério para o escrutínio de quem assoma a honras públicas ou de Estado não o rateio eleitoral mas a sorte da tômbola, conseguiria garantir-se não apenas a igualdade de condição de todos os candidatos mas também a igualdade de oportunidades entre eles. Por outras palavras, a democracia deve ser tão preservada quanto possível do povo. Só assim é democracia. Só assim os efeitos políticos das arbitrariedades e dos desvarios do juízo dos gentios seriam anulados. E só assim derradeiramente o povo deixaria de enganar-se. E ser enganado. Nicky Florentino.
Governo, governaço, governão. A ideia de que a soberania está depositada nessa ficção chamada povo é uma ilusão perigosa. Pois acontece que empiricamente a democracia é sobretudo um regime de sorte. E de azar. Onde o governo é tipo melão. Apenas a posteriori é que se sabe o que lá vinha. E o que, pumba!, lá veio. Nicky Florentino.
A batota. O défice orçamental é o jackpot. Os economistas e os engenheiros, alguns, todos juntos, são os jokers. É por isso que neste jogo, qualquer que seja o resultado, é sempre a perder. Agora ou depois. Nicky Florentino.
Em compensação, ii. E, para que conste, aqui também nada há a declarar sobre a dissonância cognitiva com sabão ou a emigração dos flamingos. Segismundo.
Em compensação, i. É muito, não tudo, o que sabemos sobre o pecado capital chamado preguiça. Porém, aqui, neste tugúrio, sobre tal tópico, ai que acédia..., nada há a declarar. Segismundo.
Até que parta. Volta a repetir-se. Os danados são maus. Nada sabem de simpatias. De simpatias para afinar a cintura ou quaisquer outras. Segismundo.
Mundos paralelos. Um, porque anda a ouvir canções, lembrou-se de lobos. O outro, porque anda a ver filmes, lembrou-se de um cão. Doidos é
Zeit. Ele chegou atrasado. Percebeu a tensão. Mas já levava preparada a banda sonora para a situação. Time is on my side. O problema, o único problema, é que essa canção soava apenas dentro dele. Era íntima. Segismundo.
As horas e os dias ao contrário. O imaginário ordinário ordena o tempo em relação ao corpo. Segundo tal gramática, o passado está atrás, o futuro está à frente. Mas isto, assim cartografado o tempo, é uma ilusão. Pois há uma incógnita a considerar neste exercício, a disposição do corpo. É por isso que tantas são as ocasiões em que, sem consciência da condição volante do corpo, o futuro está atrás e o passado está à frente, embora a certeza fenomenológica do tempo o faça dizer ao invés. Segismundo.
2005-05-16
A hodierna impotência da política. A política é uma espécie de vão, intervalo, que, sob a ilusão de uma esperança gregária, permite formas de acção com alguma capacidade de condicionamento e orientação das lógicas e das dinâmicas dos processos sociais. Cada vez mais, porém, esse vão, esse intervalo, vem sendo cobardemente apertado a partir de dentro. A relevância dada ao défice orçamental é um exemplo das estratégias de auto-contracção - e de auto-contrição - da potência política. É por isso que, em acto, a política, menos do que uma arte, cada vez mais se configura como uma técnica. De engano. Por e para enganados. Nicky Florentino.
Na jukebox. “Love will tear us apart” (original dos Joy Division), pelos The Cure. Porque, mania, gostamos de baralhar e voltar a dar o mesmo, embora diferente. Segismundo.
Como o destino, iii. Porquê?, porque o que tem que ser tem muita força, explicou o Jacques. Segismundo.
Como o destino, ii. Que fazer?, perguntou o Vladimiro. Nada, respondeu o Jacques. Segismundo.
Como o destino, i. E poderia ter sido diferente?, quiseram saber os outros. Não, sentenciou o Jacques. Segismundo.
Composição e corpo. O sinal da redenção não é a chuva. São os braços cheios de quem não têm. Segismundo.
Crónica de um caso acontecido. Ele chegou a casa. Estava lá alguém, uma mulher, que não devia estar. O resto do caso respeita exclusivamente à intimidade das personagens. Para satisfação da curiosidade alheia é bastante saber-se que houve derrame de sangue, suor, sémen e lágrimas. O Marquês.
