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Albergue dos danados

Blog de maus e mal-dizer 

2008-11-26


a Elvira da loja dos cortinados. ela padece de oscilações, oscilações fundamentais. mudanças de humor súbitas, vertigens anímicas, passagens da depressão à euforia e da euforia à depressão, passagens num instante, isso, ela tem também. mas o que releva são as oscilações de carácter que ela sofre, pode declarar-se assim, que ela sofre autenticamente, tanto na alma quanto na carne. com frequência ela transforma-se noutra mulher, muda de identidade. sou visitada recorrentemente por demónios lascivos, se queres saber. ele aproveitou-os para casar comigo, não foi?, pois eles não se distanciaram definitivamente, não foram embora. de quando em quando aparecem e, sabes como é?, apossam-se de mim. nada posso fazer. tenho que os deixar entrar, só depois, eles dentro de mim, é que os consigo enxotar. foi o que aconteceu. ela forçou o rapaz a ir até ao seu quarto, arrastou-o literalmente, e, aí, passou-lhe um aparelho para as mãos. tem cuidado, isso veio de frança, custou uma fortuna, é uma máquina mágica, não é como as outras máquinas fotográficas. o rapaz encarou o aparelho com estranheza. nunca agarrara uma máquina daquelas. já ouvira falar de máquinas assim, instantâneas, disseram-lhe antes, mas nunca havia tido a oportunidade de ver uma, menos ainda de a operar. se o aparelho espantava o rapaz, embora não demais, pois rapidamente descortinou como funcionava, Elvira, ela mesma, deixou-o estupefacto. o motivo disto não era apenas o comportamento que ela manifestava - ele podia ser rapaz, porém sabia já bem o que era uma mulher -, era e era sobretudo o modo como ela se revelava naquela circunstância. tira-me um retrato. atónito, o rapaz obedeceu. um favo brilhante, um derrame de claridade precipitou-se diante dela. isto foi necessário para embalsamar aquele instante na folha de papel que a máquina expeliu. a luz brusca e forte é imprescindível para fundir as coisas, os corpos, os contrastes, o que é visível e filtrado pelo diafragma, no papel. a luz tem a função da forja. o resto é química invisível. sou bipolaroid, sabes? tira-me outra. apesar de não liberto da própria censura, o rapaz recuou um passo para focar melhor o corpo dela, o flash disparou novamente e o aparelho expulsou outra folha de papel. já se vê?, ficou nítido?, expressou ela a sua curiosidade. não sei, está a começar a aparecer agora, respondeu o rapaz. um vulto começou a revelar-se no papel. ela deitada, com a perna esquerda afastada da outra, exposta do períneo à púbis. via-se o contorno interior das nádegas, a extensão desde o abdómen até ao peito, apenas o seio direito parcialmente denunciado, o outro coberto pela blusa recolhida, e alguns dedos da mão direita sobre a vulva, como se tentassem aplacar o demónio que a afligia. a mão era o elemento que diferenciava aquelas fotografias, postas sobre a cómoda para comporem-se de cores, de l’origine du monde, o célebre quadro de Courbet. ela e o rapaz, ambos, contemplavam o que ia surgindo nas folhas de papel. de repente, nada mais dizendo, o rapaz saiu. desceu as escadas, galgou o corredor, passou a porta, correu, tropeçou na gravilha da serventia da casa, caiu, levantou-se, retomou a corrida e alcançou a estrada. ainda em corrida, aí cruzou-se com três pessoas, nenhuma saudou. parece que viu demónios, o raio do cachopo, murmurou para si uma velha. enrolada numa mão transpirada, como testemunho de estafeta olímpica, o rapaz levava consigo uma das polaroids. pouco tempo após, quando o marido chegou a casa, Elvira mostrou-lhe a outra. sou eu, não vês a minha cara mas sou eu. ao orgulho dela correspondia o incómodo do homem, que percebia estar exposto a mais do que à intimidade da sua mulher. as mãos rudes e encardidas vincaram e marcaram a imagem que seguravam. ele estava incrédulo e furioso por alguém a ter fotografado naqueles impreparos, quase nua, despida onde importava que não estivesse descoberta. não era a indecência que o levava para além da irritação, era a vergonha que, mais do que imaginar, ele sentia irromper na fronte. foi o rapaz, não foi?, perguntou ele asperamente. Elvira confirmou, sim, foi ele, atenuando no entanto o que o marido presumisse da irresponsabilidade do rapaz, mas ele não me tocou, ele até fugiu daqui muito constrangido. os olhos do marido estavam raiados, a raiva pulsava nele. a mão cerrada envolvia e apertava a fotografia, engelhava-a. um calor mais do que de febre, um calor eléctrico corria-lhe o corpo. ela abraçou-o. sabes como eu sou, tem calma, já voltei a ser a mesma, agora sou outra vez eu, aquela que é tua, só tua. todavia os dedos dele continuavam a prensar violentamente o papel, quase fundindo-o na palma da sua mão. isto não fica assim, Elvira, desta vez isto não fica assim, clamou ele. vá, acalma-te, não exorbites, meu amor, estou aqui contigo, tentou ela sossegá-lo. desta vez passaste das marcas, Elvira, excedeste-te, gritou ele mais, afasta-te de mim, mulher de máscaras e do diabo, ao mesmo tempo que a empurrou, de modo que não disfarçava a ameaça. O Marquês.


2003/2017 - danados (personagens compostas e sofridas por © Sérgio Faria).