O senhor Prof. Doutor deputado Francisco Louçã entende chocante a “invisibilidade da pobreza”. Fosse ele desgraçado, lupemcriatura, sem eira ou beira, e não estaria certamente disposto ao orgulho de se exibir pobre. Os pobres não ostentam a sua pobreza. Por isso, a sua invisibilidade, a invisibilidade da pobreza, é uma consequência do decoro dos pobres. A pobreza não é para ser vista. Aliás, vê-la implica estar demasiado próximo dela, estar-lhe cativo. E ninguém com um mínimo de trambelho deseja aproximar-se o suficiente da pobreza para que ela ser revele aos seus olhos. É provável até a existência de quem, não por acaso, prefira a cegueira à pobreza. Enquanto a cegueira é compensada pelo apurar dos restantes quatro sentidos, a pobreza é compensada apenas por si mesma ou pior, a miséria. Enfim, pobreza que é pobreza deve ser e preservar-se invisível. Pois ou é isso ou é a vergonha. O Marquês e Segismundo.