2005-05-15
Se até os monstros são nossos amigos. O caso dos sobreiros de Benavente convenientemente talhados por lâminas de moto-serras suscitou entre algumas almas da província dextra um argumentário interessante. Escreveu-se para aí que o problema, se problema for, não foi motivado por um lapso de juízo ou hombridade de uns fulanos que passaram por senhores ministros. Não. O problema foi motivado por um excesso de Estado. É curioso baralhar o caso nestes termos. Porque, como posto, o libelo de excesso de Estado é também, mesmo se não raciocinada, uma acusação implícita ao Estado de direito. E porque pretende que a lei do dinheiro é mais imaculada ou inocente do que a lei do Estado. Seja como for, o problema não é, por jamais poder ser, um problema de excesso de Estado. O problema, se é problema de excesso, ou é um problema de excesso de chaparros na zona ou é um problema de excesso de boa vontade e teimosia do titular do empreendimento que pretende substituir o montado por pasto próprio para a prática de golf e outros desportos radicais. Problema de excesso de amizade é que provavelmente não é. Porque os amigos, esses, os bons, nunca são demais. E são para as ocasiões. Nicky Florentino.
The wild palms. O problema autárquico do PSD não é patrocinar a candidatura da senhora dr.ª Isabel Damasceno à Câmara Municipal de Leiria. Também não é o facto de o senhor dr. Isaltino Morais e o senhor Valentim Loureiro insistirem em candidatar-se a igual honra em Oeiras e em Gondomar, respectivamente, sem o beneplácito do ícone da trupe que outrora os alcandorou em senhores autarcas. O verdadeiro problema autárquico do PSD é um problema menor, a candidatura do senhor Octávio Machado a senhor presidente da Câmara Municipal de Palmela. Como já uma vez foi dito a propósito de outro caso, acaso o fulano vença, é como trocar uma Mona Lisa por um mono luso. E disso não há necessidade. Política. Ou qualquer outra. Nicky Florentino.
Conta-me estórias. Ela, a nossa estória é uma estória muito estranha, não é? Ele, é, tu és a Joaninha, eu sou o João Ratão; tu sobrevives, eu morro. Ela, que estória preferias que fosse? Ele, a estória do lobo mau que come o Capuchinho Vermelho, antes de os caçadores o abrirem, tirarem de dentro de si o Capuchinho Vermelho, meterem lá uma pedra e lhe coserem a barriga. Ela, e porquê essa estória?, assim? Ele, porque suspeito da competência cirúrgica dos caçadores e o meu umbigo é muito bonito. Segismundo.
Captações, xxix. Em Gedichte.
“O ANJO SEM SORTE. Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do voo do olhar do sopro. Até que novo ruído de portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu voo”.
Página do livro das maravilhas, vi. O texto “O meu querido e odioso irmão”, escrito por uma sobrinha dele. Segismundo.
2005-05-14
Ou guerra ou jogo. Em democracia, mais do que saber ganhar ou vencer, o importante é saber disputar pelejas políticas. Pois nem sempre o vencedor é quem triunfa. Nicky Florentino.
Porquês? em Português. Por qual raio é que na edição de hoje do Expresso uns quantos escreveram que o Ivo fumou um charro?, se podiam ter escrito que ele fumou uma ganza. É por mania ditada pelo livro de estilo? ou é uma questão de simpatia lexical? Segismundo.
Dieta de cabeça de nabo. Hoje houve quem não tivesse ido a Tomar, ao congresso da sopa, para almoçar em casa e ler o artigo do senhor Prof. Doutor João Carlos Espada. Segismundo.
Página do livro das maravilhas, v. Durante metade de um milésimo de segundo, a cornus canadensis abre as quatro pétalas que compõem a sua flor e os respectivos estames projectam os seus grãos de pólen até vinteedois centímetros de distância. Segismundo.
Poética. Ela pegou a garrafa, exibiu o rótulo e perguntou, Ruy Belo?, gostas? Ele, não, prefiro Bushmills. Segismundo.
2005-05-13
O opinador. O senhor dr. Paulo Portas fez publicidade ao facto de ainda estar a formar opinião sobre uma confusão qualquer relacionada com as rúbricas de uns fulanos do CDS/PP outrora ministros e um ror de escutas telefónicas realizadas no âmbito de uma investigação implicada com o raio das tais assinaturas. Mas a opinião da criatura é relevante para o caso em que termos?, se o caso é de polícia. Judiciária. Nicky Florentino.
