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Albergue dos danados

Blog de maus e mal-dizer 

2008-10-20


hotel michaux

# i, quarto 3.14
. este rapaz, porque o corpo pertence a um rapaz, seguramente que ele não é mais do que um rapaz, está a ponderar a hipótese de matar-se. outros chamar-lhe-ão suicídio, mas suicídio é semântica estatística e de repartição pública, não é isso que ele pretende. ele não quer suicidar-se, ele quer matar-se. na recepção fez menção clara ao quarto que desejava, nenhum outro, o 3.14. o quarto é duplo, como são todos os quartos do terceiro andar. por o seu pedido ter sido específico, desejo o quarto 3.14, julgaram que ele queria ficar num quarto onde já tinha estado antes e sentira-se bem. não fizeram perguntas indiscretas, apenas quiseram saber se, por o quarto pedido ser duplo - esta informação foi-lhe prestada em tom de aviso -, ele estava à espera de alguém. ele respondeu sim, mais tarde virá alguém encontrar-me, após o que desejaram-lhe uma estadia boa. o rapaz está junto à janela, que oferece uma paisagem bucólica espraiada pelo parque da cidade. está com as mãos nos bolsos das calças. continua absorvido nos seus raciocínios. se fossem cavalos, os seus pensamentos trotariam. por instantes admito interceder, interpelá-lo, talvez dialogar com ele. não sei como ele possa reagir. temo que a minha intromissão nos seus pensamentos possa sugerir-lhe algum gesto drástico, sem remissão. não tenho intenção de acelerar-lhe a morte ou, por algum motivo, ser acusado de a ter provocado. vou ficar a testemunhar, testemunhar apenas, que é agora o ofício divino. percebo que o raciocínio do rapaz é aritmético. escolheu um quarto do terceiro andar numa alusão ao triunvirato que consubstancia deus, o pai, o filho e o espírito santo. escolheu o quarto catorze por replicar, em dobro, o sete, o sete dos sete selos, das sete trombetas, dos sete cálices da ira, dos sete flagelos. tudo isto é-me familiar. mais do que familiar, é-me íntimo. por isso neste momento julgo que não devo evitar-lhe a lucidez que lhe recomenda a morte. é uma solução como qualquer outra. pode não ser uma solução definitiva, depende da consequência do que ele tentar. talvez devesse conversar com ele, instruindo-o quanto ao melhor modo de matar-se. mas, percebo, tal assistência retirar-lhe-ia o carácter voluntário que ele deseja. o rapaz quer sentir-se livre no momento em que há-de tentar tanto a aventura quanto o fim. só espero que ele não demore muito. quero saber como é que ele fará. o catálogo não inclui muitas hipóteses. os rapazes costumam preferir e tentar modos aparatosos. no entanto ele parece recatado e reservado, avesso a espalhafato. espero que ele não demore muito. Edgar da Virgínia.


2003/2017 - danados (personagens compostas e sofridas por © Sérgio Faria).