Dogville, o último celulóide composto por Lars von Trier, é um filme recomendável. Não por ser repugnante, como pretende a interpretação mansa do Ivan, mas por reportar o modo como a confiança, a construção da confiança, nas suas dimensão cognitiva e moral, condicionada por situações e circunstâncias de existência e de vivência, tende a gerar uma assimetria com relevância nas relações sociais. O filme é um exercício de ficção etnometodológica, um ensaio sobre a economia política da aceitação do estranho. Não é apenas uma mulher, stranger in a strange land, em fuga, acolhida, explorada pelo acolhimento, abusada pelos acolhedores. É a mulher que, depois, soberana, majestosa, admite a sobrevivência de Moses. O único cão da estória. Redimindo-se do facto de, na origem, lhe ter roubado um osso. E justificando, assim, o nome do lugar, Dogville. Na prática, o filme é uma narrativa da vida. De uma vida plausível, embora fingida para a câmara em regime Dogmanoventaecinco. Com o bem e o mal como motivo de uma tensão que adorna a trama, não como centro ou fundamento da trama. E é um filme mais sobre a humanidade do que sobre a América, fosse esse o propósito manifesto do realizador ou não. É por isso que, no cabo, quando soa Young americans de David Bowie, a sensação é estranha, estúpida. A fazer lembrar os decabidos sinos, pendurados no céu, a repicarem, no remate de Breaking the Waves. Mas é só isso. Pois a metáfora, como realizada por von Trier, é o que é. Embora a realidade possa ser diferente. Como tudo. Segismundo.