Humanidade. Em termos de condição, é um an o que distingue a besta humana de vestígios de água. Segismundo.
Encontro quando o semáforo vermelho. Por instantes, ele fixou-a, a menina bonita do BMW. Ela acenou-lhe e sorriu. Depois, provocadora, ofensiva, meteu a língua de fora. Havia um equívoco qualquer naquela cena. Ele conhecia a menina. Mas não queria conhecer-lhe a língua. Ela só percebeu isso quando o reconheceu. Segismundo.
Pavlovianas. As três mulheres riram de modo histriónico. Aparentemente o motivo do riso foi um rapaz jeitoso que passou por elas. Mas não, não foi. O verdadeiro motivo dos seus risos de hiena foi o facto de elas serem mulheres. Segismundo.
O livro
Mysterious ways. O senhor pároco que celebrou a missa do sétimo dia pela alma de uma criança recentemente assassinada, durante o respectivo sermão, pronunciou uma afirmação destrambelhada - “matar uma pessoa no seio materno é mais grave do que matar uma pessoa que não se pode defender. Uma menina de cinco anos pode reagir, pode chorar, queixar-se” - e esse facto suscitou levantamentos, alguns assanhados, de umas quantas inteligências da pátria. Não se percebe porquê. É que o raciocínio do fulano, para além de recto, provavelmente está encharcado de espírito santo. Vá lá saber-se. Daí que, sob esta dúvida, não seja muito atinado lançar a primeira pedra e contribuir para a lapidação do juízo do desgraçado. Segismundo.
Pedagogia. Para aprender o que é a crueldade alguém tem que amar outrém. É aí, não depois, que começa a lição. O Marquês.
2005-05-12
Campanha alegre, ii. O senhor dr. Manuel Alegre é o senhor eng.º Joaquim Ferreira do Amaral do PS? ou quê? Nicky Florentino.
Campanha alegre, i. Com quanta simpatia é aqui permitida, diga-se que, no mínimo, é estouvada a hipótese de os socialistas apoiarem a candidatura do senhor dr. Manuel Alegre à honra de senhor presidente da República. Como é que as mesmas criaturas que olharam de soslaio para o fulano e preferiram um engenheiro com ar de artolas como secretário-geral para essa seita chamada PS vão agora recomendar o dito cujo para maioral da pátria? Se tal hipótese se confirmar, há um problema. Ou de juízo. Ou de pudor. Nicky Florentino.
Defeitos especiais. Escreveu o senhor dr. Rui Moreira, senhor economista e senhor presidente da Associação Comercial do Porto, em artigo estampado na edição de hoje do Público, “Serralves tem sido elogiado e contraria o estereótipo do empresário nortenho”. Serralves e empresário nortenho na mesma frase... é isto um oxímoro. Nicky Florentino.
As vésperas de Maria, ó Maria. Um dos acessos à Áum está congestionado. O trânsito flui, se flui, lento. E não é porque outrora, por ali, naquela cova do monte, um círio mariano pairou sobre uma azinheira. É porque a fé não move montanhas, move corpos. Para além disso, se o pasto não vai ao rebanho, vai o rebanho ao pasto. É isto a puta da transumância aplicada aos crédulos. É isto, quando acontece a granel, o estorvo à circulação automóvel. Segismundo.
Tender prey. Aqui, neste tugúrio, somos maus e não padecemos de qualquer virtude teologal. É por isso que a única oração com água benta para limpar os pecados que conhecemos é outra. Não é oração. É sem água benta. E não é para limpar os pecados. Segismundo.
Captações, xxviii. Em Gedichte.
“Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã”.
Agenda. Amanhã, vinteetrês horas, Zé dos Bois, Jackie-O Motherfucker. Segismundo.
Mundo. To a God Unknown e Grapes of Wrath, de Steinbeck, são uma dieta
2005-05-11
Economia e tanatopolítica. Segundo o senhor Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, em artigo de opinião estampado na edição de hoje do Público, “afirmar o reforço da capacidade competitiva das empresas como um objectivo prioritário da política económica portuguesa não tem nada de novo. Há já algum tempo que isso é reconhecido por governantes, economistas e analistas políticos”. É por isso que se lhes deve entregar em mãos, a todos, sob a sua exclusiva responsabilidade, o bilhete de lotaria chamado Portugal. Ou isso ou, então, contratar o Porter. O Cole. Também já cadáver. Nicky Florentino.
