Outono presente. Estranhei as companhias desta noite. Evitei as ruelas do Bairro, os lugares do costume. Subi ao Princípe Real mais cedo que havia estimado. Passei pelo Pavilhão. Não demorei. Precipitei-me para casa. Sentei-me sobre um dos almofadões da sala. E recordei um episódio. Conto-te a estória. Uma vez apaixonei-me por um rapaz, falava ele com outros sobre Whitman. Falava de Whitman como se falasse do avô, como se houvesse convivido intimamente com ele, crescido sob a sua tutela, a ouvir e a aprender a força telúrica da vida. Não o confessei na altura por me ter parecido patética e perigosa a paixão. Nenhuma pessoa se apaixona porque ouve outra a falar sobre Whitman. Mas aquilo que ainda mais me arrebatou em tal rapaz não foi o facto de ele falar sobre Whitman e, como sobre Whitman, sobre Rimbaud e Baudelaire também, foi o facto de ele saber distinguir D. H. Lawrence de W. H. Auden e saber falar sobre diferenças que, no modo como foram ditas, eu pouco havia sentido. Muitas vezes apeteceu-me perguntar se aquele rapaz existia como parecia existir. Parecia solto, demasiado solto, ausente de quase tudo, dos lugares, das pessoas, dos jantares, das conversas, de si também. Do pouco que mais descobri dele foi um seu estranho prazer: ver filmes sozinho, sem ninguém mais, nas salas de cinema de Lisboa. A primeira vez que o toquei foi numa noite como qualquer outra, numa sala de cinema onde estávamos apenas os dois, quando, já depois de o filme ter corrido bastante, lhe rogei a protecção da sua proximidade e me sentei ao seu lado. Foi um acto louco, sei, mas foi livre. Do que aconteceu depois não falo. Não se deve falar das tempestades que são únicas, que, embora intermitentes, não acabam e se prolongam até um tempo indízivel, sempre imediato e permanentemente dissoluto, que é o presente. Hoje arde-me a falta desse rapaz. Arde-me muito. Não o digo. Mas também não o finjo. Agora vou dormir. Deixo a porta do quarto aberta. Boa noite. Escreveu-lhe ela. Segismundo.