Weber aos porcos. Os tipos sociológicos definem perfis abstractos, isto é, são agregados ideais e coerentes de propriedades ou qualidades. Por isso, definir o tipo x - como se, numa determinada população, só um tipo houvesse - e fazer tal definição tomando como referência exclusiva um aferidor estatístico, a moda, é equivalente a fazer omeletas com a limalha resultante do labor de um torneiro mecânico. Um desperdício de tempo. E uma demonstração franca de ignorância. Segismundo.
O mistério do desaparecimento do mandarim. Para o almoço havia pudim. Havia. Antes das pequenas bestas devoradoras terem almoçado. Segismundo.
Relativismo. É saber que partir o pão em partes o multiplica, embora não o faça mais. Segismundo.
O espaço e o tempo das coisas e as relações com elas. Em muitas das pelejas metafísicas parece haver um equívoco na prosa assanhada contra o relativismo. O relativismo, no que os relativismos comungam, não nega ou recusa a existência da verdade. O relativismo, na generalidade das suas vozes, afirma a relatividade da verdade. Segismundo.
2005-05-10
A justiça e a ordem temporal dos gestos aplicados ao caso. Antes do inquérito e do juízo, a pretensão de justiça quieta todos os gestos. Pois qualquer gesto anterior tende à vingança ou à retaliação, formas de pré-juízo. Nicky Florentino.
Comensalidade em idade de já ter juízo. A partir de determinado momento da puta da vida, jantar com a mamã e o papá torna-se uma ocasião de cerimónia. Complementarmente, jantar com os outros torna-se um ritual rotineiro. É por isso que, quando a menoridade é prolongada e um dos domicílios é ainda a casa dos pais, a ausência dos outros é muitas vezes sinónimo de sopa só ou cerimónia completa. Segismundo.
Página do livro dos segredos, iii. Cerejas, quando, de madrugada, chove e os outros estão a dormir. Segismundo.
Página do livro das falências, ii. O problema não é o corpo ser fraco. O problema é o juízo ser corpóreo. Segismundo.
Introdução à sociologia. Leccionar é um exercício fingido de inocência. Entre os gestos desse exercício acontece a sugestão de títulos, a proposta de leituras. Tudo isto devia ser reservado e condensado apenas em ensaios ou dissertações. Mas há sempre um lugar ao lado. Como, por exemplo, adaptar um livro sugerido como iniciação a uma sensibilidade disciplinar inútil, a sensibilidade sociológica, e transformá-lo numa peça de teatro. É isto, o rasgo, o que abre o mundo ainda mais para dentro. Segismundo.
2005-05-09
Mãos à obra. Palavras do senhor Prof. Doutor Francisco Louçã, “criar emprego é uma questão de coragem”. Ou de levitação. Depende da mania. Nicky Florentino.
O
Estética política. Por penhorado contributo do CDS/PP, foi registado na doutrina dos bons modos políticos que não é bonito uma criatura interpôr acções em tribunal contra o município de Lisboa e, depois, ser candidato à respectiva Câmara Municipal. Pois isso é, antes, manobra de filisteu. E de filisteus, está mais do que visto, não gosta a trupe do CDS/PP. Nicky Florentino.
The sound and the fury. Em entrevista estampada na edição de hoje do Público, disse o senhor dr. António Costa, “este Governo ainda não tem dois meses mas, nestas poucas semanas de existência, porém, demonstrou grande determinação e dinamismo em algumas questões essenciais”. E, embora não tenha mencionado o fulano, tudo isto aconteceu em silêncio. Como se não tivesse acontecido. Nicky Florentino.
Ser enganado. É como o outro. Ele, jantar, jantou. Mas a sobremesa a que ele se havia prometido não era arroz doce. Segismundo.
Sidewalking. O Pedro
Página do livro das vontades, vii. Voltar ao passado num DeLorean. Segismundo.
Página do livro das sentenças, xi. Há abraços que são cheios e dentro dos quais ainda se segura a vida
2005-05-08
Se o Estado é um círculo. Em tese, descentralizar é uma boa opção. Aproximar os processos de decisão das criaturas que são directamente afectadas permite ganhos de vária ordem, desde a comunicação à responsabilização, com consequências ao nível da eficácia e da eficiência da acção política e da administração pública. Em Portugal, porém, considerada a ecologia da pátria, tal tese assusta. Fundamentalmente por dois motivos. A escala de referência da acção - e para a descentralização - é uma escala paroquial, o que tende a (re)produzir tanto a pequenez de horizontes quanto a autarcia das unidades territorais. E, a par, localmente o tipo de cultura política dominante é a cultura de subjugação e não a cultura cívica. É por isso que, por cá, descentralizar é sinónimo de desgraça. Desgraça tanto maior quanto desgraçado e mau é o jacobinismo daquilo a que se chama Estado e quanto servil e de conveniências é a dita sociedade civil. Nicky Florentino.
Rádio actividade. Das dezanove às vinteeuma, sem rede, apenas éter. Segismundo.
Porque eles andam aí. O Francisco, porque taquepariu os inventores, está danado. Segismundo.
Testemunho. Ele. Para ela. Não sei a tua força. Sei apenas que a distância não te apaga aqui. Dentro. Segismundo.
2005-05-07
O que tem que ser tem muita força. Não são as mudanças orgânicas entretanto anunciadas que transformam o BE em partido político. O BE já era um partido político. Apenas por conveniência coreográfica foi fingido diferente. Mas diferente, assim tanto, não podia ser. Pois, se fosse, não era. Nicky Florentino.
Página do livro dos segredos, ii. Turandot. Não se sabe porquê. Segismundo.
Porque a vida é uma única canção, The guilty party.
& thanks for branding me a failure
& for destroying what joy I had
The mantles cracked
& turning black
I found out I'm not the man
That I fucking think I am
& you're just like a fucking ghostie
You trouble me when I try to sleep
The sombre way
You held your face
& we can never erase
All the stupid things we say
& I hope that you're dreaming of me
The way I'm forced to dream of you
& so you've won
I'll get the gun
Cos we can never undo
All the stupid things we do. © Matt Elliott. Segismundo.
Por Calouste. Avenida de Berna. O porta-bagagem do carro dele está repleto de volumes. Ele são livros. Ele são catálogos. Ele são posters. Só a pobreza produz tamanha avidez. Segismundo.
Decadência. É ele ver a manhã raiar, rasgar a madrugada, depois de se ter levantado e não antes de se ir deitar. Segismundo.
2005-05-06
Urbanidade. Ele estacionou o carro no Princípe Real, em frente ao jardim daquela árvore. E ficou à espera. Rabiscou umas notas. Entretanto, alguém, uma menina, chegou a casa. Hesitou. Voltou atrás. Foi perguntar-lhe se ele ia sair entretanto. Não, disse ele, só de madrugada. E ela lá foi para casa, anunciando a preocupação por haver estacionado o automóvel no lugar reservado a uma pessoa com deficiência. Azar. Segismundo.
Choque lateral. Antes, isto, não é necessário padecer de sensibilidade semelhante a um rolo compressor para afirmar que o homo consumator compulsivo existe sobretudo no corpo das mulheres, não lhe era doutrina certa. Hoje já é. Ontem, subia ele sossegado a Guerra Junqueiro, a tentar proteger os passos na sombra, quando foi abalroado, duas vezes pouco mais do que quase e uma vez certa e segura, por mulheres que, caminhando ao seu lado, guinaram abruptamente em direcção às montras. Nenhuma delas, senhoras, perfumadas, lastimou o encontro ou rogou desculpas. A última, porém, indignou-se com o desabafo dele, foda-se. Não lhe deram educação?, perguntou ela. Não, deram-me direcção, para não chocar com os outros, respondeu ele. Mas ela não ouviu a resposta. Os seus olhos ávidos já haviam galgado o vidro da montra e consultavam os exemplares expostos. Sapatos, a senhora sentiu o súbito apelo dos sapatos. Segismundo.
Se o diabo é
Sei quem ele é, ele é bom rapaz. Aqui lemos o José. Existe dois anos. Porque ele, embora bom, bonzinho, é solto, um danado. É deixá-lo ser. Segismundo.
2005-05-05
E o mundo ali ao lado. Disse o prior Vítor Melícias, “a felicidade dos idosos é um assunto nacional”. Ou seja, envelhecer é um caso português. Nicky Florentino.
Police on my back. A propósito do agravamento das multas por infracções ao código da estrada e da sua cobrança imediata, disse o senhor dr. Jorge Sampaio, “não podemos viver continuamente na impunidade”. O fulano, para além de ser um senhor exemplo, é um pândego. Nicky Florentino.
Um para o outro. Ao senhor dr. Paulo Portas assenta-lhe bem o papel de cuco. Parece que um tal Donald americano o agraciou com uma insígina qualquer por feitos que não fez. Aliás, mesmo que lhe tivessem sido assacados méritos alheios, ele não se fez rogado. É isto a puta da honra
Dizer o silêncio. Ele, para ela, queres saber o que é a saudade?, a saudade é a falta de ouvir o meu nome bordado pela tua voz. Segismundo.
Página do livro das
Agenda. Em cima de uma das almofadas da cama espera Na Noite do Ventre, o Diamante, de Moacyr Scliar. Segismundo.
2005-05-04
Mão cheia. O senhor dr. José Ribeiro e Castro pretende que o CDS/PP não
Domesticação. Nesta mão está o nome de uma mulher. Segismundo.
Porque a vida é uma única canção, Up jumped the devil.
O My O My
What a wretched life
I was born on the day
That my poor mother died
I was cut from her belly
With a stanley knife
My daddy did a jig
With the drunk midwife
Who's that younder all in flames
Dragging behind him a sack of chains
Who's that younder all in flames
Up jumped the Devil and he staked his claim
O poor heart
I was doomed from the start
Doomed to play
The villians part
I was the baddest Johnny
In the apple cart
My blood was blacker
Than the of a dead nun's heart
Who's that milling on the courthouse steps
Nailing my face to the hitching fence
Who's that milling on the courthouse steps
Up jumped the Devil and off he crept
O no O no
Where could I go
With my hump of trouble
And my sack of woe
To the digs and deserts of Mexico
Where my neck was safe from the lynching rope
Who's that younder laughing at me
Like I was the brunt of some hilarity
Who's that younder laughing at me
Up jumped the Devil 1, 2, 3
Ha-Ha Ha Ha
How lucky we were
We hit the cathouse
And sampled their whares
We got as drunk
As a couple of Czars
One night I spat out
My lucky stars
Who's that dancing on the jailhouse roof
Stamping on the ramping with a cloven hoof
Who's that dancing on the jailhouse roof
Up jumped the Devil and said "Here is your man and I got a proof"
O no don't go O no
O slow down Joe
The righteous part
I straight as an arrow
Take a walk
And you'll find it too narrow
Too narrow for the likes of me
Who's that hanging from the gallow tree
His eyes are hollow but he looks like me
Who's that swinging from the gallow tree
Up jumped the Devil and took my soul from me
Down we go Down we go Down we go
The Devil and me Down we go down down down
Hell fire and flames Down we go Down we go
To Eternity Down we go We go down down down
Down we go we go down down down
Down we go the Devil and me to Eternity
We go down down down down down ad inferno. © Nick Cave & the Bad Seeds. Segismundo.
Página do livro dos equívocos, iv. Cair não é erguer. Se. Segismundo.
Página do livro das sentenças, x. Há palavras que apenas valem, se, escritas. E não ditas. Segismundo.
2005-05-03
Sabe-se lá. Aqui, neste lugar danado, porque a dúvida é semelhante à do João, faz-se a mesma pergunta. Nicky Florentino.
Prudência e tragédia grega. Uma das propriedades mais admiráveis das gentes circunstacialmente entregues a honras públicas é a sua disposição à prudência. O que é bonito. Uma ilustração desta beleza pode ser encontrada nas recentes declarações do senhor dr. Fernando Ruas, manda-chuva da tribo das senhoras e dos senhores das Câmaras Municipais cá da pátria, sobre as miudezas reforma da tributação do património imobiliário que reverte a favor do erário municipal. Disse ele, “no primeiro ano de aplicação de taxas do IMI, os municípios, em geral, de forma prudente, aprovaram as taxas máximas (zero,oito e zero,cinco), dado o desconhecimento sobre o que poderia acontecer no concreto, como resultado da aplicação da reforma”. Como surge evidente, este raciocínio das prudências foi aplicado a coisas das receitas. A desgraça é que, pela evidência empírica disponível, a mesma doutrina prudente parece ser aplicada em relação às depesas. Ou seja, em caso de dúvida,
As faunas d'Estado. Muitas vezes as gentes autarcas, designadamente as senhoras e os senhores presidentes de Câmara Municipal, são uma raça injustiçada. É que, convocado o discernimento, percebe-se que não são piores do que a restante fauna metida em honras políticas ou de Estado. Genericamente, a sua competência estética talvez seja menos apurada ou mais rude e rústica do que a competência estética de quem está em missão de deputação ou de governação. Porém, quanto aos demais parâmetros de juízo, as senhoras e os senhores autarcas tendem a não se diferenciar significativamente destes outros quens. Em uns e outros, na respectiva equação da acção, a conveniência é o primeiro ponderador. O resto são
O princípio da silly season. O senhor presidente da República, em razão de, no seu superior juízo, “não estarem asseguradas as condições mínimas adequadas a uma participação significativa dos portugueses”, revelou tino ao decidir não convocar o referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. É que, como qualquer criatura com trambelho dispõe, com as férias não se brinca. Até porque são um direito. E férias e galopinagem não combinam. Quando é estio, tanto os gentios quanto os galopins, os de conversa ou os de barganha, o que querem é descanso e emprestar repouso às suas fulgurantes virtudes republicanas. Por isso, cautelar, o senhor dr. Jorge Sampaio tratou de assegurar desde já as condições mínimas adequadas ao estival sossego cívico dos portugueses. Enfim, há neste gesto uma fina coerência moral que, até porque vem de onde vem, comove. E faz vir as lágrimas. Nicky Florentino.
Filho da mãe. No domingo, ele ofereceu à progenitora um livro. The Marriage of Heaven and Hell, de William Blake. Segismundo.
Manifesto. Aqui, neste tugúrio, não somos de leis ou de as ditar. Por isso, sem autoridade ou ilusão de grei valente e imortal, é proposto: honra e glória aos infames! Porque dos infames é o outro lado, o planalto mais elevado da existência. Porque dos infames é a autenticidade. Porque dos infames brotam as sobras do avesso da luz, as sombras. Porque dos infames é o sangue mais puro, o sangue vinho, só do corpo, do seu corpo. Porque dos infames é a história não dita, mas interdita, sem domicílio nos livros. Porque só os infames são capazes de amar e trair. Porque só os infames, os verdadeiros infames, recusam a impossível equação da representação. Porque só os infames vivem a infâmia como acaso, por acaso seu. Porque só os infames, por condição própria, compreendem quem os infama, difama. Porque só os infames têm nojo - e não vergonha - da sua exposição. Porque os infames são vitrinas e vítimas de si. Porque os infames não estão isentos de erro, mas jamais merecem a redenção capaz de os requalificar para o próximo erro. Porque os infames inflamam. E assim, maus, são. Segismundo.
Labirinto e certa dor. São dois princípios. Também não são necessário mais. Dois princípios são suficientes para ela se demorar na vida e não regressar tão cedo. E a sua voz repete. São dois princípios. Se fossem poemas, talvez a dor que é não fosse. Mas é assim. São dois princípios. O Marquês.
2005-05-02
Achtung!, povo à solta. Em termos políticos, os gentios, criaturas prenhes de imaginação, gostam de inventar e complicar. Ilustração. No Reino Unido, parece que se instalou a mania de permutar votos entre eleitores de círculos diferentes, por forma a prejudicar os tories. Por exemplo, a miss x, trabalhista até à medula, anuiu votar no candidato liberal, por, na sua circunscrição eleitoral, ser ele o fulano melhor colocado para ombrear e quiça vencer o candidato conservador. E isto porque, depois de entabular conversas e lavrar acordo, o mister y, acérrimo liberal, admite votar no candidato que vai a concurso no seu círculo eleitoral pelo Labour, de modo a contribuir para a derrota do tory que aí candidata. Ou seja, até onde era suposta a civilização, a puta da democracia é um logro. Não é um regime. Nicky Florentino.
Meninos ao ábaco. Perguntaram ao senhor dr. Pedro Ferraz da Costa, “o que pensa da criação de uma disciplina de empreendedorismo na escola?”. Ele respondeu, “se os jovens soubessem fazer contas já não era nada mau”. É isto acreditar na natureza humana. Nicky Florentino.
Psique análise. Dia mundial do trabalhador, socialistas, países verdadeiramente socialistas, China, restaurante chinês, divã, tudo isto se juntou no raciocínio do Rodrigo, porque, ontem, encontrou apenas um restaurante aberto. Podia ter sido pior. Podia ter escrito dia da mãe onde escreveu dia mundial do trabalhador. Ou podia ter-lhe dado na veneta ir comer um BigMac a Chelas, Massamá ou Corroios. Segismundo.
Traição ao espelho. É quando alguém desvia a face para que as lágrimas não sejam visíveis. Segismundo.
Correspondência. Ela, se precisares de alguma coisa, diz. Por precisar sobretudo dela, ele, como se fosse um discípulo de Wittgenstein, ordenado pela última frase do Tractatus Logico-Philosophicus, ficou calado. Segismundo.
Morrer, ii. Não é a anunciação da tragédia. Pois a tragédia, a proximidade ao corpo, aquele corpo, já era e continua. Corpo. Segismundo.
Na jukebox. “Moon river” (original de Henry Mancini), por Vincent Gallo e P. J. Harvey (vozes), John Frusciante e Jim O'Rourke (guitarras) e Steve Shelley (bateria), a cinco de Abril de doismilequatro, n'The Royal Festival Hall, em London. É o que se ouve. Segismundo.
2005-05-01
Acções e obrigações. Os socialistas andam entretidos com as coisas da governação. Tanto que brincam sozinhos. E sem muitas palavras. Mas as gentes do PSD não estão para se deixar ficar. Não obstante a chatice gerada pelo senhor dr. Isaltino Morais, o senhor presidente da seita social-democrata enunciou a disposição, “vamos obrigar o Governo a fazer aquilo que o país precisa. Sem insultar ninguém, mas denunciando falhas e omissões”. Conversas mansas é o que é. Nicky Florentino.
Ensaio sobre a cegueira. Ela chegou e exibiu com empinado orgulho o bronzeado dos raros dias algarvios. Eles nada disseram. Estavam ofuscados pelos tons folclóricos dos sapatos calçados naqueles pés de cinderela. Segismundo.
Porque a vida é uma única canção, Say hello to the angels.
I want your silent parts
The parts the birds love
I know there's such a place
I had my back turned
You didn't realize
I'm lonely
You lack the things
To which I relate
But I see no harm
Come wait, come wait, come wait
It's over.
One... two... three... do me
When I'm feeling lazy, it's probably because,
I'm saving all my energy to pick up when you move into my airspace
You move into my airspace
And something's coming over me, I see you in the doorway
I can't control the part of me that swells up when you move into my airspace
You move into my airspace
But each night, I bury my love around you...
You're linked to my innocence
This is a concept
This is a bracelet
This isn't no intervention
This isn't you yet
What you thought was such a conquest
You're hair is so pretty and red
Baby, baby you're really the best...
Can I get there this way?
I think so
We should take a trip now to see new places
I'm sick of this town
I see my face has changed.
Say hello, say hello, to the angels. © Interpol. Segismundo.
Agenda. Quinta-feira, cinco de Maio, Zé dos Bois, vinteetrês.zerozero horas, Matt Elliott. Segismundo.
Página do livro das falências, i. O sorriso foi a primeira chave. Ele aproximou-se. Ela falou-lhe sobre Ballard e Cendrars. Ele aproximou-se mais. Depois ela falou-lhe sobre Magnetic Fields e Einstürzende Neubauten. Conversaram sobre os recentes concertos, de uns e outros, em Portugal. Ele falou sobre Jim Jarmusch, sobretudo sobre Mistery Train e Night on Earth. E ela calou-se, calou-se no sorriso, como quem arma um cerco e espera. Mas ele não podia esperar. Segismundo.
2003/2024 - danados (personagens compostas e sofridas por © Sérgio Faria).